- Por que está me ajudando? – Perguntou uma Jeny que saltava entre estados de consciência.
- Salvatore foi a última pessoa que matei, quero que continue assim.
- Mas eu morreria se você simplesmente me deixasse a mercê da própria sorte.
- Eu seria culpado da mesma forma.
Mas ela não ouviu, voltou a desmaiar, voltou a ter visões onde um homem de armadura branca e dourada, olhos radiantes e azuis, estende a mão para ela e ela tenta alcançar com todas as forças, os dedos esticam, esticam até relam na ponta dos dedos daquele Rei, mais ainda assim, tão fora do alcance...
O Buick estava correndo tanto que Kurt podia ver o supercharger aquecido, iluminando o capô marrom com uma clara luz avermelhada. O velocímetro estava em inacreditáveis 280 quilômetros por hora, o carro parecia simplesmente plainar na rodovia, tudo parecia um borrão ao redor deles, tudo parecia irreal, uma pintura no estilo abstrato. Kurt afundou ainda mais o pé, com força, os braços firmes, retesados. O velocímetro obedeceu, 290... 300... 310... A muito tempo a BMW havia ficado para trás e cada novo alcance de velocidade, o mundo parecia mais e mais irreal.
- Kurt... – Filipo pigarreou. – Meu Rei, estamos indo...
- Eu sei. – Disse. – Mas no momento, nada mais importa além de Acqua, e se eu não for capaz de domar uma simples maquina, o que dirá de um Reino inteiro?
Filipo teve de concordar, Kurt estava certo naquele ponto.
...
O Buick rosnava pela madrugada, seus pneus esmagavam o asfalto por onde passava com brutalidade, as curvas eram canções ruidosas onde o instrumento tocado era o derrapar de pneus, as notas agudas, o som robusto do motor, tudo aquilo era a canção tocada na noite em que Kurt não conseguia enxergar nada além da importância de uma vida. Leônidas estava certo, é claro que estaria, afinal, ele é o famoso Leônidas, Kurt sempre escolheria salvar uma vida ao tirar outra.
Levou quarenta minutos para chegar na cidade e mais cinco para alcançar Yigal. Saltou do Buick, ajudou Filipo a tirar Acqua do banco de trás e no caminho onde pisava no mato alto, já começou a gritar seu nome.
- Yigal! Acorde! Yigal!
O velho saiu nu da cabana, viu Kurt e Filipo carregando Acqua e se apressou em ajuda-los, fez uma careta quando viu os cabelos roxos empapados de vermelho e a careta piorou ao ver o estado do ferimento. Assim que entraram na casa, a garota começou a tremer, seu corpo tremia por completo, dedos, mãos, pés, pernas e braços. Kurt cerrou os punhos, impotente naquela cena. Não podia fazer mais nada por Acqua, tudo que podia já foi feito, o Buick super aquecido na frente da casa dizia isso, mas ainda assim, o sentimento de perda era maior, o sentimento de impotência, de frustração.
O sentimento de medo.
Saiu dali, foi ao carro e buscou Jeny. Carregou a garota nos braços, ela estava fria e a respiração efêmera, mas seu estado nem se comparava ao de Acqua. A cada passo, a garota dava um gemidinho graças a perna ferida, a cada passo, Kurt via o tanto que aquilo tudo era simplesmente sem sentido. Era uma troca, uma vida perigosa e curta em troca do pequeno luxo de ter carros e apartamentos caros. Lembrou do primeiro peão que matou, o corpo girando, o sangue espalhando, depois lembrou de Acqua e Alessa, ambas fatalmente feridas, mas conseguiram ser salvas. Não dessa vez, já que Alessa havia caído na batalha do celeiro. Lembrou de Brock e Tadeu, poderiam ter sido amigos em outra vida, poderiam ter tomado cerveja e falado de mulheres, ou homens, durante a noite inteira.
Agora, o que resta? Do outro lado, apenas Tod e Jeny, isso se sobreviverem a essa noite, Tod não parecia muito bem com seu ferimento no lado do corpo.
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Súdito
Mystery / ThrillerOs contadores de histórias não se importam em registrar e contar histórias de pessoas comuns, de camponeses, mas sim de heróis, reis e deuses. Kurt não sabe que pode se tornar um Rei, mas Leônidas sabe, e colocará a prova a realeza de Kurt. Contudo...
