Tess estalou os dedos na frente do rosto de Lili.
— Ei, você ouviu alguma coisa do que eu disse?
Lili sentiu as bochechas ficarem coradas enquanto tomava um longo gole do vinho.
— Claro, você estava falando sobre o trabalho. — Não era nenhuma novidade.
O trabalho de Tess, que era química em um laboratório médico, sempre rendia histórias sem graça.
— E?
Lili pôs a taça na mesa, pegou o garfo e espalhou um pouco da salada pelo
prato.
— E? Continue!
Tess suspirou.
— Sério? Acabei de listar os elementos da tabela periódica, e você ainda quer
mais?
Lili soltou uma risada curta e se inclinou para a frente.
— Não me surpreende o fato de eu ter parado de ouvir.
— Onde você está com a cabeça? Hoje é a noite das garotas! Lembra? Comida? Bebida? Diversão?
Ah, você sabe! Onde a cabeça de qualquer outra garota estaria. Beijando Cole, tocando seu peito musculoso, passando a língua por seu lábio inferior e...
— Alguém disse “noite das garotas”? — Uma voz conhecida se fez ouvir no
restaurante.
Lili se virou e deu de cara com vovó. Bem, vovó e uma jaqueta dourada ofuscante, com pele de leopardo no colarinho. A calça jeans skinny era
realçada por sapatos de salto com estampa de oncinha.
— Como você...?
— Ah. — Vovó a calou com um gesto e se sentou à mesa. — Hoje em dia existem aplicativos para tudo. Sabia?
— Sim, mas...
— De qualquer forma... — Vovó acenou para um garçom e pediu três shots
de tequila. Era melhor ela beber aquilo sozinha: de jeito nenhum Lili tomaria shots com a avó de Cole! — Tem um aplicativo muito útil que se chama “Encontre Meus Amigos”!
Lili pegou o celular.
— Nem sabia que tinha isso no telefone. Nem que você era...
Vovó deu de ombros como se estivesse querendo disfarçar um segredo.
— É assim que vigio as vagabundas de Cole.
Tess engasgou com a bebida, molhando toda a mesa, e então começou a tossir.
Vovó bocejou e examinou as unhas, sem se deixar abalar pela reação de Tess. Lili olhou de cara feia para a irmã e se virou outra vez para vovó.
— Tenho certeza de que o aplicativo foi criado para que ninguém se preocupasse com os amigos e os familiares, não para que as pessoas fossem perseguidas.
— Ah, bem. Cada um usa como quiser. — Vovó pôs o telefone na mesa e
clicou na tela com um dedo. Depois clicou outra vez, e outra.
Tess tentou dizer alguma coisa à irmã apenas mexendo os lábios, mas Lili
não conseguiu entender.
O garçom serviu os shots no instante em que vovó se endireitou, batendo
palmas.
— Eu sabia!
Tess parecia estar entorpecida enquanto via a velha senhora bater palmas e erguer o celular no ar.
— Ele vai chegar logo.
— Desculpe, mas quem é você, mesmo? — perguntou Tess.
— Sou a vovó. — Aquilo foi dito com tanta normalidade, que Lili teve de
admirá-la.
Quer dizer, será que havia outro jeito de descrever aquela mulher?
Dizer “sou a vovó” devia cobrir todos os pecados.
— Saúde! — Vovó pegou seu shot, ergueu-o no ar e então olhou para as duas irmãs.
Lili bebeu um grande gole de água, pegou seu shot e o ergueu no ar,
copiando vovó.
— Um brinde — propôs vovó. — À música que cantarei no casamento do
meu neto!
— Claro. — Tess bateu o copo no dela. — Posso beber a isso.
Lili deu de ombros e tomou seu shot no instante em que Cole entrava no
restaurante e seguia direto até a mesa delas.
Ela estava acostumada a tomar shots. Mas, por alguma razão, o modo como
os jeans rasgados de Cole envolviam suas coxas musculosas a afetou de alguma maneira. A tequila desceu queimando e ameaçou voltar, ainda mais quando ele deu uma piscadela para ela e se inclinou para beijar a avó na bochecha.
Lili tossiu.
Tess suspirou.
Lili chutou a irmã por baixo da mesa.
Vovó pediu mais shots.
— Hã... — Lili soltou uma risada nervosa. — Estamos comemorando
alguma coisa?
— A noite das garotas! — anunciou vovó, sacudindo os seios para a frente e para trás, alegre.
Cole desviou os olhos e corou.
Era estranho que um homem como ele, que não tinha moral alguma, fosse
capaz de corar.
— Mas Cole está aqui. — Lili apontou para o homem pecaminosamente
cheiroso e rezou para que ele se inclinasse só um pouquinho para a frente, de modo que ela pudesse sentir o calor que emanava de seu corpo sem parecer uma doida no cio.
Vovó olhou o neto de cima a baixo.
— Ele não conta.
— Obrigado, vovó — respondeu Cole, tenso.
— Oi. Eu sou Tess. — A irmã de Lili estendeu a mão sobre a mesa e o
cumprimentou. — Teria me apresentado no avião, mas você estava todo inchado.
— Agradeço a lembrança.
— Não há de quê. Bem-vindo à noite das garotas.
— Tenho certeza de que essas foram as últimas palavras de muita gente. —
Cole pertou a mão de Tess, depois se virou para a avó. — Bem, dá para ver
pelas suas roupas que você não foi atropelada por um caminhão nem está
sofrendo uma concussão ou de escarlatina. Essa é nova, aliás. — A última frase fora dirigida a Lili. — Ela costuma deixar as doenças raras para pessoas mais ingênuas, como meu irmão. — Então se dirigiu outra vez à avó. — Que foi que houve?
Vovó ergueu um dedo e começou a procurar alguma coisa na bolsa gigante.
— Tenho certeza de que tem crianças perdidas dessa bolsa. Dá para contar
logo, para não precisarmos esperar? — Cole reclamou.
Vovó fez um gesto pedindo a Cole que ficasse quieto.
Ele pegou dois shots na mesa e os virou.
Lili deu tapinhas consoladores em suas costas. Coitado. Ela quase sentia pena
dele. Vovó levaria qualquer um a beber demais.
— Achei! — Vovó puxou um pedaço de papel e, com as mãos trêmulas,
começou a lê-lo. — Vocês dois ainda precisam completar algumas tarefas da lista que lhes entreguei hoje mais cedo, aliás. — Ela colocou o papel na mesa. — Onde será que está?
Vovó começou a revirar a bolsa outra vez, da qual puxou um par de óculos
com diamantes incrustados.
— Onde será que está o quê? Sua cabeça? — perguntou Cole. — Deve estar na bolsa.
Tess limpou a garganta para esconder a risada.
— Não, seu idiota! — retrucou vovó.
Lili pediu mais drinques.
Ofensas. Isso não era nada bom.
— A lista que eu dei a vocês hoje de manhã! Tinha um monte de pendências a ser resolvidas antes do casamento. Onde está?
— No carro — respondeu Cole.
— Perdemos — explicou Lili, falando ao mesmo tempo que Cole.
Os dois trocaram olhares irritados.
— Eu vou só... — Tess se levantou da mesa.
— Sente-se! — gritou Lili.
Tess obedeceu.
— A lista está com Cole. — Lili apontou para Cole e sorriu de um jeito doce.
Um músculo da mandíbula dele tremeu quando ele se inclinou sobre a mesa e
respirou fundo algumas vezes.
— Certo, ela está... em segurança.
— Em segurança. — Vovó bufou com desdém. — Tudo bem. Só não se
esqueça de cuidar das últimas tarefas.
— Por que você mesma não faz isso? — perguntou Cole. — Está aposentada,
não pode... sair por aí com um dos meus carros e resolver tudo?
Vovó fez silêncio, muito concentrada na própria respiração. Então virou a
cabeça bem discretamente na direção de Cole. Um sorriso frio surgiu em seu
rosto antes de ela pegar a lista com cuidado e colocá-la na bolsa.
— Se você não fosse um idiota, saberia: vou jogar cartas com as meninas.
— Todos os dias? — perguntou Cole.
— Todos os dias. Pelo menos durante a manhã — Vovó deu uma risadinha,
parecendo recobrar o bom humor.
— Ótimo. Então consegue cuidar das tarefas à tarde.
— Ah, Cole! — Ela deu tapinhas no braço do neto. — Você é tão inocente!
Foi a vez de Lili se engasgar com a bebida.
— Reservo as tardes para outras... atividades.
— Meu Deus do céu! Ao menos tente esconder o fato de que você sai por aí
fazendo... coisas.
— Que coisas? — perguntou Tess de repente, inclinando-se para a frente,
demonstrando interesse.
— Não pergunte. — Cole olhou de cara feia para Tess e sacudiu a cabeça.
Vovó deu uma risadinha.
— Ah, você sabe! Coisas. — Ela pronunciou “coisas” com grande ênfase, como se a palavra tivesse um significado muito importante, então voltou a dar risadinhas. — Adoro as minhas tardes! Ah, e como adoro! — Seu olhar ficou distante.
— Vamos precisar de mais álcool — sussurrou Lili para Cole.
— E de “Boa noite, Cinderela” — acrescentou o homem. — Quero apagar esta conversa da minha memória. Para sempre.
— Amanhã. — Vovó se afastou da mesa e se levantou. — Cole, me leve para
casa. Estou cansada. Mas amanhã você pode encontrar Lili... Que tal na hora do almoço, lá em casa? E vocês podem terminar o restante da lista antes de a gente viajar, na quinta-feira.
— Quinta-feira? — gritaram Cole e Lili.
Vovó deu uma piscadela.
— Mas é claro! Vocês precisam chegar pelo menos uma semana antes do
casamento! O que é que há de errado com os jovens, hoje em dia? — Ela tirou uma nota de 50 dólares da bolsa e a colocou na mesa com um tapa. — Divirtam-se, garotas. Não façam nada que eu não fosse fazer.
— Ótimo, vovó. — Cole praguejou. — Só falta dar permissão para que elas
sejam presas.
— Foi uma vez só! — argumentou vovó.
— Você esteve em uma prisão mexicana. Tem sorte de estar viva.
— Ah, aquele Pablo era mesmo uma coisa! — Vovó apertou o colar e
começou a acariciar as pérolas.
Tess ficou boquiaberta.
Lili precisou chutar a irmã por baixo da mesa outra vez, para que ela fechasse a boca.
— Bem, tchauzinho! — Vovó acenou e puxou Cole pela camisa até a saída do
restaurante.
A mesa mergulhou em silêncio.
Havia shots de tequila por todos os lados.
Tess olhou para Lili.
Lili olhou para a mesa.
— Então — disse Tess, chupando um pedaço de limão. — Foi divertido.
Lili gemeu e bateu a cabeça na mesa.
— Como vou sobreviver às próximas semanas com esses dois?
Tess riu.
— Fácil.
— Como?
— Calmante.
— Muito engraçado
continua...
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THE CHALLENGE. (Concluída)
Romansa"Como vai? Quer dizer, faz tanto tempo!" Na verdade, fazia onze meses, uma semana e cinco dias. Mas quem é que estava contando? Não ela. Cole Sprouse é rico demais, bonito demais e arrogante demais: qualidades que, anos antes, fizeram Lili Reinhart...
