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Mas o que tinha acabado de acontecer?

Os dois estavam brincando e rindo, e,
de repente, em questão de segundos, Lili estava falando de vagabundas e
batendo a porta na cara dele. O que ele tinha dito?

Ela parecia apressada, então Cole não quis irritá-la fazendo-a esperar enquanto ele pegava o número dela.
Pensou que estivesse agindo como um cavalheiro, ou ao menos tentando ser
um. Mas, segundo Lili, tinha agido como um babaca.

Mulheres.

Será que algum dia conseguiria
entendê-las?

Enquanto deixava o estacionamento, refletindo sobre todos os motivos pelos
quais beijar Lili outra vez seria uma péssima ideia, o celular tocou.

— Que foi? — Estava rouco.

— Opa! Dia ruim? — Dylan riu.

— Tive aula de dança. O que você acha?

— Sinto muito. Espere, você disse que teve aula de dança?

— Não vou repetir — respondeu Cole, seco. — Ah, aliás, é capaz de vovó não
poder ir ao casamento.

— Sério? Por quê?

— Vou matá-la. Hoje à noite. Ou então vou colocar algum tranquilizante nas
vitaminas dela.

— Ah! Bem, não use Benadryl. Ela já tem tolerância a esse.

— É, bem, depois do que aconteceu com Camila, acho que todos podemos dizer que temos tolerância. Posso jurar que usei uma caixa inteira na última vez
que tive crise alérgica.

— Fico feliz que ainda esteja respirando. — Dylan riu.

— Não seja babaca. O que você quer?

Dylan riu mais uma vez.

— Primeiro me conte mais sobre a dança.

— Dança do acasalamento — corrigiu Cole, pegando a saída para a loja de
smokings. — Foi tudo bem. Lili salvou a minha pele. Madame, e sim, esse é o
nome dela, queria um novo brinquedinho.

— Como é?

— Um brinquedinho, uma distração, um homem com quem brincar e que
pudesse vestir como quisesse. Era provável que você nunca mais me visse.

— Assustador.

— Você não faz ideia. De qualquer forma, acabei de deixar Lili no trabalho e vou tirar as medidas para o smoking.

— Beleza.

A ligação ficou silenciosa.

— Dyl? Está aí?

— Estou. — O irmão ficou quieto outra vez. — Preciso perguntar uma coisa.

— Não, não vou doar um rim para você, peça à vovó.

— Ela só tem um.

— Por isso mesmo.

Dylan suspirou.

— Não é isso. É...

— Ok, agora você está me assustando.

— Então, você sabe que o papai vai levar Camila até o altar, né?

Cole acabara de estacionar e suspirou.

— Sei.

— Ela, hã... — Dylan soltou um palavrão. — Ela queria saber se teria
problema se você... se você fosse com eles.

— Eu? — gritou Cole. — Por que ela iria me querer ao lado dela? Isso é uma
piada? Se sim, não é muito engraçada...

— Pare de gritar! — Dylan soltou outro palavrão. — Viu? Sabia que você iria
surtar. É só que... Você e Cami foram melhores amigos por tanto tempo, e,
mesmo com esses dois anos complicados, você ainda é importante na vida dela. E ela quer homenageá-lo.

Droga.

Cole nunca chorava.
Nunca.

A última vez que chorara fora quando os pais de Camila morreram. E, mesmo assim, ele se trancara no dormitório e bebera até esquecer que tinha chorado
lágrimas de verdade. Mas desta vez... sentia uma vontade absurda de chorar até não aguentar mais.

Porque não devia ser ele a levar Camila até o altar. Nem o pai dele. Devia ser o
pai dela. Parte dele, uma parte pequena, se sentia culpada do que acontecera e achava que todos estariam vivos e felizes se fosse possível voltar no tempo e consertar algumas coisas.

— Cole, está me ouvindo?

— Estou — respondeu, rouco. — Posso... hã... Posso pensar no assunto?

— Claro.

— Certo. — Cole bateu no volante com uma das mãos. — Preciso ir. Diga oi a Camila por mim.

— Ok. A gente se fala depois.

Cole desligou o carro e bateu no volante de novo. Uma vez não tinha sido o bastante. E bateu de novo, e de novo, até que a mão ficou tão dormente que ele teve certeza de que precisaria colocar gelo depois.

Um dia ele contaria tudo a Camila. Explicaria que o pai dela tinha... salvado a vida dele.

Sentiu um gosto amargo na boca ao pensar no passado — no passado como um todo. Será que Victor Mendes sentiria orgulho dele e das escolhas que fizera? Ou será que faria o que fizera oito anos antes... Que o faria cortar lenha e cavar buracos até que seus dedos sangrassem — até que ele percebesse o enorme erro que
tinha cometido?

Praguejando, Cole saiu do carro e caminhou até a loja de smokings. Precisava pensar naquele convite — pensar na possibilidade de levar Camila até o altar —, mesmo que isso significasse que não seria ele o homem a esperá-la no fim do caminho.

Nunca tinha merecido um amor como aquele e provavelmente nunca o mereceria.

continua...

THE CHALLENGE. (Concluída)Onde histórias criam vida. Descubra agora