Capítulo 6

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🍀

S

aio do fórum satisfeito com o resultado de mais um julgamento.  Ao contrário do pensamento popular,  eu não defendo bandidos, meu trabalho é garantir que tenham um julgamento justo e que respeite os Direitos Humanos.

Nesse caso, o réu foi condenado, assim como já sabíamos que aconteceria, mas a satisfação é saber que ele vai cumprir sua pena de acordo com o descrito em Lei, e que todas as particularidades de seu crime foram considerados. Nem sempre julgamentos são justos e é bom quando são.

O que quebra o encanto de um julgamento satisfatório é saber que terei que seguir até a delegacia para tentar mais uma conversa com Tomlinson.

Nos dois dias que se passaram desde a primeira conversa, acabei por receber o relatório completo da perícia. Eu sabia que o nome Adam Davies não me era estranho, mas não suspeitei de nada, afinal é um nome comum entre os ingleses. A minha surpresa veio quando junto com o relatório, havia uma foto do quarto -local do crime- em que pude ver perfeitamente um quadro na parede, Adam, o marido assassinado era o mesmo Adam que estudou conosco em Doncaster. O mesmo Adam coo capitão do time de futebol e melhor amigo de Louis Tomlinson naquela época.

Eu não havia reconhecido pelas fotos do corpo, o coitado foi realmente desfigurado, e quando percebi, não pude conter uma ânsia de vômito e o pensamento intrusivo me perguntando se Louis já se relacionava com ele quando fingia namorar comigo. Além daquela menina também,  é claro. Não me lembro o nome e nem faço questão.

Eu queria saber o que aconteceu para Louis matar o próprio marido, e mais do que isso, agradeço que o que tivemos não passou de uma brincadeira para ele naquela época, caso contrário poderia ser meu corpo ensanguentado naquele chão.

Ainda estou no meu carro parado no estacionamento do fórum, criando coragem para ir até aquela delegacia quando recebo a chamada de vídeo de meu marido.

- Oi amor. – Atendo forçando meu melhor sorriso. Zayn merece o meu melhor. É uma droga que nesse momento não seja muito real.

- Oi querido. Como foi o julgamento?

- Ótimo. Como eu esperava.

- É claro que foi, você é o melhor. Vai para casa agora ou precisa voltar para defensoria?

- Preciso voltar. – Minto. De novo. – Onde você está?

- Pegando um sol. Terminei uma reunião há pouco e vim pro hotel. – Meu marido responde e vira a câmera do celular para que eu veja a área da piscina, logo voltando para si novamente.

Ele está lindo, como sempre. Suas tatuagens expostas e o cabelo sempre impecável. Só lamento os óculos de sol cobrindo seus lindos olhos. Meu coração acelera um pouco e sinto uma pequena ansiedade crescer em meu peito.

Estranho. Falar com ele normalmente me relaxa, mas nos últimos dias tem sido o contrário. Ando estressado eu acho.

- Eu queria um trabalho assim, viajando o mundo e curtindo hotéis caros. Devia ter cursado gestão empresarial. – Finjo desapontamento.

- Eu já falei que você pode largar tudo e viajar comigo. Mas você insiste em ser o melhor advogado que Londres possui, para sorte dos criminosos de plantão. -  Brinca me tirando um sorriso. Esse pelo menos é  verdadeiro.

- Amor eu preciso ir. – Digo. Preciso interromper antes que Zayn perceba minhas mãos trêmulas segurando o aparelho.

- Tudo bem. Te ligo a noite. Te amo.

- Eu t.... Idem. – desligo.

Idem?

Que diabos é Idem e porque eu respondi isso ao meu marido?

Dirijo com o coração acelerado até a delegacia. Que merda. Esse cara vai me matar. Voltou dez anos depois para me fazer morrer em um acidente de carro devido uma crise de ansiedade. Será que é esse o plano? Matar todos com quem ele já transou?

Assim que entro na delegacia tenho o olhar curioso de James sobre mim. Logo descubro o porquê. Louis foi transferido para o presídio já que o inquérito foi instaurado. Eu sabia que isso aconteceria mas esperava ser comunicado. E por isso tenho uma pequena discussão com o delegado e saio bufando e batendo os pés. Devo ter parecido uma criança birrenta.

O presídio é um pouco longe e afastado, chego no final da tarde e tenho a sorte de ser conhecido do diretor e poder entrar nesse horário sem problema.

Sou encaminhado para uma sala onde dois guardas vigiam a porta. Todo o redor da sala é de vidro blindado da metade para cima, possibilitando que quem está de fora possa ver o que acontece dentro. Esse é um presídio de média segurança e é aqui que as coisas ficam mais sérias. Normalmente é só quando chegam aqui, que os réus percebem realmente a gravidade de suas atuais situações.

Cerca de quinze minutos depois Louis é colocado dentro da sala. Agora ele veste o uniforme laranja, os pulsos ainda algemados e os cabelos em uma bagunça que não combina com ele.

Ele se senta na cadeira do outro lado da mesa de ferro e mantém a cabeça baixa.

- O delegado Corden disse que você não usou seu direito à uma ligação nenhuma vez, e pelo que os guardas aqui disseram, fez o mesmo aqui.

- Eu não tenho ninguém para ligar, ou algo para falar.

-  Você podia, quer dizer, deveria ter me ligado avisando sobre sua transferência.

- Você é o advogado, você deveria saber. Se você não percebeu, estou preso, não posso ficar batendo papo no telefone. – Babaca. Eu vou esganar esse cara ainda antes do julgamento.

- Os investigadores falaram com seus vizinhos – decido ignorar seu comentário sarcástico. – Disseram que nunca ouviram ou presenciaram brigas entre você e Adam. – Falo . Ele apenas me olha por dois segundos e volta a encarar os próprios pés. Ele não vai facilitar para mim não é?  - Se você me contar o que aconteceu...

- Você já sabe tudo que precisa. – Ele me encara e eu pigarreio, olho pelos vidros da sala alguns guardas caminhando lá fora. Não ouso olhar em seus olhos. Sinto repulsa só de pensar.

- Eu não sei se a ficha já caiu para você, acho que você ainda não entendeu a  gravidade da sua situação. – Falo baixo, controlando ao máximos minhas pernas que pulam debaixo da mesa.

- Acho que você ainda não entendeu Harry. – Ele fala meu nome e eu estremeço. Apoia as mãos que antes estavam em seu colo em cima da mesa e inclina o corpo para frente. Ele encara meus olhos mas eu olho para suas mãos. – Eu não quero um advogado,  muito menos sendo você. Eu não pedi por isso.

- Pensasse nisso antes de matar uma pessoa. – cerro os dentes, ainda encarando suas mãos. – E ao contrário de você,  eu não me importo de ter pego seu caso, você é como qualquer outro, só mais um caso sem importância alguma. – Minto de novo. Quantas mentiras tenho contado em tão pouco tempo?

Foda-se, eu não vou dar a ele o gostinho de saber que eu estou odiando tudo isso.

- Você jurou que eu nunca mais ouviria sua voz. Você tá falando demais para quem fez esse juramento. – Ele voltou a se encostar na cadeira.

Ele lembra.

Ele lembra daquele dia e se lembra das minhas palavras.

Eu não sei mais se sou capaz de conter o enjoo em meu estômago, ou de evitar roer as cutículas até que minha pele sangre. Opto então por voltar a ideia inicial.

- Os investigadores falaram com seus vizinhos. Como não conseguiram muita coisa, estão atrás de familiares. Já falaram com os pais de Adam mas ainda não conseguiram contatar os seus. – quando digo, noto uma leve mudança na feição de Tomlinson, novamente não consigo decifrar. E pensar que anos atrás eu achava que sabia tudo que ele estava pesando só de olhar em seus olhos. Eu estava tão errado naquela época, não sabia de nada assim como continuo não sabendo.

- Eu matei Adam. Em nossa casa, sozinho, sem testemunhas.  Não precisam falar com ninguém, ninguém vai ter nada a acrescentar.

- Os pais dele disseram que vocês formavam um ótimo casal. – Repito o que um dos polícias de James me revelou noite passada em uma conversa em um bar. Eu sei que sou sacana mas não me culpo por oferecer algumas cervejas aos policiais que eu sei que vão abrir a boca e contar tudo que sabem. A culpa não é minha se eles falam. Apesar de não estar olhando diretamente para ele, vejo de soslaio quando Louis revira os olhos para minha fala. – Eu queria entender o que pode ter acontecido para um casal que os vizinhos e a família admiravam, terminar da forma como terminaram.

- Pois é. Que coisa não?! – ele soa cínico. Novamente. Deus me ajude a não enforcar esse imbecil.

- Certo. Você não vai falar. Entendi. – Pego minha pasta e me levanto, abotoo meu terno para sair – apenas saiba que o promotor não vai se dar por satisfeito com testemunhas assim. Ele vai cavar até achar alguém que diga que você sempre foi violento com seu marido, alguém para fazer sua caveira. E eles vão achar sua família também.

Me virei para deixar a sala, mas antes que eu abrisse a porta o ouviu dizer:

- Se querem alguém para fazer minha caveira, porque você não depõe? – Não me viro, permaneço de costas para ele com a mão na maçaneta. – Apesar de que se eu pudesse dar um conselho, eu diria para você sair fora. Esse é um caso perdido Harry. Não suje sua carreira comigo.

Eu saio.

Sem olhar para trás.

Eu saio e quase corro até meu carro. Entro e não aguento mais. Eu tenho segurado desde o dia em que ele apareceu na delegacia confessando um crime.  Eu tenho sido forte e segurado tudo.

Mas não hoje.

Eu deixo as lágrimas rolarem, as janelas fechadas abafam o grito que corta minha garganta. Meus punhos acertam o volante com tanta força repetidas vezes que possivelmente terei de explicar os hematomas amanhã.

Meu choro não sai como um choro normal. Parece pesado demais para sair do meu peito e eu preciso arrancá-lo de alguma forma. Por isso ainda bato e grito. Minha respiração é curta e acelerada. Minha jugular pulsa em meu pescoço me causando a sensação de estrangulamento. Por sorte já é noite e não há ninguém no portão do presídio para presenciar essa cena deplorável.

Eu me odeio.

Odeio que isso esteja mexendo comigo.

Odeio estar fazendo isso. Odeio ele.

Odeio principalmente a forma como ele disse a última frase.

Não suje sua carreira comigo.

Confiar de novoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora