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(Desculpa o capítulo grande, mas ele promete! )

BIRO: 🤑

O bagulho é o seguinte, Hoje é o dia, A cela tá do mesmo jeito. fria, fedendo a mofo, e com esse silêncio tenso que parece anunciar algo no ar, Mas meu peito? meu peito tá gritando.

Acordei com uma notícia que fez meu mundo virar do avesso.

O PH conseguiu o recado, Veio curto, direto, na boca de um dos agente comprado,
"Érica foi pro hospital, É hoje, Isaac vai nascer, teu filho tá vindo pro mundo, vagabundo."

Isaac, Meu filho, Meu moleque, Meu Herdeiro.

Eu prometi que ia tá lá quando ele chegasse, mesmo que o mundo inteiro dissesse que era impossível, Mesmo que as muralhas tão altas me dissesse “desiste”, Eu não sou do tipo que assiste a vida dos meus de longe, Eu sou o tipo que atravessa o inferno se for pra proteger os meus, E hoje, eu vou atravessar.

Essa fuga não era pra agora, O plano era pro mês que vem, tudo esquematizado, tudo limpo, Mas filho não espera plano, Filho vem quando tem que vir.

Olhei pro Sombra no pátio depois da última chamada da manhã, Ele entendeu na hora, Só troquei o olhar e ele já sabia.

Sombra: Eae putão? — Se aproximou mais. — É hoje, né? — Encostando no bebedouro com aquele ar de quem já viveu muito.

Biro: É, A hora é agora, meu pivete vai nascer, porra. — Sorriu, deu dois tapinhas nas minhas costas e saiu com um sorriso.

Voltamos pra cela e desenrolamos o mapa mental que já tava ensaiado há semanas, Sombra tinha feito amizade com um dos eletricistas que vinha fazer manutenção.

Conseguiu cópia de chave, detalhes de rotina, troca de guarda, O cara do corredor H, O Reizinho, que já puxou 12 anos só nessa ala, tava com a gente, Os menor que eu treinei também, os moleque de visão que sabem que liberdade não é só correr, é saber por quê se corre.

Biro: Pela família. — eu disse.
Reizinho: Pela honra. — completou Reizinho.
Sombra: Pela missão. — disse Sombra.

A cela 15 vai ser o ponto, Tem uma entrada pro duto de ventilação velho, Sombra me mostrou dias atrás, disfarçado de arrumação, Fica atrás de uma chapa que já tá com os parafusos soltos, Dali, a gente segue rastejando pelo sistema antigo que passa por trás do setor administrativo, É arriscado, mas é a única brecha sem câmera direta.

E a gente não vai sair só rastejando, PH já posicionou uma van com os documentos prontos, disfarce pra quem conseguir sair, Os caras tão esperando num ponto de fuga a 3KM da lateral norte, A parte externa tá com dois dos nossos observando o movimento dos federais, O momento é entre 2h e 3h da manhã, troca de turno e queda de sistema de ronda, O eletricista ia dar o toque, desligar o circuito por exatamente 7 minutos, Nesse tempo, a gente tem que tá fora do bloco, no muro de contenção.

Fácil? Nunca foi, Mas quem disse que nossa vida é feita de caminho fácil?

Sombra acendeu o cigarro dele devagar, soprou pro lado e disse.

Sombra: Se a gente morrer tentando, pelo menos não foi calado. — Eu ri.

Biro: Mas a gente não vai morrer, A gente vai conhecer o Isaac. — Ele assentiu e riu.

[...]

A madrugada caiu pesada, daquele jeito que só quem vive atrás das grades entende, A cela parecia respirar comigo cada segundo que passava, o coração batia mais forte, mais seco, Tudo que a gente treinou, tudo que planejamos, tudo que esperamos, era agora.

Sob O Morro Onde histórias criam vida. Descubra agora