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Tomei o banho mais demorado de toda minha vida.
A vontade de chorar ainda existia mas depois do dilúvio de lágrimas que deixei na camiseta de Louis, enquanto chorava em seu peito, não sobrou muita coisa para reproduzir uma cena dramática de choro no chuveiro.
Nem por isso, a ausência de lágrimas anulava o turbilhão em minha mente. Os pensamentos são muitos, e são bem claros.
Saio do banho e essa é a única parte que não entendo: visto novamente o conjunto de moletom de Louis. É quente e confortável, e essas sensações são tudo que meu corpo precisa agora.
Na cozinha, preparo um chá quente. Já é tarde e sei que essa será provavelmente uma noite perdida, então decido aproveitar. Termino meu chá e coloco fones de ouvido, conecto o celular e escolho a minha melhor playlist. A música em meus ouvidos é alta assim como a adrenalina em meu corpo. Me movo com destreza pela casa enquanto junto tudo que encontro de Zayn e deixo em um canto da sala.
Roupas, sapatos, perfumes, até seu travesseiro. Não quero nada com seu cheiro na minha casa. Aos poucos, madrugada adentro, e tudo está empilhado em caixas e alguns sacos plástico ao lado do sofá. Ainda tenho tempo antes que amanheça o dia, então, tiro a roupa de cama e coloco na máquina para lavar. Quando finalmente o dia começa a clarear, preparo um café forte e bebo sem nenhum acompanhamento.
Minha aparência é deplorável depois de muito choro e uma noite em claro, mas meu coração está em paz com minha decisão. Não irei fugir como da última vez, mas também não irei tolerar.
Louis pode ter agido no impulso, bêbado e drogado, mas Zayn não. Não sei há quanto tempo ele pode estar inventando viagens para se encontrar com sua amante, mas sei que desta vez que o vi, ele estava muito consciente do que estava fazendo e inclusive, falou ao telefone comigo, ao lado dela, sem um pingo de culpa na voz. Ele nem aos menos hesitou.
Estaciono em frente ao hotel, com sorte consegui uma floricultura aberta logo cedo e escolhi o buque de rosas mais bonito da loja.
- Bom dia. – Comprimento o recepcionista que me responde cortês. – Um casal de amigos meu está hospedado aqui, eles acabaram de ficar noivos e eu gostaria de deixar um presente em comemoração. – Minto descaradamente mostrando as rosas em minhas mãos.
- Sim senhor. Qual o quarto? – O rapaz é atencioso e educado. Corresponde a altura meu sorriso para ele. Faço o meu melhor para parecer tranquilo e feliz.
- A desculpe, eu não sei. Eles chegaram há pouco na cidade e eu acabei não perguntando. Acredito que a reserva esteja no nome de Zayn Malik.
- Um instante.
O que um sorriso educado não faz? Apostei minha fichas e ganhei. Basta olhar nos olhos do recepcionista e sorrir galanteador que ele nem se lembra que não deveria dar informações dos hóspedes a qualquer pessoa.
- Não tem nenhum Malik, senhor. – Ele me diz depois de um tempo olhando para o computador. – O senhor disse que chegaram há poucos dias?
Penso um pouco, frustrado com receio de que eles já tenham ido embora, mas me recordo da data exata em que Zayn saiu de casa dizendo ir para França e forneço essa data ao rapaz.
- Bom, nesta data, apenas um casal fez check-in. Mas não está no nome de Malik. Hadid, a reserva foi feita no nome de Hadid.
Hadid. Por que esse nome não me é estranho? Pensa Harry.
Não tenho muito tempo, e meu cérebro acompanha minha emergência em raciocinar. Hadid. Claro. A chefe do meu querido marido.
Isso significa que mesmo que as viagens que ele diz que faz, sejam reais e sejam mesmo a trabalho, ela está sempre junto. Ele já me falou isso. A presidente da filial de Londres o acompanha em todas as viagens.
Filho da puta.
- Claro. Gigi Hadid. – Concordo com o recepcionista. – É a noiva de Zayn. – Não economizo no charme que despejo no rapaz e ele claramente se derrete. – Você poderia me fazer o grande favor de entregar essas flores?
- Claro senhor. Farei isso pessoalmente. Sr....?
- Styles. Harry Styles. – Você pode dizer que fui eu quem mandei? – pergunto e rapidamente o rapaz assente. – Ou melhor, você teria um papel e uma caneta?
Logo o rapaz me atende e escrevo um bilhete. Eu havia optado por não entregar nenhum cartão, mas não posso correr o risco desse recepcionista esquecer meu nome ou falar algo errado.
Preciso ter certeza que Zayn saberá que fui eu quem mandei as flores.
“Bom dia querido. Espero que suas noites tenham sido boas. Esse hotel é realmente caro, espero que o colchão seja confortável. Amor, te poupei tempo e trabalho e já deixei todas as suas coisas arrumadas na sala, tomara que tenha um canto para você no guarda-roupa da sua amante.
Adeus. Mande um beijo para Gigi por mim. Com carinho Harry.”
Respiro fundo e entrego o bilhete junto com as rosas. Agradeço gentilmente o rapaz e imediatamente o vejo chamar alguém para assumir a recepção enquanto ele sai rumo ao elevador.
Volto para meu carro e sigo para minha rotina.
Me espanto com minha própria frieza em encarar a situação, mas eu já sofri demais e não estou nenhum pouco disposto a passar por isso novamente.
Minha cabeça pesa uns dez quilos, meus olhos ardem devido ao cansaço e não teve um, dos meus colegas de trabalho, que não tenha perguntado se algum caminhão me atropelou. Respondi que sim em todas as vezes e eles riram da brincadeira, quando na verdade eu fui mesmo atropelado pelo caminhão da decepção.
Eu sempre coloquei Zayn em um pedestal e ele me mostrou que lá de cima ele não me enxerga mais.
Meu celular tocou incessantemente desde que cheguei na Defensoria, a caixa de mensagens deve estar saturada e eu só não desliguei o aparelho porque estou esperando ligação de Frédéric a respeito do julgamento de Louis que acontece amanhã.
Pelo amor de Deus.
Estou no meio da ligação com o promotor, ele me passa a ordem em que será apresentada as testemunhas, quando a porta da minha sala abre abruptamente e vejo Zayn parado na porta me encarando com seus lindos olhos marejados. Falso.
- Amor. Por favor me perd... – ele se apressa em minha direção.
- Não dê nem mais um passo. – O interrompo firme.
Zayn me olha com piedade e nesse momento meu coração se aperta um pouquinho. É o primeiro momento desde que o vi com sua amante que quase fraquejo e penso por meio segundo que talvez eu esteja fazendo muito drama.
Mas não. Eu não vou aceitar isso.
- Zayn. Eu estou trabalhando. Como eu já disse, suas coisas estão arrumadas. É só pegar e sair.
- Você está exagerando amor. – Ele diz se fazendo de ingênuo. Irritante. – Eu não sei quem te falou e o quê, mas você está enganado.
- Eu vi querido – Ironizo. – Ninguém me contou nada. Ontem quando te liguei eu estava parado ao lado de fora do hotel admirando a vista de você e sua chefe aos beijos.
Dito isso, Malik estremece e vejo quando seus ombros caem. Ele sabe que não há desculpa e eu noto seu desespero.
- Foi uma vez Harry. Foi uma estupidez, um erro ridículo. Não significou nada. – Zayn tenta novamente se aproximar e eu me levanto da minha cadeira dando dois passos para trás. Ele me olha com as sobrancelhas juntas e continua. – Amor, sou eu, seu marido que tanto te ama. Eu cometi um erro mas eu juro, isso nunca mais vai se repetir.
- Zayn, eu estou trabalhando. Por favor saia. – Sou firme apontando para a porta.
- Amor por favor.
- Saia. Nós conversamos outra hora. Mas ainda assim, quando eu chegar em casa hoje, eu não quero ver você e nem suas coisas na minha casa.
- Não fala isso queri...
- Saia! – repito ficando verdadeiramente irritado.
Só então Zayn ajeita sua postura e me encara de um jeito que nunca vi antes. Ele não insiste e sai da minha sala batendo a porta.
Solto o ar dos pulmões e me jogo em minha cadeira. Minhas pernas estão fracas e minhas mãos trêmulas. Encarar Zayn não foi tão fácil como parecia ser em minha mente, são tantos anos de um relacionamento que eu julgava estável e agora, tudo está indo pelo ralo, mas não me arrependo da minha decisão.
Eu preciso voltar a trabalhar. Preciso me preparar e estudar o caso de Louis mais uma vez. Eu preciso estar absolutamente preparado para tudo no julgamento. Eu não posso deixar que a infidelidade de Zayn tire meu foco e me atrapalhe.
Eu não posso, em hipótese alguma, perder esse caso.
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Confiar de novo
FanfictionDepois de anos, Harry reencontra sua maior decepção adolescente. Como advogado, ele terá que assumir o caso de um antigo amor. Lidar com os sentimentos que há muito jurava não existir mais e separar passado e presente pode ser mais difícil do que pa...
