Capítulo 49

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Cidade de Deus

Nicolly

Eu tinha acabado de sair do churrasco da mulher do meu pai, não gosto de chamar ela pelo nome é muito menos de mãe.

Nunca gostei dela, na verdade.

Desde quando ele disse que cuidaria de mim como uma filha, ela nunca apoiou, porém eu já sabia que era só pelo dinheiro.

Ela jurava que por ele me criar, eu iria ser interesseira igualzinha a mesma, mas para sua sorte, eu sempre fui correria.

Mesmo pequena, minha mãe me ensinava, que eu tinha que correr atrás do meu, sem atrasar o de ninguém.

Nunca roubei quem era pobre, sempre analisava tudo antes de fazer qualquer merda, sempre fui cautelosa, porém me perdi no personagem neste último ano.

Sei que vou morrer, mas oque eu posso fazer? Essa é a vida que eu decidi para mim, poderia ter pedido ao chefia para pagar uma faculdade boa, pra conseguir arranjar um trampo digno.

Mas meu interesse sempre foi nas notas, eu via o quanto ele gastava, o quanto ele ganhava e era isso que eu queria.

Viver a vida gastando dinheiro com coisas fúteis, sem me preocupar com o depois, porque no depois, eu estaria recebendo mais.

E a essa vida é assim, quanto mais você ganha, mais você quer gastar.

É só percebe que tá na merda, depois que tu se fodeu o suficiente.

Eu estava descendo o morro, indo para a sala de cobrança, onde o Negrito estava, eu estava tremendo, de medo.

Não por eles invadirem a favela no meio da madrugada, não isso jamais. Mas sabia que quando eles conseguissem o Negrito, iriam me matar.

Não sei se estou fazendo o certo, mas eu preciso dele vivo, ele tem filhos pra cuidar, não dá pra essa esquecer isso e viver a vida dando o foda se.

Estou errada? Sim! Mas eu estou fazendo por amor.

E oque eu mais espero, é que em algum dia, alguém me entenda, perfeitamente.

Entrei na sala de cobrança, fiz um toque com os meninos e os mesmos nem ligaram de eu estar lá, meu pai me obrigava vir aqui pelo menos uma vez ao dia, e eu deixei a vez de hoje para agora.

Ele sabe que eu e a mulher dele não nos damos bem, então eu longe da festa, sem estragar o momento dela, é a melhor coisa que ele está tendo neste momento, tenho certeza.

Assim que entrei na sala, respirei fundo e olhei para o mesmo, ele estava mais magro do que o era, todo machucado, isso me doeu muito.

Mas não tanto quanto o seu olhar de ódio contra mim.

Trouxe comida, preciso de você com energia para hoje, sei que está foda, mas isso vai melhorar - falei e coloquei diversas coisas para comer em frente ao mesmo.

Melhorar? Quer dizer oque com isso? Vou precisar ter energia pra ficar acordado enquanto teus parceiros me matam?

Não, mas para os seus parceiros virem te buscar, vou te soltar, mas não me bate por favor, pelo menos não agora.

E porque não?

Porque sou a única que vai conseguir te tirar daqui sem que ninguém nos veja, preciso do seu último voto de confiança.

E oque eu ganho com isso?

Além da sua liberdade e da sua vida? Bom, eu à disposição na sua favela, pra vocês me cobrarem do jeito certo, e por fim, me matarem.

Ele gargalhou.

Ninguém vai atrás de mim, e mesmo se vocês um dia, oque eu acho difícil, me liberarem, sei que se voltar, vou ser morta, então que seja na mao de alemão.

Tu sabe que tu e seu marido de merda vão morrer na minha mão né?

Ele não é meu marido, mas enfim, não preciso te explicar muita coisa da minha vida, só não morre ainda tá?

Falei e fui soltando o mesmo, ele caiu sentado e eu o ajudei a encostar as costas na parede e comer tudo oque eu trouxe.

Ele tava a alguns dias sem comer, admiro que ele ainda tenha forças para discutir comigo.

Assim que ele terminou de comer, sai da sala e fingi estar falando com o meu pai, a troca de turno começou e do nada, o cafajeste apareceu.

Troca de turno rapaziada, podem ir lá comemorar na festa da patroa que eu e minha mulher vamo fazer a contenção por aqui

Falou e eu fiquei confusa, oque ele queria aqui?
Os meninos saíram de lá e nos deixaram a sós.

Oque tu está fazendo aqui? - perguntei totalmente confusa

O mesmo que você, só não entendo essa merda toda, tu vai morre, tu sabe né?

Sei, mas você também vai. Não atrapalha meu plano, por favor.

Eu sou mais de lá, do que daqui, princesa.

De qualquer forma, ele irão matar nós dois.

Quem te disse?

Quem quer ficar com x9 na favela? Pelo amor de Deus né?!

Fica quietinha e vai passar suas últimas horas com o seu amor vai.

Falou e eu saí negando de lá.

Não sabia oque estava acontecendo, mas sabia que era uma merda das grandes.

Faltava somente aguardar os caras derem sinal de que já estavam chegando ao matagal.

Para aí sim, tirar o mesmo daqui, peguei um pouco de água em uma garrafa e levei para o Negrito.

Assim que cheguei, ele estava com uma faca apontada pra mim.

Não me mata agora cara, se não você não sai dessa favela nunca - falei entregando o copo de água para ele.

Bebe tu, primeiro.

Falou e assim eu fiz, dei um gole e depois o mesmo bebeu sem fazer show.

Haja paciência para aguentar até eles chegarem.

Vida Bandida (M)Onde histórias criam vida. Descubra agora