XXIII

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12 de junho, Vaticano

Havendo chegado o dia do casamento, Lucrezia estava no Palácio Apostólico, na companhia de seu pai e dos irmãos. Estavam acompanhando o trabalho de Pinturicchio e seus pupilos do ateliê na Sala dos Papas, onde seria celebrado o jantar solene. A pintura de todos os quartos estava praticamente acabada, faltava apenas refinar os afrescos das três últimas e colocar os últimos detalhes. O pintor havia feito um excelente trabalho, ornamentando todos os salões com ouro. A Sala dos Papas, a maior de todas, tinha como detalhe o nome de todos os Papas em pergaminhos nas cornijas da sala e no teto. Dessa vez, o fundo não era azul celeste, mas vermelho-escarlate, representando o sangue de Cristo e as vestes pontifícias. Na sala, foram gravados 214 nomes em 214 pergaminhos, sendo o de Alexandre VI aquele que estava no centro de todos, dentro de um sol. Todo o salão era escarlate. Os pergaminhos tinham os pomos de seu rolo esferas rubras adornadas de ouro, enquanto o papel era feito de prata; os nomes dos Papas estavam escritos com ouro derretido. O nome de Alexandre VI era o último que faltava para Pinturicchio antes de entrar em recesso. Faria o seu trabalho rapidamente naquela manhã, diante do Papa e dos Borgias.

Estavam no recinto Giovanni, Cesare e Lucrezia junto ao pai. Lucrezia admirava o brilho dourado da sala; definitivamente adorava objetos brilhantes. Cesare posicionava-se ao lado da irmã; sorria para a irmã, compartilhando de sua admiração; explicava para Lucrezia a história dos Papas, desde os santos Lino, Anacleto e Clemente Romano até os Papas Sisto IV, Inocêncio VIII e Alexandre VI. Giovanni manteve-se mais afastado dos irmãos e do pai; observava o arcebispo de Valência e a irmã.

Cesare sorria. Lucrezia sorria. Sorriam um para o outro. Um sorriso genuíno, estranho para ele. Nunca havia sorrido dessa forma para ele quando se encontravam, mesmo vivendo com a irmã mais tempo que Cesare, que aos 12 anos deixou a família para estudar em Pisa por ordem do pai. Não era amado nem por minha própria irmã. O que fiz contra ela? Apenas cumpri com os desejos de nosso pai... Interrompeu-se. Seria esse o problema que o afastara de sua própria irmã? Seguir as ordens do pai seria a razão dessa disparidade? Negou. Era intolerável. A desconfiança não poderia se alastrar. Precisava ser contida, mesmo que fosse com a ignorância, a mesma que nutriu por toda a vida. Custava aceitar a sua condição. Preferiu esboçar algum sorriso, pois a família sobreviveu quase um ano de Pontificado.

— Está acabado, Santidade. — Disse o pintor em cima do andaime.

— Perfeito! Desça para cá. — Disse o Papa.

O pintor desceu, trazendo colado ao corpo o pote, parcialmente preenchido com ouro. O Papa apertou a sua mão, com firmeza, sorrindo para ele.

— Agradeço pelos seus serviços, caro pintor. Não poderia ter escolhido outro melhor.

— É uma honra servi-lo, Santidade. — Respondeu o pintor, curvando-se. — Há algo mais que possa fazer antes do casamento, Santo Padre?

— Vá em paz, mestre. Apenas desejo que se livre desse andaime. O piso está limpo, não manchou nenhum dos azulejos de majólica. Descanse agora. Voltará aos trabalhos em setembro. Até lá, receberá parte de seu pagamento. Vá ao encontro de Alessandro Farnese e peça a ele o montante que foi combinado, assim que concluírem o trabalho.

— Sim, Santidade. Talvez fosse melhor que se retirassem deste cômodo. Não queremos acidentes, Santidade.

Os Borgias deixaram a Sala dos Papas e foram à Sala das Síbilas, que era o escritório do Papa. Os profetas e as musas observavam-nos das lunetas.

— Já teve a conversa com o meu noivo sobre a noite de núpcias? — Indagou Lucrezia.

— Ele concordou em retardar a consumação do casamento. Não será pública, mas privada, com duas testemunhas da sua escolha.

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora