capitulo 5

59.7K 3K 107
                                        

Escobar

Abri os olhos com a claridade invadindo o quarto, e a lembrança de onde estava veio na mente. O colchão tava afundado, lençol amarrotado.

Minha cabeça latejava, e a memória ainda vinha aos poucos. Lembrei da noite passada, de ter brotado na base de uma loira.Tava tão chapado que não sabia nem como vim parar aqui.

Levantei devagar, sem fazer barulho, pra não acordar ela. Tava deitada de lado, dormindo, com o cabelo espalhado no travesseiro. Peguei minha camisa no chão, calcei o tênis e fui saindo de fininho. Mas não deu nem três passos e escutei a voz dela.

— Já vai? Tem nem uma despedida?

Escobar: Tá tardão, gata. Tenho que ir, mas aí pra tu — Abri a carteira e deixei duas notas de duzentos no criado mudo. Não que ela fosse puta, mas era um agrado pelo menos.

— Quando que a gente se esbarra de novo, Escobar?

Escobar: Logo mais — falei, dando aquela pausa pra lembrar do nome dela. Tinha alguma coisa com E.

Ela levantou sem vergonha nenhuma, nua mesmo. Pegou meu celular da minha mão e digitou algo, depois me entregou com um sorrisinho malicioso.

— É Ester, viu? Sabia que cê não lembrava. Tava bêbado demais ontem.

Escobar: Tô ligado.

Não disse mais nada. A cabeça já tava voltando pro lugar, e o dia tinha começado. Tomei uma ducha gelada em casa, troquei de roupa e fui direto pra rua, com estômago roncando.

O almoço desceu redondo, arroz, feijão, uma carne cozida no tempero. Depois de comer, fui pra boca.

O Th tava reunindo um pessoal, e eu era um dos convocados. Ainda era 14h, cedo pra quem saiu do baile quase às dez da manhã.

Th: Faltava só tu. Todo mundo esperando a mocinha aí.

Escobar: Fazer o quê, né? Mocinha tinha que almoçar. — Joguei o corpo no sofazinho da base.

R3: Tava almoçando a loira, né pô?

Escobar: A reunião é pra falar quem eu tava comendo? Cuidado aí pra tua mãe não virar pauta. — Ri vendo a cara dele ficar vermelha.

R3: Coé, filho da puta! Mandou dessa mesmo? Apelando? Tu sabe que eu não tenho mãe. — Disse rindo. — Mas se o papo for com a minha madrasta, tu também tá fodido.

Escobar: Fala muito, menor.

Th: Papo gostosinho o de vocês, né? — cortou o clima — hoje vamo brotar no CPX do Alemão. Geral aqui vai comigo. Uma hora da manhã a gente cai na pista.

Tatu: Rolê ou missão?

Th: Tá de bobeira, tu? Acha que eu vou levar macho pra dar rolê comigo? — ri — É reunião com o Ogro.

Era sempre um pé no saco essas reuniões em outras favelas no meio do baile. Eu gostava de ir pra beber, curtir... não pra ficar ouvindo maluco falar de tráfico e esquema.

Marcamos o plano ali mesmo. Só o básico, horário, rota, quem ia armado, quem ia dirigir. No fundo era mais gastação entre nós do que outra coisa.

Depois, brotei na pensão da minha mãe. O bagulho tava ficando maneiro. Tava investindo uma grana ali, reformei tudo, só a cozinha que ainda faltava. Mas dona Silvana, com aquele jeito teimoso de sempre, não queria fechar nem por um dia.

Escobar: Fala tu, coroa. Tem tempo pra mim?

Silvana: Aparece quando quer, né? Mal lembra que tem mãe. — Saiu da cozinha com um pano de prato no ombro, toda confortável.

Escobar: Ó os dramas... — Abracei ela apertado. — Tá tudo bem com a senhora?

Silvana: Tá sim. E você, hein? Marina passou aqui mais cedo, perguntando de você. Tava toda nervosa.

Escobar: Tu sabe como aquela lá é, maluca. E o Sérgio?

Silvana: Seu pai, Vinicius. Seu pai. — Reclamou como sempre. — Ele tá bem. Tava com uma dorzinha ontem, mas foi no postinho.

Escobar: Deixa uma meta aí. Se precisar de dinheiro pros remédios, qualquer coisa, me chama. Mando alguém levar vocês na pista.

Silvana: Ele pediu pra não avisar. Disse que não era nada grave.

Escobar: Se ele desceu pro postinho, não era besteira. Fico puto quando vocês me escondem as paradas, papo reto! Tem que me avisar. — Ela só assentiu, querendo cortar o papo — Tem como mandar uma quentinha aí, não?

Silvana: Quer o quê?

Escobar: Tem costela hoje?

Silvana: Tem.

Escobar: Manda então.

Não tem igual a comida da minha mãe. Aquela costela cozida com mandioquinha derretendo na boca era meu ponto fraco. Deixei o dinheiro, peguei a quentinha e fui descansar. Tinha baile de novo mais tarde, e minha vontade era zero.

[...]

A reunião até que foi rápida. Uma hora só. Depois disso, o clima virou outro. Geral tava curtindo de boa.

Eu fiquei mais na minha. Ogro tava por lá, e embora eu respeite o cara, até porque nunca me deu motivo, ele tem um jeito muito folgado. E eu não consigo engolir essa porra.

R3: Tira essa marra aí, pô! Várias mina nova. Tamo sendo o centro das atenções. Se liga na pretinha ali, tua cara, parceiro.

Virei pra olhar. Quando vi, tive que rir. Era a folgada de ontem. Que porra é essa? Nunca vi a mina antes, e agora parece que tá em todo canto. Até no Alemão.

Ela me olhou daquele jeito debochado, sorriso provocante no canto da boca. Tô falando, maluca.

Fiquei ali de canto, segurando um copo, só observando. Na noite anterior, nem tinha reparado direito, mas agora... a garota era bonitona. Tinha algo diferente. Morena, cabelo longo, olhar puxado, corpo daquele que faz vagabundo perder o juízo. Mas era folgada demais. Senão, já era dentro.

Vez ou outra ela me olhava enquanto dançava, e cada vez que rebolava, era impossível não pensar putaria. O álcool subia rápido, e o calor só piorava.

Ajeitei a pistola no coldre debaixo da blusa, saí dali e fui dar um tempo. O banheiro tava com fila quilométrica, então preferi resolver num beco.

Saquei, mijei no canto da viela, e depois encostei num carro pra acender um cigarro.

— Perdido?

Levantei o olhar. Lá vinha ela. Toda mole, andando como se estivesse flutuando, os olhos semicerrados, sorriso no rosto. A cara não negava que estava bêbada.

Intocável - em processo de revisão! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora