Naquela fria manhã de inverno, Lucrezia despertou ao nascer do sol. Ainda sonolenta, espreguiçou-se debaixo dos cobertores. Não queria deixar o leito aconchegante. Porém, julgou ser necessário um pouco de sacrifício. Poderia voltar à cama mais tarde, pensou, consolando-se.
A jovem ajoelhou-se ao lado da cama, unindo suas mãos. Fitava o Cristo crucificado acima da cabeceira. Rezou as orações costumeiras dos dias comuns e a devoção mariana, com a leitura da Anunciação. Terminou a consagração do seu dia com a composição de São Bernardo de Claraval, Salve Regina. Quando terminou suas preces, voltou para a cama e descansou um pouco mais.
Algum tempo depois, levantou-se. Caminhou até as janelas e as abriu. O dia estava nublado. Caso contrário, a luz ofuscaria seus olhos. Observava os jardins à distância. O perfume de incenso dos cedros e azinheiras era carregado pelo vento até a menina. Suspirando, debruçou-se à janela. Desejava caminhar mais uma vez por aqueles jardins. Não compreendia a razão de ser enclausurada em seu próprio palácio, sem permissão para receber visitas, senão de sua família e de Ascanio.
A porta bateu. Não respondeu.
Depois de algum tempo, tornou a bater.
— Entre — falou a jovem ao desconhecido.
A porta se abriu devagar. Era um jovem, o camareiro do Papa. Ainda à porta, observava sua senhora debruçada sobre a janela. Não ousou se aproximar. Aguardou por alguma reação. A espera foi em vão.
— Está bem, minha senhora?
— Perotto, por que estou aqui? — Indagou, ainda debruçada.
— Lembro-me que o Reverendíssimo Cardeal Sforza disse que era por ordem de Sua Santidade.
— E por que faria isso? Por que não respondeu as minhas cartas? — Perguntou, virando-se.
— Não sei. Deve ter algum motivo. Não lhe causaria tanta dor sem uma razão que justificasse... Ficar aqui lhe causa dor, não?
— Não aguento ficar presa por mais tempo! Eu... Se Adriana não tivesse aqui, eu tentaria escapar.
— Escapar?
— Sim! Eu faria uma corda com os vestidos e cobertores e fugiria daqui...
— Acaso tem vestidos suficientes?
Lucrezia riu por um momento.
— Se não for suficiente, usarei as cortinas — respondeu, sorrindo. — Perotto, preciso de um favor.
— À suas ordens.
— Você tem acesso ao meu pai. Quero que pergunte a ele por que não me responde. Peça para me ouvir, por favor.
— Farei como me pediu. Há algo mais em que possa servi-la.
— Nada mais... Obrigada.
Perotto curvou-se. Deixou a entrada do quarto, seguindo pelo corredor com uma mensagem.
Saiu para a praça, depressa. Ajeitou o gibão com delicadeza, contornando a Basilica di San Pietro. Atravessou a piazza longa, entre os fiéis que deixavam a basílica depois da missa matutina e seguiam pela Porta Santo Spiriru. Cumprimentou os que o cumprimentaram e saudou o cardeal Carafa, que deixava o Vaticano para o seu palácio. Tudo seguia normalmente. Subindo as escadas para o palácio, protegidas pelos Apóstolos Pedro e Paulo, bocejava.
No final dos degraus, diante dos portões, foi interrompido pelos guardas do palácio para uma inspeção rotineira. Depois de conferirem que não trazia nada consigo, exceto alguns escudos e um ducado de ouro, deixaram-no passar. Subiu o primeiro lance de escadas e dobrou o corredor estreito, que alargava-se à medida que avançava. Caminhava sobre o piso ladrilhado, iluminado pela luz enfraquecida das janelas do andar térreo. Parou em alguns momentos, conversando com os funcionários dos cardeais.
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Historical FictionEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
