Pov Lauren
A mão de Camila estava em meio queixo e senti que ela estava muito próxima. Perigosamente próxima. Mal tive tempo de pensar no que viria no segundo seguinte, e ouvi a voz da atendente a nossa frente.
— Desculpem interromper, mas é que aconteceu um problema nas estruturas do estabelecimento e teremos que fechar mais cedo. — Ela pareceu constrangida por ter que interromper-nos devido a esse ensejo. Mas interiormente eu agradeci, porque não sabia qual motivo, razão ou circunstância Camila havia insinuou que iria me beijar.
— Caramba, mas que lugarzinho precário nós viemos parar também, né? Isso aqui já foi melhor. — Ouvi a voz de Camila e revirei os olhos em repúdio a sua atitude.
— Não liga para o que ela fala! — Me dirigi à atendente morena com uniforme. — Eu gostei muito sorvete e do atendimento. Desculpe a minha amiga ser um pouco grossa, ela não está num dia muito bom. — Nesse momento Camila bufou ao me lado e não fez questão alguma de disfarçar.
— Tudo bem, aqui a gente aprende a lidar com todo tipo de cliente. — Ela deu uma encarada em Camila mostrando que não era de abaixar a cabeça para a arrogância daquela que estava ao meu lado. — A propósito, me chamo Normani. — Ela estendeu a mão direita a minha frente e eu imediatamente apertei.
— Eu sou a Lauren e essa aqui é a Camila. — Indiquei e ela fez um gesto de negação com a cabeça.
— Então Lauren, infelizmente estamos fechando e o meu chefe pediu para que viesse avisar os clientes. — Ela explicou novamente. — Eu não atrapalhei o momento de vocês propositalmente. — Dessa vez ela falou para Camila que se fez de desentendida. Ainda bem, porque também não sei o que pensar exatamente sobre isso. Fui até o caixa e realizei o pagamento do que consumimos e me despedi de Normani, que ao final parecia ser mais legal do que imaginei. Ficamos dois minutos conversando e pude descobrir que ela está matriculada no curso de Odontologia na UFRR. Ela falou sobre as expectativas para o próximo semestre e combinamos de marcar alguma coisa quando as aulas começassem, o que não iria demorar muito. Depois que nos despedimos, voltei para a mesa onde Camila estava e quase me arrependi, porque a encontrei com uma cara monstruosa apoiada entre a mão esquerda, enquanto a direita continha os dedinhos dela tamborilando sobre a superfície plana de apoio.
— Oie! — Falei sorrindo, mas não obtive um sorriso de retorno.
— Acabou a sessão de encontro das velhas amizades entre vocês duas? — Ela manteve o olhar duro sobre mim e fiquei sem entender o porquê daquilo.
— Não sei do que está falando, mas eu pude conversar um pouco com a Normani e a achei uma garota muito legal e divertida. Você poderia dar uma chance de conhecê-la melhor.
— De jeito nenhum! — Ela foi enfática em suas palavras. A essa altura já havíamos atravessado a porta de saída da sorveteria. — Ela está fora dos padrões de pessoas que mantenho contato. — Ela disse de uma forma tão natural que pareceu como se ela estivesse habituada aquela forma de tratamento. Eu parei de acompanha-la e quando ela notou, parou procurando entender o motivo.
— Acho que vou poder mais ir embora com você, Camila.
— Por quê?
— Só repensei melhor e tenho outras coisas para fazer.
— Vai me deixar aqui no meio da rua sozinha? — A irritação dominava o tom de sua voz.
— Quer saber? Eu deveria fazer isso mesmo! — Respondi elevando o tom de voz e indo em direção a ela.
— O que houve? Por que tá falando isso? — Ela de pra fingir não saber do que estou falando agora? AAAAH!
— O que você acha? Me recuso a andar com pessoas que compartilham desse tipo de pensamento que você acabou de declarar, Camila.
— Isso é sobre a garçonete ainda? — Ela colocou os braços sob a cintura fazendo uma expressão de dúvida.
— O nome dela é Normani! Normani, entendeu, Camila? — Essa altura o tom de voz de nós duas já estava elevando e ambas estávamos em posição de confronto. — E sim, é sobre ela, mas principalmente sobre o modo como você a tratou e por fim, esse jeito estúpido de querer demonstrar superioridade, como se você fosse melhor que ela ou alguém. — Cheguei mais perto dela e olhei diretamente em seus olhos. — Ninguém é inferior a você, Camila. E só porque você tem uma ideia distorcida da realidade não te dá o direito de destratar ninguém. Continuando dessa forma você vai acabar sozinha e sem amigo nenhum. — Ao terminar a última frase, ela desviou os olhos de mim e ficou com a cabeça baixa sem dizer nada.
— Você não acha que está sendo muito rígida? — Ela se afastou de mim e fico meio encolhida em si própria me olhando distante.
— Desculpe ter exaltado, mas fiquei imaginando quando a sua ficha vai cair. Porque não é possível que saia por aí falando a primeira coisa que der na telha. As pessoas têm sentimentos e ela, a Normani ficaria muito magoada pelo seu ódio gratuito, sendo que nem falar com ela direito você falou.
— Eu ia me desculpar com ela, mas aí não sei o que aconteceu ou o que deu em mim... — ela continuava com a cabeça abaixada. — Eu não tenho muitos amigos... na verdade não tenho nenhum. — Aquela informação me fez sentir um pouco de pena dela, mas ainda assim isso não era explicação para o modo como ela agiu. — Desde criança ouvia coisas assim dentro de casa e as vezes me deixo levar por isso.
— Olha, eu até posso entender isso, mas você não é mais criança e se sabe fazer o uso das palavras para ferir alguém, deveria ter consciência do quão ruim isso pode ser. Não deixe que o tipo o exemplo que teve te transforme. Você pode ser melhor que isso. — Ela olhou para mim engolindo um possível choro e eu a puxei para sentarmos num banquinho que ficava embaixo de uma árvore próximo a calçada.
— Por que acredita nisso? — Ela perguntou incrédula.
— Porque eu sei que por trás dessa capa que você revestiu em si mesma, existe alguém que sensível e aposto que essa outra personalidade aí combina muito mais com você. — Falei sinceramente e consegui fazê-la mostrar um pequeno sorriso para mim.
— Eu preciso te dizer uma coisa.
— Pode falar.
— Gosto da forma que você me trata. Assim, nós não somos amigas, nem nada... o meu pai odeia sua família e sua mãe odeia a minha, mas você embora não conheça muito bem, esteve sempre tentando impedir que alguma coisa me acontecesse. Você reagiu de uma forma totalmente inesperada quando disse que iria cobrar por manter aquele assunto em segredo. Pagou o meu sorvete. — Nós duas sorrimos — E eu gostei da maneira que falou com a minha irmã, mas provavelmente gostei ainda mais quando disse que enxerga algo dentro de mim que nem eu mesma sei se de fato existe. — Vi Camila ficar um pouco triste e me aproximei dela para tentar reconforta-la. — Eu que deveria estar te fazendo ficar bem, afinal de contas, era você que estava chorando antes. — Ela fez uma pequena pausa. — Jauregui, não sei porque existe uma rivalidade entre nossos pais, mas você não me parece uma pessoa ruim. — As palavras dela me fizeram sentir importante naquele momento e então eu pude confirmar que havia duas Camilas, uma que era totalmente dominada pela sombra das vontades e exemplos do pai e essa Camila que estava em minha frente, tão sincera e frágil.
— Você também não é uma pessoa ruim, Camila. — Passei a mão sob a lateral do rosto dela. Tão fino e delicado...ela fechou os olhos.
— Eu queria poder acreditar nisso como você... — Ela disse ainda permanecendo com as pálpebras cobrindo as impecáveis íris castanhas. — Mas tem uma coisa que você falou que eu quero testar para ver se é verdade.
— E o que é? — Encarei-a para esperar a resposta.
— Isso! — Ela puxou o meu rosto para si, e antes do impacto seguinte, pude sentir um suspiro escapar de seus lábios que agora estavam unidos aos meus.
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Redemption
RandomUma rixa antiga entre vizinhos era o que deveria manter duas famílias terminantemente afastadas, mas não foi isso que o destino tinha planejado