capítulo 4

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Dentro da ambulância, eu continuava firme ao lado dele, como se minha presença fosse a última coisa capaz de segurá-lo neste mundo. Me esforçava ao máximo para conter o sangramento, ainda pressionando seu peito, enquanto os paramédicos colocavam uma máscara de oxigênio em seu rosto para estabilizar a respiração, que estava cada vez mais fraca e irregular. Uma máquina ao lado dele apitava sem parar, monitorando os batimentos cardíacos que subiam e desciam numa frequência que me deixava com medo de que parassem de vez.

No meio de todo aquele movimento, havia uma médica sentada numa cadeira fixa na lateral da ambulância, os olhos atentos a mim, estudando cada movimento, cada gesto, cada respiração. Seu olhar era ao mesmo tempo calmo e firme, como se quisesse me passar confiança.

— O que você está fazendo pode realmente salvar a vida dele, então não se preocupe se acha que está fazendo alguma coisa errada — disse ela, fixando seus olhos nos meus.

Senti meu coração se apertar, como se as palavras dela viessem aliviar, ainda que minimamente, a culpa que martelava na minha cabeça. Finalmente, consegui dizer algo, a voz saindo quase sem força:

— Ele… ele vai ficar bem?

A médica respirou fundo, e em seu olhar havia uma compaixão que quase me fez chorar. Não precisou dizer nada — aquele silêncio dizia tudo. Mas mesmo assim, com delicadeza, ela tentou me acalmar:

— Vamos fazer de tudo para salvá-lo, tá bem? Seu namorado vai ficar bem.

Balancei a cabeça, concordando, mesmo sabendo que era mentira. Ele não era meu namorado, eu nem sabia seu nome. Mas como explicar para ela que me importava tanto com um completo estranho? Como justificar a aflição que tomava conta de mim como se ele fosse parte da minha vida havia anos? Eu simplesmente não tinha palavras.

Voltei a olhar para ele, deitado na maca, pálido, inconsciente, mas vivo. Repeti as últimas palavras que ele havia me dito em pensamento, “eu não posso deixá-la”, tentando entender quem ele não podia deixar, quem era tão importante assim. Talvez fosse uma esposa, uma noiva, uma pessoa que o esperava todos os dias. Senti um aperto estranho no peito, misturado com uma pontinha de ciúme idiota — eu nem conhecia aquele homem, mas a simples ideia dele amar outra pessoa me doía de um jeito inexplicável.

Afastei esses pensamentos quando percebi que, de repente, os alarmes do monitor cardíaco começaram a soar mais rápido, num ritmo frenético. O peito dele sangrava novamente, o curativo improvisado já não segurava. O sangue respingava em mim, pintando minha camiseta de vermelho vivo. Minhas mãos tremiam, desesperadas, tentando conter aquela hemorragia que parecia não ter fim.

— O pulso está caindo! — gritou uma das médicas ao meu lado. — Você precisa se afastar dele agora, se não ele vai morrer! Eu quero que se afaste, agora!

Mas eu não consegui obedecer. Permaneci ali, imóvel, me recusando a soltar sua vida das minhas mãos. Eu não podia desistir dele, não podia deixá-lo morrer assim, na minha frente.

Meus olhos correram pelo interior da ambulância, procurando nos rostos dos socorristas alguma resposta, algum consolo. Mas eles pareciam frios, profissionais, acostumados a ver gente morrendo todos os dias. Para eles, aquilo era rotina. Para mim, não era, e nunca seria.

No auge do meu desespero, tomei uma atitude impensada: subi com cuidado sobre o corpo dele, usando meu peso para fazer pressão contra o ferimento. Apoiei minhas pernas de cada lado da maca, minhas mãos pressionando forte seu peito, ignorando a dor nos meus braços que começava a latejar sem parar.

Por incrível que pareça, funcionou. O monitor cardíaco se estabilizou, e a respiração dele voltou a um ritmo menos ameaçador. Quase não acreditei.

— Deu certo — murmurei, surpresa, lágrimas escorrendo sem controle pelo meu rosto. — Meu Deus…

Passei uma das mãos, ensanguentada, no rosto, limpando o suor que escorria dos meus cabelos grudados na testa.

— O que você está fazendo? — perguntou uma das socorristas, assustada.

— Tá tudo bem — disse outro médico — o que ela fez estabilizou o paciente. Deixa ela assim até chegarmos ao hospital.

Eu assenti, mesmo sem ter certeza do que estava fazendo, e permaneci imóvel sobre ele. Cada segundo era um fardo, meus músculos gritavam de dor, minhas pernas tremiam, mas não arredaria pé.

Os minutos se arrastaram como horas, até que finalmente senti a ambulância parar com um solavanco, as sirenes ainda ecoando do lado de fora. As portas se abriram, a luz do sol me cegando por um instante, obrigando-me a virar o rosto para não ser ofuscada.

Os paramédicos puxaram a maca para fora comigo ainda sobre ela, e seguiram correndo pelos corredores do hospital. Vários profissionais se aproximaram imediatamente, prontos para agir.

— Agora você pode sair de cima dele — disse um médico alto, ruivo, com um tom firme, mas gentil.

Hesitei. Soltei as mãos devagar, sentindo meus dedos duros, grudados de sangue seco. Quando me levantei, cambaleei, sem conseguir ficar totalmente de pé. Queria permanecer ao lado dele, mas o médico pediu que me afastasse.

— Eu só quero saber se ele vai ficar bem — implorei, minha voz falhando enquanto era puxada para outra sala.

Ninguém respondeu.

Uma enfermeira me guiou até uma cama na emergência, me fazendo sentar. Ela parecia ter cerca de trinta e poucos anos, cabelos pretos muito lisos que reluziam sob a luz branca, e vestia um uniforme rosa simples.

— Senhorita, você pode me dizer o seu nome? — perguntou com calma.

Fiquei encarando os cabelos dela, notando o brilho, completamente alheia à situação por alguns segundos. Estava tão em choque que só consegui reagir quando ela repetiu:

— Você está me ouvindo?

— Sim — respondi, engolindo em seco. — Meu nome… meu nome é Sarah.

— Tá bem, Sarah. Você pode me dizer o nome do homem que estava com você?

— Eu… eu não sei. Eu o conheci hoje de manhã, na lanchonete — confessei, me sentindo ridícula.

— Você está machucada? — perguntou, apontando para minha blusa encharcada.

— O sangue não é meu — expliquei, segurando o tecido pesado.

— Quer ligar para alguém?

— Não tenho para quem ligar — falei sem coragem de encará-la.

— Como não? Sua mãe? Algum parente?

— Não tenho ninguém — menti, porque, no fundo, sabia que minha mãe não largaria os preparativos do casamento da Julie por mim.

— Tudo bem. Você parece bem fisicamente, pode ir embora se quiser — disse ela, gentil.

— E o homem? Ele vai ficar bem?

— Ele vai para cirurgia. Você pode aguardar na recepção se quiser — respondeu.

Assenti. Levantei devagar, o corpo inteiro doendo, e caminhei como um fantasma pelos corredores até a recepção. Me sentei em uma das cadeiras duras, sem saber se ficaria ali por horas, por dias, ou até por uma eternidade.

Eu só queria um banho quente, lavar o sangue, a dor, o medo — mas não conseguia sair dali. Tudo que eu queria, no fundo, era ouvir que ele ficaria bem.

Era Você Histórias para pegar e não largar. Descubra agora