JAMES GRIFFIN
— SABIA QUE TE ENCONTRARIA AQUI — Beatriz, minha irmã mais nova, se colocou ao meu lado de repente, quase fazendo-me cuspir o uísque que eu havia acabado de dar um longo gole.
Olhei-a depois de engolir corretamente o líquido âmbar, encontrando-a se sentando na grama ao lado da minha cadeira e da garrafa quase pela metade de uísque. Arqueei uma das sobrancelhas, não entendendo o porquê de sua interrupção ao meu momento precioso de silêncio.
Eu sempre tive esse momento depois de um dia cansativo de trabalho. Era como um ritual para que eu conseguisse manter a minha cabeça no lugar. Com tantas demandas, traumas e muito caos, o Hospital Alfredo Vesalius conseguia ser tanto a melhor quanto a pior parte do meu dia. Perdendo, no quesito melhor, apenas para a minha filha. Aquela garotinha, sem dúvidas, estava no top um de melhor coisa que já poderia ter me acontecido.
Ela arqueou a sua sobrancelha de volta e olhou de relance para o copo de bebida na minha mão, silenciosamente me julgando por beber em plena terça-feira. Dei de ombros. Estava exausto por conta do dia de merda que eu tive e nada, nem aquela garrafa bem cheia de álcool, me faria esquecer de que hoje fazia três anos que minha esposa havia morrido.
Eu sabia que minha irmã ainda não tinha ido dormir - como normalmente fazia quando eu chegava em casa -, porque estava esperando por esse momento. Principalmente quando ela sabia o quanto essa data me fazia desabar. Só que, por mais que eu amasse muito minha irmã, nada do que ela pudesse fazer mudaria o fato de que a mulher da minha vida tinha me deixado, tinha deixado a nossa filha. E, mesmo sabendo todos os termos médicos já existentes, não pude fazer nada para impedir.
Minha irmã bufou, como se eu fosse alguém muito difícil de lidar.
Eu era. Não podia nem negar.
— Sabe por que você continua deprimido dessa forma depois de três anos? — voltou a falar depois de longos minutos em silêncio.
Apertei o copo entre meus dedos, sabendo muito bem em qual assunto iríamos entrar, e o levei até a boca em seguida, terminando com o restinho do uísque que ainda restava.
Peguei a garrafa, jogando mais um pouco do líquido no copo de vidro.
— Eu não sou deprimido.
Voltei a fitar o mar à minha frente, não querendo encarar o deboche e o sarcasmo que provavelmente apareceria nas íris azuis iguais às minhas ao ouvir essa frase sair da minha boca. Afinal, eu tinha pleno conhecimento do quanto eu era uma pessoa absurdamente deprimente.
Mas isso não queria dizer que eu precisava fazer essa confirmação em voz alta, principalmente para a minha irmã mais nova.
Não que ela não soubesse disso, pois convivia comigo o suficiente para notar o quanto eu vinha vivendo a minha vida de forma patética, e apenas pelo seu olhar, conseguia imaginar as milhares de coisas das quais era doida para falar na minha cara só que achava que não valia a pena, sabendo exatamente que eu não escutaria nada.
Eu até gostava que não falasse nada mesmo.
Sempre que Beatriz abria a boca para soltar as opiniões que rondavam a sua cabeça, me fazia envelhecer muito mais rápido do que eu gostaria, e com um mal-humor que só os sorrisos doces da minha filha para me fazer melhorar.
Minha irmã tinha a brilhante mania de tentar consertar a minha vida, de me dar lições de moral como se ela fosse a mais velha. Dizia que ela tinha que cuidar de mim já que eu mesmo não fazia tal coisa.
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Escolha Certa - CONCLUÍDO
RomanceVIZINHOS - "ENEMIES TO LOVERS" - CONVIVÊNCIA FORÇADA - COLEGAS DE TRABALHO - PAI SOLO - CRIANÇA FOFA - HOT+18 - FOUND FAMILY James Griffin, um homem marcado pelos traumas do passado, vive uma vida extremamente controlada, segura e previsível, tenta...
