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A noite já tinha caído completamente quando o carro de Shannon estacionou em frente à casa de Johnny. As luzes do térreo estavam acesas, refletindo suavemente na calçada, e o som abafado de uma música instrumental escapava por alguma janela entreaberta de algum vizinho aleatório. Sofia sorriu ao ver que estavam em clima de tranquilidade por ali.

— Quer que eu entre com você? — Shannon perguntou, virando-se no banco do motorista.

— Não precisa. — Sofia sorriu, soltando o cinto e pegando sua mochila no banco de trás. — Foi um ótimo dia, mamãe. De verdade.

— Eu adoro quando você me chama assim. — a mais velha sorriu, orgulhosa e suave.

Sofia riu baixinho, se inclinando para abraçá-la. O abraço foi longo, sincero. Era quase inacreditável que, um ano antes, as duas mal conseguiam passar cinco minutos sem discutir. Agora, Sofia aparecia com frequência na casa de Shannon, às vezes para almoços rápidos, às vezes para passar o fim de semana inteiro. Haviam aprendido a se amar como mãe e filha de verdade, sem o peso dos erros do passado.

— Me manda mensagem se o Johnny estiver enchendo o saco — ela brincou, e Sofia revirou os olhos, mas com um sorriso no rosto.

— Ele nunca me enche o saco. Quem enche o saco dele sou eu.

As duas riram, trocaram mais um beijo na bochecha e então Sofia saiu do carro, acenando até que Shannon sumisse na esquina. Quando empurrou a porta de casa, o cheiro de tempero fresco invadiu o ar. Ela franziu as sobrancelhas, largando a mochila no canto da escada.

Ao virar o corredor da cozinha, parou. Robby estava concentrado no fogão, de costas para ela, mexendo alguma coisa numa panela com total dedicação. Ele estava usando uma de suas faixas para tirar o cabelo do rosto e uma camiseta que ela tinha lhe dado de aniversário, anos atrás.

Johnny, por outro lado, estava terminando de colocar a mesa com uma naturalidade quase suspeita. Guardanapos dobrados, copos iguais, até talheres simetricamente arrumados, ou pelo menos ele estava tentando. Sofia piscou algumas vezes, desconfiada.

— O que tá acontecendo aqui? — ela perguntou, cruzando os braços, com um sorriso desconfiado.

— Nem vi você chegando. — Johnny levantou os olhos e abriu um sorriso, indo até a menina e lhe dando um beijo no topo da cabeça.

— Ei. — Robby disse por cima do ombro, sem parar de mexer a panela. — Achei que você ia dormir lá hoje.

— Achei também — ela respondeu, andando até a cozinha. — Mas aí percebi que a mamãe já tava tentando me empurrar um suco de maracujá com chá de camomila e me chamando de "minha menina" de cinco em cinco minutos. Aí decidi fugir antes que ela começasse a me colocar pra dormir com história.

— Vocês tão bem mesmo, hein? —Johnny riu, arrastando a cadeira de sempre para ela.

— Estamos sim — ela respondeu, pegando uma uva do cesto no balcão. — É meio louco, né? Às vezes eu ainda fico esperando ela chegar em casa embriagada, mas nunca mais aconteceu.

Johnny sorriu, e Sofia percebeu que ele parecia realmente feliz com aquilo. Talvez porque, por anos, ele e Shannon mal conseguiam conversar civilizadamente, e agora a filha dos dois estava reconstruindo uma ponte entre mundos que pareciam tão diferentes.

— Vocês vão me contar o que tá rolando aqui ou eu vou ter que usar meus instintos de detetive? — ela brincou, se sentando na cadeira que seu pai havia puxado pra ela.

— Surpresa. — Robby disse, finalmente se virando com a panela nas mãos. — A gente tá fazendo o jantar hoje. Nosso pai quis fazer um algo especial, nosso primeiro jantar juntos.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora