Capítulo 3

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                       Dez anos depois
                          Harry Styles
             
                                   🍀

Tento me acalmar e colocar a mente no lugar. Penso por um milésimo de segundo onde eu estava com a cabeça quando escolhi essa profissão.

Eu deixei a casa de meus avós em Cheshire logo após a formatura do colegial. Vim para Londres atrás do meu sonho. E agora, aqui estou eu vivendo meu sonhos em plena nove da noite, no banco de um taxi indo até a delegacia.

Não é a melhor maneira que eu gostaria de estar em uma sexta-feira a noite, eu já havia até aberto a garrafa de vinho e me servido uma taça, quando o celular tocou. Um dos meus melhores amigos foi detido por dirigir alcoolizado, e eu como um ser evoluído que sou, estou indo tirar o idiota de la.

Não é exatamente o que eu faço, como defensor público  não pego casos particulares, mas vez ou outra, meus queridos amigos aprontam algumas e eu me presto ao papel de ser quem heroicamente os livram de passar a noite atrás das grades.

Como sempre, a noite se desmancha em chuva e preciso correr do táxi até a entrada da delegacia, ainda assim, não foi possível evitar que meu cabelo se molhasse e a franja que estava jogada para trás agora esteja caindo sobre meus olhos.

Cumprimento o delegado, que pessoalmente, é até gentil e já tomamos algumas cervejas juntos, mas profissionalmente,  todos aqui odeiam advogados. Dizem que nosso trabalho é dificultar o deles. Eu nunca levo para o pessoal.

- Oi Harry!

- Oi? Tira esse sorriso do rosto seu idiota. Eu devia te deixar mofar aqui.

- Você não faria isso.

- Quanto? - Ignoro meu amigo e me viro para James, encostado no batente da porta. James me passa o valor da fiança, insisto para ele aliviar dessa vez e não suspender a carteira de motorista de Niall, e por muita sorte ele diz que vai ver o que pode fazer.

- Horan, eu juro, a minha vontade é de te dar um soco na cara. - Por fim, me volto ao sem juízo sentado à mesa assim que James disse ir buscar a papelada.

- Foi mal Haz. Acho que eu passei um pouquinho do limite.

- Um pouquinho? Niall, o delegado falou que você disse que seu nome era Tony Stark. E não faz essa carinha de cachorro abandonado para mim. Você vai ficar me devendo essa.

Conheci Niall na universidade quando vim para Londres, enquanto eu me afundava em livros e mais livros de Direito criminal, Horan fumava maconha com sua turma de psicologia. Até hoje eu não entendo como foi que nós nos tornamos amigos.

Ele se tornou um ótimo profissional, mas o juízo continua sendo algo que não faz parte da sua personalidade.

- Eu posso ser quem eu quiser Harryyyy.

- Você não pode ser alguém que já existe.

- Tony Stark é um personagem, não existe. Nossa você é burro?

- Meu Deus você ainda está bêbado.

Niall está me contando sobre como foi parar aquela situação e ainda não eram nem dez da noite quando James voltou com os papéis da fiança e a liberação.
Informou que Niall teria a habilitação suspensa temporariamente, em trinta dias ele poderia voltar a dirigir e deu um baita sermão no coitado. Eu quase fiquei com dó, mas no fim, me lembrei da minha taça de vinho que ficou pela metade na mesinha de centro e quase ajudei o delegado a escurraçar ele.

Uma batida forte na porta e um policial exasperado chamando pelo delegado nos assusta. James sai correndo e como os papéis já foram assinados e eu usei o celular de Niall para transferir o dinheiro da fiança (nem morto eu pagaria como meu dinheiro), sei que estamos liberado e com uma careta fingida saio logo atrás do delegado chamando Horan apenas com um gesto.

Um silêncio absoluto paira na delegacia enquanto atravesso o corredor que da até a parte principal. Apenas os resmungos de Niall me impedem de achar que há algo errado. Ou não. Na verdade algo aperta em meu peito e eu não faço ideia do que pode ser.

Paro abruptamente assim que meus olhos alcançam a entrada da delegacia do outro lado do salão e Niall esbarra nas minhas costas. Todos os policiais em pé, alguns com as armas em punho, o delegado imóvel entre eles entrando naquela cena.

Por sorte os policiais aglomerados impedem que aquele homem tenha a visão livre para onde estou, mas infelizmente, eu o vejo. Ele está de pé, com os olhos perdidos entre todos os civis, molhado pela chuva, mas a água não foi capaz de limpar todo sangue em suas mãos. Ele treme, talvez pelo frio, mas não tem como saber, as gotas restantes de chuva escorrem de seus cabelos pelo seu rosto se misturando à o que claramente são lágrimas. Algumas gotas de sangue são perfeitamente notáveis em sua camiseta branca com a logo de um restaurante da cidade. E as mãos em punho, mais sangue e ferimentos.

Meu coração cai ao chão,  sinto minha respiração ficar fraca e mal ouço o que Niall fala ao meu lado. Eu nem sei como eu não caio se minha pernas parecem inexistentes nesse momento.

- Eu acabei de matar meu marido. - É o que ele fala. As palavras saem baixo e estranguladas, mas é o suficiente.

É tudo tão rápido e em segundos pelo menos quatro policiais estão o jogando no chão e o algemando. Ele não reage. Mantém a cabeça baixa em todo momento. Eu ainda não consigo me mover.

Eu jurava que não o veria nunca mais na minha vida. Na verdade,  faz muito tempo que não penso nele. Pelo menos não enquanto estou sóbrio. Mas agora...

Ele está de joelhos no chão,  com as mãos algemas nas costas e olhando para baixo. O delegado da a ordem para um dos policiais e ele o levanta com brutalidade, caminha com ele que ainda encara o chão e eu só me dou conta de que eles passarão por mim quando é tarde demais para desviar.

E é nesse segundo, que o policial o conduz provavelmente para sala de interrogação que ele passa ao meu lado, seu perfume forte não é mais o mesmo mas ele ainda tem o mesmo cheiro, um cheiro que é dele. Em uma fração de segundos quando passa por mim, pela primeira vez seus olhos me encontram, sua expressão muda por um segundo quando nossos olhares se cruzam e ele volta a abaixar a cabeça.

É nessa hora que eu preciso me segurar em Niall que permanece ao meu lado, enquanto minha cabeça processa o que aconteceu aqui. É ele. Eu jamais me esqueceria daqueles olhos azuis,  mesmo depois de tantos anos.

Eu nunca me esqueceria do garoto que eu amei na minha adolescência.  Eu nunca me esqueceria da forma como me entreguei a ele com tudo que eu tinha. Nunca me esqueceria de como ele jogou tudo no lixo e de como arrancou toda pureza e ingenuidade de dentro do meu peito sem nenhum remorso.

Eu nunca me esqueceria de Louis Tomlinson.

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