XVII

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Naquela fria manhã de inverno, Lucrezia despertou ao nascer do sol. Ainda sonolenta, espreguiçou-se debaixo dos cobertores. Não queria deixar o leito aconchegante. Porém, julgou ser necessário um pouco de sacrifício. Poderia voltar à cama mais tarde, pensou, consolando-se.

A jovem ajoelhou-se ao lado da cama, unindo suas mãos. Fitava o Cristo crucificado acima da cabeceira. Rezou as orações costumeiras dos dias comuns e a devoção mariana, com a leitura da Anunciação. Terminou a consagração do seu dia com a composição de São Bernardo de Claraval, Salve Regina. Quando terminou suas preces, voltou para a cama e descansou um pouco mais.

Algum tempo depois, levantou-se. Caminhou até as janelas e as abriu. O dia estava nublado. Caso contrário, a luz ofuscaria seus olhos. Observava os jardins à distância. O perfume de incenso dos cedros e azinheiras era carregado pelo vento até a menina. Suspirando, debruçou-se à janela. Desejava caminhar mais uma vez por aqueles jardins. Não compreendia a razão de ser enclausurada em seu próprio palácio, sem permissão para receber visitas, senão de sua família e de Ascanio.

A porta bateu. Não respondeu.

Depois de algum tempo, tornou a bater.

— Entre — falou a jovem ao desconhecido.

A porta se abriu devagar. Era um jovem, o camareiro do Papa. Ainda à porta, observava sua senhora debruçada sobre a janela. Não ousou se aproximar. Aguardou por alguma reação. A espera foi em vão.

— Está bem, minha senhora?

— Perotto, por que estou aqui? — Indagou, ainda debruçada.

— Lembro-me que o Reverendíssimo Cardeal Sforza disse que era por ordem de Sua Santidade.

— E por que faria isso? Por que não respondeu as minhas cartas? — Perguntou, virando-se.

— Não sei. Deve ter algum motivo. Não lhe causaria tanta dor sem uma razão que justificasse... Ficar aqui lhe causa dor, não?

— Não aguento ficar presa por mais tempo! Eu... Se Adriana não tivesse aqui, eu tentaria escapar.

— Escapar?

— Sim! Eu faria uma corda com os vestidos e cobertores e fugiria daqui...

— Acaso tem vestidos suficientes?

Lucrezia riu por um momento.

— Se não for suficiente, usarei as cortinas — respondeu, sorrindo. — Perotto, preciso de um favor.

— À suas ordens.

— Você tem acesso ao meu pai. Quero que pergunte a ele por que não me responde. Peça para me ouvir, por favor.

— Farei como me pediu. Há algo mais em que possa servi-la.

— Nada mais... Obrigada.

Perotto curvou-se. Deixou a entrada do quarto, seguindo pelo corredor com uma mensagem.

Saiu para a praça, depressa. Ajeitou o gibão com delicadeza, contornando a Basilica di San Pietro. Atravessou a piazza longa, entre os fiéis que deixavam a basílica depois da missa matutina e seguiam pela Porta Santo Spiriru. Cumprimentou os que o cumprimentaram e saudou o cardeal Carafa, que deixava o Vaticano para o seu palácio. Tudo seguia normalmente. Subindo as escadas para o palácio, protegidas pelos Apóstolos Pedro e Paulo, bocejava.

No final dos degraus, diante dos portões, foi interrompido pelos guardas do palácio para uma inspeção rotineira. Depois de conferirem que não trazia nada consigo, exceto alguns escudos e um ducado de ouro, deixaram-no passar. Subiu o primeiro lance de escadas e dobrou o corredor estreito, que alargava-se à medida que avançava. Caminhava sobre o piso ladrilhado, iluminado pela luz enfraquecida das janelas do andar térreo. Parou em alguns momentos, conversando com os funcionários dos cardeais.

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora