capitulo 23

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Beatriz

O morro tá basicamente em guerra tem 3 dias, todos esses dias está tendo invasão. A gente acorda com barulho de tiro e dorme com barulho de tiro. Mesmo quando para, a tensão continua a mesma com a possibilidade de voltar. Eu tô ficando na casa do Luan esses dias, porque quebraram tudo na minha casa.

Os comércios aqui estão fechados, principalmente os que são mais pra dentro da favela. Alguns lá de baixo ainda tá aberto funcionando. Mas o clima aqui tá péssimo, fica uma energia negativa pairando no ar. Todo dia ainda tem gente espalhando fofoca dizendo que fulano, ciclano morreram, só deixando as famílias nervosas.

Eu tô chateada, tô bem puta pra falar a verdade. Minha casa tá destruída e tudo que tinha lá dentro, foi eu quem comprei. Com excessão da casa, mas de resto, foi eu mesmo que me virei e comprar cada item. O mal de todo mundo é me olhar e achar que eu vivo na aba do Luan só por ser irmã dele.

Mas tá tudo bem. Deus vai me recompensar e logo eu vou estar em casa de novo e com todas as minhas coisinhas. O que me incomoda de estar aqui na casa dele é a falta de privacidade, já estava acostumada a morar sozinha. Também sinto que to atrapalhando o casamento e a rotina da casa dele. Porque a Miriam tá chata, gravidez deixa as pessoas assim normalmente, eu sei. Antes eu nem percebia, mas porque eu convivia e não morava com ela todo dia.

A tela do meu celular vibra e eu olho as duas pessoas que me mandam mensagem. O Vitor e o Escobar. 

Escobar: vc tá tranquila?
Escobar: bagulho aí tá feio, fiquei sabendo do bagulho da sua casa, uma pena.

Bia: tô bem
Bia: como vc soube?

Escobar: teu irmão já falou contigo?

Bia: sobre?

Escobar: isso responde minha pergunta, daqui a pouco tu vai saber
Escobar: mas aí, se cuida, não sai de casa não.  —sorrio pra tela do celular, como se fosse uma idiota.

Bia: pode deixar
Bia: mas sobre o que meu irmão falaria comigo?

Escobar: papo de vocês, vou sair do ar

Bia: tá bom

Escobar: te cuida

Bia: vc tb

______

Vk: Bia?

Bia: diga

Vk: desculpa por ter sido grosso com vc

Bia: de boa, só vc precisa entender que nós somos só amigos. Principalmente parar de insistir.

Vk: já entendi isso agora, tô em outra — faço cara feia lendo a mensagem. Eu tenho a sensação que ele me mandou mensagem só pra ter uma brecha e falar isso.

Miriam: tô te chamando Bia, tá ouvindo? — ela me cutuca e eu olho ela parada aqui do meu lado.

Bia: oi. —desligo o celular e olho pra ela— tá tudo bem?

Miriam: Vamos jantar, seu irmão quer falar contigo.

Era um milagre ele estar aqui em casa hoje, até porque de manhã teve trocadão de tiro e nesses dias tudo ele se manteve mais na rua do que em casa.

Calço a sandália, assim que chego na cozinha vejo o Luan e o Mauricio sentados na mesa comendo. Mauricio entrou com tudo nessa vida e não teria momento pior pra isso. Mas é pra aprender também. Quem surtou foi a minha mãe, os dois únicos filhos dentro do criem.

Bia: vai comer não? — falo pra Miriam, depois de colocar meu prato e me sentar na cadeira.

Miriam: seu sobrinho não deixa, se eu como vomito, tô passando muito mal o dia todo — Deus me livre engravidar cara, Miriam tá sofrida aí, só vive vomitando e chupando limão.

Ogro: Você e a Miriam vai tem que sair da favela, não sei quanto tempo vai durar e tu Beatriz, tá na mira da polícia, melhor se afastar do morro por um tempo.  — falou rápido me olhando. Deu nem tempo de eu colocar a comida na boca.

Luan nunca deixou explícito que nós éramos irmãos, pra não ter perigo de um dia me acusarem de associação ao tráfico. Mas se eles caçar um pouquinho, acham. Até porque temos o mesmo sobrenome e andamos juntos direto. Fora que ligação familiar não é a coisa mais difícil deles encontrarem.

Bia: como assim? Pra onde a gente vai?

Ogro: pra uma favela aliada, arruma as coisas de vocês, vão sair de madrugada.

Bia: não é assim as coisas, você não pode me mandar pra outra favela só porque você quer. Eu tenho uma vida e ela é aqui.

Maurício: para de ser infantil porra, vê a situação. Tu não pensa em ninguém, só em você. Já imaginou se tu morre aqui? Como a mãe vai ficar? A gente, hm? Ou se tu vai presa? — ele fala todo ignorante me fazendo rir.

Bia: você tá falando que eu sou egoísta? — ele assentiu — logo você dizendo isso? Quando nosso pai morreu, que a nossa mãe entrou em depressão, onde você tava? Você fugiu, pensando somente em você, seu egoísta de merda.  — gritei mesmo — Luan é muito otario de dar um cargo bom pra você, já que você julgava tanto ele por estar nessa vida. Chegou ontem e tá querendo botar moral, não fode porra! — levanto da mesa pegando meu prato de comida cheinho.

De todos, o Mauricio era o que menos tinha moral comigo. Pra ele, eu não deito mesmo. Como toda a minha comida e continuo aqui dentro no quarto pra não descer e encarar aquele filho de uma mãe.

Ogro: tá mais calma? — bate na porta do quarto e empurra entrando e vindo sentar no pé da cama — eu dei uma oportunidade pra ele, porque ele é nosso sangue Beatriz. Independente do vacilo que ele deu. E tu também é meu sangue e sabe que faria de tudo por você, posso ser bem possessivo as vezes, mas é pra te proteger, tu é minha irmãzinha. Tô mandando tu pra outro lugar só o tempo da favela se acalmar e a polícia te tirar da mira, eu vou resolver isso e vocês voltam pra cá. Tu acha que eu queria a minha mulher grávida longe de mim? Lógico que não pô.

Bia: e aonde eu vou ficar?

Ogro: na maré, já arrumei uma casa pra tu e pra Miriam. Arruma tuas coisas, só o necessário e de madrugada a gente sai. Não vai ser por muito tempo, entendeu? - confirmo com a cabeça e ele se levanta - depois fala com Maurício, pede desculpa pelo que tu falou, pegou pesado.

Bia: eu não, não vou pedir desculpas a ninguém, não disse nenhuma mentira. Você sabe muito bem disso - o Luan balança a cabeça negando, mas não fala nada.

Levanto respirando fundo e pego três malas grandes colocando tudo que eu preciso. Quero ir? Não! Mas é preciso, então eu vou. Melhor do que ficar trancada em casa também. Quando eu acabo, me sento na cama e converso com a minha mãe pelo celular. Ela tá bem preocupada, não consegue nem vim visitar a gente durante esses dias. Então eu só acalmo ela e explico a situação.

Provavelmente eu não poderia ficar na casa da minha mãe se não acabaria levando ela pra mira da polícia também, e na pista de jeito nenhum eu estaria segura. Pelo contrário, mais vulnerável ainda.

Quando dá três da manhã, a gente sai daqui do morro vendo as ruas vazias, mas o mesmo clima pesado. Era até estranho ver aqui assim durante o final de semana, já que sempre tá cheio de gente.

Intocável - em processo de revisão! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora