RETA FINAL!
PH: 🤪
Eu sempre achei que ia morrer novo, TipO, antes dos 25, no mínimo, É que aqui onde a gente vive, sonhar muito é quase desrespeito com a realidade, Mas aí veio a Mayara, Depois as crianças, E eu comecei a pensar mais no depois do que no agora.
Não que isso mude alguma coisa, Eu sou PH, Sub do morro, Mão direita do Biro, O cara que resolve, Que dá ordem, Que faz o bagulho girar, E isso pesa, Pesa pra porra.
Já faz um tempo que eu penso em sair, Ir pra outro canto com a Mayara, longe da guerra, da correria, do medo, Ver meus filhos crescendo sem ouvir rajada, sem correr pro chão a cada grito, Só que eu só falei isso uma vez pra Mayara, e nem ela deve lembrar, não queria falar pra ninguém, Muito menos pro Biro, Não é medo, É lealdade.
Eu e ele temos um laço que vai além de bala e sangue, É consideração, É gratidão, Ele confiou em mim quando nem eu confiava, E largar isso parece trair, Mas tem dia que a vontade aperta.
Hoje mesmo, acordei com meu filho me chamando, batendo as mãozinhas no meu peito, querendo que eu colocasse o chinelo no pé dele, Coisa simples, besta, Mas aquilo me travou, Ele confiando em mim pra um negócio tão pequeno e eu pensando se volto inteiro no fim do dia.
Que porra de vida é essa?
[...]
Desci com o radinho no bolso, camisa branca e bermuda branca rasgada, Olhei pro céu, Nublado, Igual minha cabeça.
Primeira missão hoje, conferência do carregamento que chegou de madrugada, Tinham três malas de 9mm e algumas caixas de fuzil, Tudo certo, contado, separado e guardado no canto do complexo, Assinei o papel com o cara da firma, um tal de Carlinhos do 3º, desenrolado, mas ligeiro demais pro meu gosto, Agradeci e pedi que saísse em silêncio.
Segunda missão, reunião com o segurança da escola lá da quebrada, Tava rolando boato de abordagem da PM no portão e mãe já tava reclamando, Troquei ideia, mostrei presença, disse que era pra resolver isso antes de alguém sumir, Tem criança ali, Tem futuro, E isso a gente ainda tenta proteger, mesmo sendo "o vilão da história".
Terceira missão, visita à mãe do moleque que foi atingido sem intenção no tiroteio da semana passada, Levei grana, pedi desculpas, mesmo não sendo culpa nossa, Mas o olhar dela me doeu mais que qualquer bala, Aquilo pesa, A mãe nem gritou, nem chorou, Só olhou, Como se dissesse "E se fosse seu filho?"
Se fosse meu filho, eu destruía o mundo inteiro... Voltei pro beco já com o sol sumindo, Encostei na parede e fiquei vendo o movimento, Pensei em ligar pra Mayara, Dizer que tava indo pra casa, Ou melhor, que queria ir embora de vez, Mas não falei nada.
Mais uma vez, Porque mesmo com esse peso nas costas, eu continuo aqui, Por eles, Pelos meus, Por Biro.
Mas até quando?
[...]
Cheguei em casa no automático, Nem lembro do caminho, A cabeça tava longe... no beco, nas mães chorando, no meu filho me pedindo chinelo.
Abri o portão devagar, já ouvindo aquele barulhinho de pé batendo no chão, Os dois, Emilly e Renan, vinham correndo de fralda, gritando coisa que só eles entendiam.
PH: Falaa meus Pivetinhos… — deixei o radinho no canto, abaixei e os dois pularam em mim.
Renan veio me mostrando uma colher de brinquedo como se fosse um troféu, e Emilly me abraçou apertado, daquele jeito que só ela sabe fazer.
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Sob O Morro
أدب الهواة📍Rio de janeiro, Rocinha +18 Eu não sonhei em ser dono de morro, só fui vivendo, Quando vi, já tava com fuzil no ombro, nome na boca da polícia e respeito na quebrada, Aqui, quem anda devagar vira alvo, quem ama demais vira fraqueza... mas mesmo no...
