Alejandro era uma criança agitada. Em sua família, todos os olhos eram voltados para o irmão mais velho que adquiriu autonomia antes dos desespere anos. Para os olhos dos pais, isso era o melhor que um filho poderia dar. O pequeno Alejandro cresceu a sombra do irmão e por mais que tentasse era difícil conseguir atenção dos pais aos oito anos, porque eles sempre estavam acompanhando o irmão em sua empreitada ou simplesmente falando sobre o irmão para alguma outra pessoa. Eram orgulhosos dele, Alejandro também era. O admirava acima de tudo e por mais que o tivesse como espelho, não entendia como ele não podia ter um pouquinho do amor dos pais. Logo seu irmão foi morar em outra casa. Uma casa maior, mas antes de ir disse ao pequeno "Ale, para você ser alguém e eu sei que será. Você tem que ser o melhor que conseguir. Não o melhor que esperam, porque sempre irão esperar pouca coisa de você, e se você deixar que isso aconteça, estará fadado ao fracasso. Eu conquistei isso tudo com muito esforço e eu nunca passei por cima de ninguém, nem da minha honestidade. Isso é o que faz de mim um homem. Você gostaria de ser assim um dia também?" Alejandro prontamente assentiu com a cabeça. "então terá que ser o melhor. Desculpe se roubei a atenção dos nossos pais, mas agora eu estarei vivendo a minha vida e você ficará aqui, não por muito tempo. Eu ainda quero ouvir falar muito do meu irmão por aí. Seja o melhor que você puder e não deixe que ninguém diga que você não mereça o melhor." Dito isso, o irmão foi embora é deixou o pequeno com essa grandeza em seu peito. Desde aquele dia ele estava decidido a ser tão importante quanto o irmão é. Conseguiria poder e assim também seria a luz dos olhos dos pais. Também os faria sentir orgulho dele.
Quando estava com dezesseis anos já havia visto tudo o que a capital de Cuba ofertava a seus populares, marginalidade, drogas e exploração trabalhista. Não era isso que ele queria para si. Um dia, o amigo de seu pai estava visitando o país, disse que estava retornando para sua casa que ficava no Brasil, disse que em comparação a Cuba, era um lugar onde se podia crescer e era possível encontrar muitas oportunidades de trabalho com dignidade, além dos estudos, claro. Alejandro disse aos pais que iria para o Brasil para estudar e trabalhar. Com muito custo os dois aceitaram. Já não estavam na flor da idade e não poderiam impedi-lo de qualquer forma. Assim que chegou ao Brasil, Alejandro ficou encantado com as possibilidades que teria ali. Durante um ano, conseguiu manter sua vaga na escola e estava tudo indo relativamente bem, mas a família do amigo de seu pai não estavam mais satisfeitos com a estadia do garoto em sua casa. Ele não tinha culpa, tentava arrumar emprego, mas no Brasil não era como Cuba, onde crianças podiam trabalhar em cargos que os adultos ocupavam. Ele tentou, mas tudo o que conseguiu foi ser um serviço numa banca de Jornal. O que ele recebia tentava compartilhar com os donos da casa em que estava, mas estes se mantinham insatisfeitos. Pouco tempo depois Alejandro decidiu ir morar em outro lugar. Conseguiu um quarto numa área da favela que fica nas redondezas do Morra da Urca. Omitiu o fato de que era menor de idade fazendo com que o proprietário acreditasse que seus pais em pouco tempo estariam ali. O tempo passou e Alejandro ia de trabalho em trabalho, sendo atendente, frentista, vendedor e até mesmo ajudante de pedreiro. Ele não tinha medo de trabalhar, tinha medo de não conseguir realizar suas metas. Seu grande sonho. Ele pensava que para alcançar o topo tivesse que passar por isso, ele enfrentaria. E foi assim até alcançar a maior idade. Ele entrou para universidade e isso o fez ficar orgulhoso de si mesmo. Sua turma continha muitos alunos de boa condição na sociedade e Alejandro conseguiu fazer parte de um pequeno grupo. Não eram seus amigos, eram pessoas com pais influentes e ele achou que seria útil ter contato com eles. É claro que ele omitia o fato de morar onde morava e de trabalhar como coletor de mercadorias num supermercado do seu bairro.
Alejandro já estava indo para o segundo ano do curso de Direito quando conheceu Clara, uma estudante de Letras. Ela era simplesmente a garota mais bonita que ele já havia visto. Perto dela ele esquecia as adversidades que enfrentava e ela até mesmo sabia no que ele trabalhava. Clara admirava a força de vontade que ele demonstrava, além do mais, era um rapaz charmoso e que não vivia preocupado com namoros iguais todos os outros garotos que ela conhecia. Eram amigos até então. Eles se conheceram de uma forma incomum. Clara tinha um namorado que o pai dela insistia que era um bom rapaz, o melhor para ela. Diego era a pessoa mais superficial que ela conhecia, mas de uma forma estranha, ele sempre era adorável com ela. Ou pelo menos tentava ser. Ele sempre tentava fazê-la o que ele queria em detrimento do apoio que recebia do pai dela. Certo dia eles marcaram de ir a um teatro que ficava perto da UFRJ, e para Alejandro naquele momento: ansiedade era a palavra. Sempre ficava nervoso perto de Clara. Ele vestiu seus melhores trajes e levava uma pequena flor que ele encontrou num jardim antes de chegar ao local combinado. Ele esperou e percebeu que Clara estava atrasada. Ficou confuso e sentiu um frio no estômago. Nunca em seus dezenove anos tinha sentido isso. Será que ela desistiu de sair com ele? Não era propriamente um encontro. Era apenas um... É, para ele seria como um encontro. Começou a chover e ele resolveu caminhar. Não importava mais com as roupas, só queria fazer aquela agonia ir embora. Foi então que ele ouviu uma discussão vinda de um beco afastado entre as duas avenidas. Não passavam muitas pessoas por ali... Ele foi até lá e a cada passo que dava o coração batia mais forte. Isso porque ele reconheceu a voz que falava para que outra pessoa se afastasse. Começou a correr e quando virou para entrar no beco, viu Diego brigando com Clara. Havia algumas latas de lixo bagunçado e resíduo tóxico pelo chão, ficou furioso que Diego a tenha levado para um lugar como este. Quando ele viu Diego levantar a mão e direcioná-la para o rosto de Clara, Alejandro sentiu a adrenalina correr em suas veias e se instalou diante dos dois impedindo que acertasse a face da garota.
- Afaste-se dela agora! – Ele exigiu com firmeza.
- E quem você pensa quem é para dizer como eu devo falar com a minha namorada?
- Clara, está tudo bem com você? Ele pergunta preocupado ao ver as lágrimas se formarem na face da garota.
- Eu quero ir embora.
- Você não vai sair daqui! - Diego disse puxando-a pelo braço.
Alejandro pediu para Clara se afastar um pouco, colocando sobre ela o seu agasalho que ele estava usando a pouco.
Diego viu a cena e começou a formular ideias em sua cabeça. Começou a rir da situação e disse que não aceitaria ser trocado pelo carregador de mercadorias. A fúria tomou conta de Alejandro e ele foi para cima de Diego na intenção de fazê-lo pagar por aquelas palavras. Ele odiava ser inferiorizado e se estava no meio de pessoas que eram de classe média, era apenas com o objetivo de usar isso a seu favor depois, e na cabeça dele, eles não passavam de esnobes que não sabiam nada da vida lá fora.
Clara olhava assustada. Os dois estavam brigando e caiam sobre as latas de lixo. Ela gritou para eles pararem, mas não eles não ouviram. A situação piorava à medida que eles estavam no chão se escalpelando, então ela tentou interferir, mas Diego a empurrou e fez com que ela caísse e machucasse o braço. Foi tudo muito rápido, que ela não percebeu uma quarta pessoa entre eles. Um rapaz a ajudou a levantar e perguntou se estava tudo bem com ela. Ele tentou separar os outros dois que ainda estavam grudados, e foi então que outras pessoas apareceram e conseguiram apartar a briga. Infelizmente eram alguns guardas que faziam seu plantão de rotina, assim, os três acabaram sendo levados à delegacia.
Clara ficou ao lado do rapaz que a ajudou, ela ainda não havia o reconhecido, mas achou reconfortante estar recebendo o apoio de alguém naquele momento. Após uma hora de conversa com o delegado, Diego pode sair, pois o pai que era um vereador importante pagou a fiança exigida e o levou embora. Clara ficou desesperada, ela sabia que Alejandro não tinha dinheiro e isso significaria que teria que ficar até arranjar determinada quantia. Ela foi até Alejandro e pediu desculpas, disse que daria um jeito de tirá-lo de lá. E ele apenas disse que estava tudo bem. Na verdade não estava tudo bem, mas ele não queria demonstrar fraqueza na frente dela.
Ela foi embora e Alejandro ficou final de semana preso. Ela não foi visita-lo porque não podia ser vista entrando e saindo de uma delegacia. Isso não seria nada bom para imagem de sua família, mas esse detalhe Alejandro não sabia. Na segunda bem cedo ele pode ser solto. Os guardas os acordaram batendo o cassetete nas grandes e o puxaram sem nenhuma delicadeza. Disseram para evitar problemas, pois dessa vez ele teve sorte, o que seria difícil acontecer novamente caso houvesse aparecesse novamente por lá. Alejandro não pensou duas vezes antes de ir embora e por um momento, enquanto estava a caminho de casa, teve esperanças de ter Clara ter ajudado a se livrar das grades. "Será que foi ela? Só pode ter sido." ele pensou.
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Redemption
RandomUma rixa antiga entre vizinhos era o que deveria manter duas famílias terminantemente afastadas, mas não foi isso que o destino tinha planejado