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A Sofia tinha chorado até adormecer, exausta demais pra continuar lutando contra o próprio corpo. Em algum momento da madrugada, o choro virou respiração lenta e pesada, ela adormeceu ainda agarrada a Eli, como se mesmo dormindo tivesse medo de soltar. Ele não se mexeu a noite inteira. Sentiu o peso dela relaxar aos poucos, sentiu o calor, o ritmo do peito dela contra o seu, e ficou ali, acordado por mais tempo do que gostaria, vigiando um sono que parecia frágil demais pra ser interrompido.

De manhã, foi ele quem acordou primeiro. A luz suave entrou pela fresta da cortina, e Sofia continuava aninhada nele, o rosto escondido em seu peito, a mão fechada na camisa como se fosse a coisa mais importante do mundo. Eli ficou alguns minutos sem se mover, só observando. O cabelo loiro bagunçado, o rosto ainda marcado pelo choro da noite anterior, mas finalmente em paz. O peito dele apertou. Amava aquela garota de um jeito que doía, e justamente por amar tanto, sabia que não podia só ficar parado, vendo outros fazendo de tudo para machuca-la.

Com o máximo de cuidado, ele se soltou devagar, milímetro por milímetro, até conseguir sair sem acordá-la. Ajustou o travesseiro, puxou o cobertor um pouco mais pra cima, protegendo os ombros dela. No criado-mudo, deixou um copo com água e um remédio, sabendo que a dor de cabeça viria quando ela acordasse. Antes de sair, se inclinou e deixou um beijo leve no topo da cabeça dela.

Na cozinha dos Lawrence, o silêncio ainda dominava a casa. Eli passou a mão no rosto, respirou fundo e foi direto atrás de café. Um café bem forte. A noite tinha sido intensa também pra ele, mesmo que não no mesmo nível que pra Sofia. Enquanto a cafeteira trabalhava, ele começou a se mover quase no automático, pegou ovos, pão, colocou uma frigideira no fogo. Preparou café da manhã pros três, pra ele, pra Robby e pra Sofia, sabendo que logo todos acordariam, e que o dia não seria fácil.

Pouco depois, passos surgiram no corredor. Eli ainda estava de costas, terminando de virar os ovos na frigideira, quando ouviu o barulho característico de alguém entrando na cozinha meio grogue de sono.

— Cara. — a voz de Robby saiu baixa, rouca. Ele parou perto da bancada e respirou fundo. — Você leu meus pensamentos.

Eli riu fraco, sem virar de imediato.

— Café salva vidas. — respondeu, simples.

Robby se aproximou mais, pegou uma caneca e se serviu sem nem perguntar, como se aquele gesto fosse quase automático entre eles. Levou o copo ao rosto, fechou os olhos por um segundo só pra sentir o cheiro.

Eli finalmente olhou pra ele, o riso sumiu aos poucos quando viu o estado do amigo. Olheiras começando a aparecer, ombros tensos, aquele cansaço que ele imaginava que todos estariam naquele dia.

— E aí... — começou, apoiando o quadril na pia. — Como você tá? Pelo lance de ontem.

Robby soltou um suspiro longo, pesado. Passou a mão pelos cabelos, apoiou o cotovelo na bancada e ficou olhando pro nada por alguns segundos antes de responder.

— Não consegui falar com a Tory. — disse, sem rodeios. — Ela sumiu, eu liguei, mandei mensagem... e nada. — balançou a cabeça, frustrado. — Eu tô preocupado. Independente de tudo, eu conheço ela. Sei quando tá fugindo. — o silêncio entre eles ficou denso por um instante, quebrado só pelo barulho da frigideira. — E a Sofia? Como ela tá? Você ficou com ela depois de tudo aquilo.

Eli respirou fundo. O olhar dele escureceu um pouco, a mandíbula se contraiu.

— Acabada. — respondeu, sincero. — Ela chorou até dormir. — desviou o olhar por um segundo, como se ainda visse a cena. — Nunca vi ela daquele jeito, Robby. Tão quebrada.

Robby fechou os olhos por um instante, como se aquilo confirmasse tudo o que ele já temia.

— Eu tô muito preocupado. — completou Eli, a voz firme, mas carregada. — Mais do que qualquer coisa. O que o Silver fez... não dá pra simplesmente fingir que não aconteceu. Eu ainda vou fazer alguma coisa. — disse, com convicção. — Não posso deixar isso do jeito que tá. Não com ela pagando esse preço todo sozinha.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora