I

115 14 79
                                        

06 de agosto de 1492, Città del Vaticano

Todos se dirigiram à Basilica di San Pietro. A piazza era patrulhada por centenas de soldados estrangeiros, enviados por Fernando de Aragão. O peito do cardeal Conti apertou diante das alabardas aragonesas. Os venezianos fitavam os homens sobre as muralhas, receosos; o velho cardeal Gherardi tossia forte. Os franceses cochichavam entre si, no fundo da procissão. Os cardeais italianos acompanharam o olhar de desdém de Giuliano Della Rovere. O cardeal Borgia, porém, permaneceu irredutível ao silêncio.

Diante da fachada coberta por rachaduras, lembraram-se do estado em que a Igreja se encontrava. O resultado da negligência em razão de sua própria ganância. Diante das janelas em arco em dois níveis, o sol penetrava-a; a rosácea do frontão iluminava diante seus olhos. Observavam os mosaicos. Fitavam a Cristo entre Pedro e a Virgem; ao lado, um anjo, um leão, um touro e uma águia se dispunham ao lado de Maria e Pedro. As figuras dos Evangelistas dispostas entre as grandes janelas. Na parte inferior, sob uma inscrição, outras figuras identificadas com os Anciãos do Apocalipse ; nos frontões triangulares das naves laterais, imagens de Jerusalém e Belém.

Adentraram o pórtico para um recinto chamado Atrium Paradisi. O espaço era sereno e aconchegante, um pequeno jardim envolvido por uma pavimentação. Caminharam pelo piso cosmatesco de fundo axadrezado e esferas ornamentais de pedras preciosas. Contornaram a fonte de pórfiro e serpentinita, cravejada de pequenas esmeraldas que contornavam os desenhos geométricos.

Caminharam pela nave central, fitando o altar-mor, observando as treliças de madeira acima de suas cabeças. A basílica estava cheia, de modo que os cardeais precisaram se espremer entre o povo para se achegarem ao altar. Enquanto se espremiam, distribuíam bênção sobre os fiéis, simulando simpatia em meio ao sufoco. O mês de agosto muito os castigava e o calor era insuportável.

Algumas colunas estavam ausentes, pois haviam desabado durante um terremoto. Goteiras de uma chuva passada formavam poças em alguns locais. Riario Sansoni, fitando o alto, percebeu que parte das treliças estavam mais escuras que as outras. Comentou com Oliviero Carafa. Uma delas estava sobre o altar. Temerosos, decidiram escolher os assentos mais próximos dos mausoléus acessados pelo transepto.

Na abside se encontrava o memorial do Apóstolo, que nada mais era do que a edícula do século II. Esta última sobressaía do chão da basílica, inserida num cubo de mármore com pilastras de pórfiro vermelho, cercada por uma pérgola com colunas torcidas e cupidos colhendo uvas. No altar, sentaram-se no longo seguimento de cátedras. O cardeal Giuliano della Rovere assumiu o lugar de Rodrigo Borgia na Missa do Espírito Santo em razão de um suposto mal-estar. O cardeal Borgia, Decano do Colégio de Cardeais, estava sentado, sofrendo com o calor das vestes pesadas, suando. Após a celebração e o sermão, recolheram-se. Almoçaram coletivamente. Aguardaram a tarde chegar.

Diante da basílica, aguardaram os oficiais de cerimônia e o mestre, Johann Burchard, um homem trajado de vestes negras, semelhante às de um padre, com um barrete preto. Os cardeais receberam para uso pessoal uma mesa, uma cadeira, um assento para descarga do estômago, dois mictórios, guardanapos, toalhas, lenços, doces, uma balança, um estojo e papéis. O inventário era carregado por seus secretários até a capela.

Os cardeais foram organizados: primeiro, vinham os cardeais diáconos; em seguida, os cardeais-presbíteros; por fim, os cardeais-bispos. À frente, os jovens coroinhas portavam velas e o Mestre de Cerimônias, a cruz processional de ouro. Os cerimonialistas e coroinhas entoavam a invocação: "Veni Creator Spiritus". Os cardeais mantiveram silêncio. Não olhavam para um lado nem para o outro; sempre para frente. Eram acompanhados por seus conclavistas. Gherardi, de 86 anos, precisava ser sustentado pelos ombros por dois de seus conclavistas enquanto um terceiro carregava suas bagagens para o claustro. Burchard gerenciava o ritmo da procissão, a fim de que a Ladainha de Todos os Santos precedesse a entrada imediata na capela. Jorge da Costa, mesmo com dores nos pés, caminhava. Conti, com suas dificuldades, prosseguia com a procissão assistida pelos fiéis.

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora