26 de agosto de 1492, Roma
Os portões da Basilica di San Giovanni in Laterano foram abertos. Os cardeais, arcebispos e bispos adentraram a basílica com suas mitras e capas sustentadas por cônegos. Os cidadãos entraram, com grande reverência, após eles. Rodrigo Borgia já estava no altar-mor, sentado, aguardando que todos viessem à missa. Quase não havia espaço nas naves da basílica entre as colunatas e das figuras dos doze Apóstolos flanqueando a nave principal diante da abside papal. A abside de Cristo rodeado por seus querubins, contemplado pela Virgem e pelos Apóstolos e Profetas. Abaixo da visão magnífica em mosaico vívido, encontrava-se a cátedra branca, cravejada com pedras preciosas. Uma cruz dourada com um sol em cada ponto era adornada por três esferas esverdeadas em forma triangular. Abaixo, três retângulos: um da tonalidade das esferas, flanqueado por dois vermelhos. O trono era adornado por uma forma mosaica em formato de sóis e fundo colorido. Sobre ele, o Papa, sorrindo ao povo que adentrava a grande basílica.
— Abri os meus olhos, ó Senhor!
— E a minha boca anunciará o Vosso louvor! — Responderam todos.
As vozes, tanto de Rodrigo como o do povo, ecoavam como um trovão. Assim eram as igrejas: a voz ecoa sem grande dificuldade, de forma que todos possam ouvi-la, mesmo que pareça um sussurro aos mais distantes. Então, um grande coral começou a louvar o hino Nunc Sancte nobis, Spiritus.
Enquanto cantavam o hino, Rodrigo Borgia sentou-se novamente. Os cardeais, que estavam sobre as imponentes cátedras de madeira maciça, abaixo da abside do Papa, em fila, vieram a ele, beijando sua mão. Primeiro, veio o cardeal Della Rovere, que o fez com certo desprezo; ao sair da presença do Borgia, tomou o assento novamente e limpou a boca em sua mozzetta.
Depois, vieram os demais cardeais, que não demonstraram tamanho desrespeito. Os cardeais beijaram a sua mão e voltaram aos seus assentos. Os arcebispos e os bispos presentes, também em fila, beijaram seus pés. Aquela era a primeira reverência diante do Papa. O rito teve prosseguimento com a recitação em antífona do Salmos 66.
Dada a bênção final, o Papa foi vestido de uma mitra gloriosa, e lhe foi entregue em cada uma das mãos um flabelo vermelho exuberante. Em seguida, ele se dirigiu a um trono com hastes douradas. Era chamado de sedia gestatoria, onde os Papas eram carregados em sua coroação para a Basilica di San Pietro. A procissão do Papa era acompanhada por uma grande multidão.
As principais vias foram enfeitadas com arcos monumentais. Como pedra angular, o grande touro escarlate exibia-se diante da procissão. As ruas, antes sujas, foram limpas sob o olhar atento e protocolar de Burchard. Peças de tapeçaria exibiam as chaves de São Pedro cruzadas. Os prédios públicos hastearam as bandeiras. O povo reunia-se ao redor da sedia gestatoria. Os cardeais, com suas mitras e capas escarlate, caminhavam à frente do povo e do Papa em direção ao Vaticano.
A procissão parou diante do Coliseu. Havia um oficial de cerimônias à espera. O oficial aproximou-se da sedia gestatoria com uma estopa de linho e uma tocha.
— Sancte Pater, sic transit gloria mundi!
O oficial queimou a estopa de linho fino sobre sua cabeça. Quando toda a estopa transformou-se em cinzas, afastou-se, recebendo do Papa sua bênção.
Roma estava mais quente que o habitual. O verão castigava o corpo de Rodrigo Borgia sobre a sedia. Pendia de um lado para o outro, suando. Seu rosto avermelhava-se à medida que se aproximavam da Basilica di Santa Maria Rotonda. Por milagre, não desmaiou.
Na Piazza della Rotonda, o oficial que o aguardava fez sobre sua cabeça o mesmo gesto, recitando as mesmas palavras.
— Sancte Pater, sic transit gloria mundi!
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Historical FictionEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
