Era a terceira vez que o carro derrapava na estrada. A chuva, que deixava a pista completamente ensopada, misturada com a velocidade do carro, não estavam sendo a combinação ideal. Comecei, em pensamentos, a orar e pedir para que o senhor nos protegesse. Eu engolia em seco, enquanto sacolejava de um lado para o outro.
A estrada, para melhorar, estava muito escura. Meu olhar tentava achar alguma coisa pelo retrovisor mas não obtive sucesso. Eu nem sabia como Lucas estava enxergando algo naquela imensa escuridão misturada com neblina e chuva. Olhei-o de rabo de olho pela milésima vez e ele continuava imóvel, com seus olhos fixados a sua frente. Suspirei, segurando firme o cinto de segurança em mais uma sacolejada do carro. O barulho das rodas fazia meu coração palpitar e o frio na barriga aumentou.
— Não me faça perguntas, não vou te responder nada.
Lucas sussurrou, em meio ao silêncio. Meu olhar havia ficado parado nele alguns segundos.
— Eu não vou, ué.
— E também pare de me encarar toda hora, está me irritando. E de se mexer no banco, dá para ouvir seus pensamentos daqui, está me desconcentrando.
— Mas também, tudo te irrita. Seria melhor me matar.
Respondi, sem pensar. Me arrependi no segundo seguinte.
— Não, você me irrita. E não seria uma má ideia.
Lucas retrucou, soltando um sorriso de canto. Em seguida, ele foi desacelarando o carro e relaxando o corpo no banco.
— Tá chovendo demais. Eu odiaria morrer na chuva, na neblina, que fim terrível.
Brinquei. Eu não estava com medo e isso era....hm. Estranho.
— Preferia fogo?
— Eu sou mais do fogo, sim. Hm, acho que seria um bom fim. Só gostaria que isso fosse sem um bebê na minha barriga.
— Vocês vão ter um bom fim.
— Vocês quem?
— Você e seu bebê.
— Vamos?
— Sim, vão ser felizes e...
Lucas foi impedido de terminar a frase, o carro foi freiado com tanta força por ele, que meu cinto de segurança cedeu e a minha cabeça bateu na parte da frente do carro.
— Céus!!!
Gritei, tonta. Pisquei os olhos algumas vezes, voltando-me para o banco e encarei Lucas. Ele estendeu a mão até suas costas e tirou dali uma arma. Lucas se soltou do banco rapidamente e segurou meu braço.
— Porra! Vem!
Arregalei os olhos, tentando visualizar do lado de fora.
— O que tá acontecendo?
— É uma emboscada! Anda!
Ele falou, abrindo a porta e me puxando. Lucas apontou a arma para o lado de fora e foi saindo. Em seguida, atravessei meu banco e saí pela mesma porta que ele.
Haviam mais de cinco carros parados, impedindo a passagem. Muitas e muitas armas apontadas para nós dois. Lucas também segurava sua arma firmemente na mão, apontando na direção deles. Ele fixou seu corpo em minha frente, me empurrando para o lado de trás. Comecei a tremer e passei a mão sobre a barriga. De alguma forma, eu só pensava em protege-la, se é que eu conseguiria.
Ao espremer olhos, consegui ver a silhueta do pai de Júlia. Ele saiu de trás de um dos carros, do lado oposto. A neblina, que escondia o corpo dele, foi ficando fraca na medida em que ele caminhava, em passos lentos, em nossa direção.
— Leon, não se aproxima. Você sabe do que sou capaz.
Lucas gritou, raivoso e apertou a arma entre os dedos. O velho parou, um pouco distante ainda e jogou o charuto que estava em sua boca, em nossa direção.
— Vim conversar. Quero entender essa palhaçada.
Leon murmurou, calmamente.
— Eu te procurei. Você não quer entender nada, se você quisesse entender alguma coisa seus homens não estavam com armas apontadas em minha direção.
— Eu quero. Abaixem as armas.
Leon ordenou, sem tirar os olhos de Lucas. Os olhares cruzados deles lançavam fogo um ao outro.
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La puta ll
RomanceO segundo suspiro entre nós dois parecia o último. O que era real? O que era nós dois?
