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— Corre!

A voz de Lucas adentrou meus ouvidos e o tempo desacelerou. Eu não sei ao certo o que havia acontecido com o tempo mas tudo, na minha concepção, estava lento. O barulho alto dos tiros, o meu olhar perdido em meio a uma guerra que nunca parecia ter fim.

Corri em direção a única coisa que meu olhar captou no meio da noite escura: o carro. Me abaixei atrás dele e tapei meus ouvidos, apertando os olhos.

— Me desculpa, bebê. Me perdoa. Deus, me ajuda!!!

Eu, agora, gritava. Olhei para os lados, tentando achar Gustavo e meus olhos haviam perdido seu rastro. Tinham tantos homens saindo da mata e atirando na direção de Leon, que parecia um formigueiro, uma verdadeira guerra.

O barulho das balas que furavam o carro em que eu estava abaixada diminuíram, mesmo assim, como ainda existiam, deitei meu corpo no chão, de bruços, fechei meus olhos e apertei minhas pernas contra o corpo.

Tiros, mais tiros, muitos tiros. Mais uma vez o tempo parado, lento, sem fim. Eu conseguia ouvir os gritos de dor, o fôlego dos homens que caíam ao chão, enquanto o tempo parado não deixava eu distinguir ao certo o que estava acontecendo.

— Ei, vem comigo!

Um homem alto, de botas grandes e com uma arma atravessada no corpo me estendeu a mão. Eu não estava raciocinando direito, tampouco consegui ver de onde ele havia surgido. Sem me demorar, peguei em sua mão e ele me puxou, levantando-me.

— Quando eu contar falar junto, a senhora corre comigo. Usa meu corpo como escudo, fique atrás de mim.

— Quem é você? Para onde vamos?

— Junto!

Ele gritou, sem tirar o olho de sua frente. Ergui meu corpo, enquanto ele apontava a arma, se portando a minha frente e atirando. Comecei a usa-lo de escudo, como ele havia pedido.

Tinham tantos corpos no chão, que minha mente chegou a ficar turva. Uma vontade de vomitar, uma tonteira me tomou o corpo. Eu não podia fraquejar mas aquilo tudo era tão.... tão bizarro. Respirei fundo e continuei.

O homem adentrou na mata e parou em meio as árvores. Ele esperou que meu corpo todo estivesse dentro e abaixou a arma. Parei ao seu lado, tentando achar fôlego e encarei-o, desconfiada.

— Me chamo Batôro Leste. Preciso te levar, temos um lugar seguro. Fique tranquila.

— Temos, quem? Eu não vou pra lugar algum com você.

— Gustavo me pediu pra te levar. Vamos.

Ele chamou, virando o corpo. Havia uma estrada de barro em nossa frente, poças de lama preenchiam a curta passagem e tudo ali era muito escuro.

— Cadê ele? Eu já falei que não vou a lugar nenhum com você.

— Estamos no meio de um tiroteio. Existem pessoas querendo te fazer mal e você está perdendo tempo.

— Quem me garante que você não é uma dessas pessoas?

O homem contorceu o rosto e passou as mãos na cabeça. Ele apertou a arma em suas mãos e deu de ombros.

— Ele avisou que você era difícil.

Sussurrou entre-os-dentes, impaciente.

— Eu avisei....

A silhueta de Gustavo adentrou pela mata, de trás da árvore. Estava também com uma arma enorme atravessada pelo corpo e suas vestes eram iguais a roupa de guerra. Sua voz foi ganhando forma e quando vi, não me contive, corri até ele, pulando em seu colo e ô abraçando. Ele agarrou meu corpo e cheirou meu pescoço, levantando-me de tanto apertar.

— Meu amor... eu.... meu amor.... é você. Não acredito!

As palavras corretas sumiram e eu só conseguia aperta-lo de volta. Distribuí beijos em seu rosto e pescoço e senti seu rosto molhado.

— Eu tive tanto medo. Eu que não acredito. Eu te amo tanto.

Gustavo sussurrou, estava... chorando!

Me inclinei um pouco para trás, enquanto ele me colocava no chão. Passei as mãos em seu rosto, limpando-o e sorri.

— Eu também te amo muito. Eu ainda não entendi muito bem toda essa loucura. O que está acontecendo?

— Não dá tempo de te explicar agora, preciso que vá com o Batôro.

— Você tá maluco? Você não vem comigo? Então não vou.

— Gabriela, eu preciso que você faça o que eu to te pedindo. Eu vou te encontrar, eu sei onde você vai estar. Eu só vim aqui porque sabia que você não ia sair daqui sem confirmar que ele é um dos meus, mas, preciso ficar.

— Por que? O que tá acontecendo? E o Lucas?

Gritei, descendo as mãos para seu braço. Senti algo molhado perto de seus cotovelos e desviei meu olhar para ele.

— Não dá pra te explicar agora e...

— Está sangrando!!!

Gritei, assim que identifiquei o molhado em seu braço. Batôro se aproximou e encarou Gustavo.

— Gustavo, abateram sete homens na primeira estrada. Eles estão chegando.

— Leva ela!

Gustavo ordenou, acenando. Segurei em seu braço fortemente.

— Para com isso, o que tá acontecendo? Eu não vou.

Gritei, ele me encarou, aproximando nossos rostos.

— Eu te amo, muito. Eu vou te encontrar e vou te explicar mas agora você tem que ir.

— Gustavo! Para!

— Leva ela!

Gritou, me soltando e virando-se de costas.

— Gustavo, eu to grávida.

Berrei com todas as forças que eu tinha, na tentativa que ele voltasse, sem sucesso algum, ele sumiu na mata e eu desabei. Botôro pegou em meu braço e puxou, iluminando a estrada de barro e empurrou meu corpo levemente, fazendo com que eu me posicionasse em sua frente para caminhar. Por fim, cedi e segui andando enquanto as lágrimas rolavam.

La puta llOnde histórias criam vida. Descubra agora