Palazzo Apostolico, Vaticano
O Papa não dormiu naquela noite. Manteve-se em prece, pedindo constante intercessão de todos os santos. A sua reza findou-se apenas quando a sua voz acabou. Quando sentiu a rouquidão, atribuiu-a a Satã.
— Miserere nobis Iesu Christi, miserere familiae meae, miserere nobis Deus Pater Omnipotens... — Murmurou, rouco.
Suas palavras não saíam mais. Tentou concluir a prece de uma vigília, mas não pôde fazê-lo. Percebendo que não conseguiria, quis levantar-se para beber água. Todavia, não conseguia sentir as suas pernas. Não conseguia movê-las. Não conseguia gritar por socorro. Penosamente, forçou as articulações a se dobrarem. Depois de levantar o primeiro joelho do chão, parecia que um peso havia se esvaecido de seu corpo velho, porém, sentiu muita dor naquele ponto. Corajosamente, resistiu às dores e ergueu o outro joelho. Arremessou-se na cama, pois a cãibra o atingira em ambas as pernas. A dor se espalhou a diversos locais do corpo. Ali, agonizando, massageando as panturrilhas, coxas e joelhos, ficou o Pontífice.
Depois do pavoroso — e também doloroso — momento, ergueu-se, dolorido. Seguiu para o refeitório. Acreditava já ter passado muito da refeição matinal dos cardeais. Estava procurando por Ascanio Sforza.
Pelo caminho, encontrou-se com Antonio da Viterbo, um dos artistas que encomendou a conclusão dos apartamentos. Antonio curvou-se diante do Papa. Percebendo as dores e a dificuldade de Alexandre VI, ofereceu a sua ajuda.
— Santidade, deseja algo de minha parte?
— A menos que tenha visto o cardeal Sforza, não preciso de sua ajuda no momento, messere pittore. — Disse, com rouquidão.
— Eu o vi na companhia discutindo com os Della Rovere quando atravessei o pátio pela Ioggia.
— Leve-me ao cardeal.
Antonio conduziu Sua Santidade às escadarias, acompanhando o ritmo do velho dolorido. Não ousou perguntar sobre o que havia acontecido. Achou que seria inconveniente.
Ao chegar no pátio, diante da porta, os cardeais conversavam. Não perceberam a presença do Papa logo atrás, separados por menos de três metros. Antes que Antonio pudesse dizer qualquer palavra, o impediu. Queria saber o que falavam; a sua voz poderia denunciar sua presença.
Ascanio Sforza apoiava-se em uma coluna, olhando para a chuva descendo sobre o cotile. Della Rovere estava ao seu lado, observando um dos empregados atravessar uma das entradas da passagem coberta. Aguardava a resposta do cardeal Sforza à sua pergunta. Depois de esperar um tempo razoável, Della Rovere voltou a falar.
— Basso é irritado e impaciente; já eu, o oposto. Posso esperar o dia todo esperando sua resposta, Sforza.
— O que diabos faz em Roma? Pensei que estivesse com medo.
— Medo? Não devo temer ninguém senão Deus, Sforza.
— Sabe que Roma é perigosa e, mesmo assim, sai da sua fortaleza para me importunar.
— Deixei Ostia apenas para vê-lo, Eminência.
— São belas palavras para alguém que odeia o próprio Deus.
— Eu não odeio Deus, Sforza. Se odiasse, não gastaria tantos ducados com um deus que nunca amei, reformando seus templos. Não gastaria rios de ouro em uma igreja que pertence ao deus a quem renego.
— Se odeia os seus escolhidos, odeia Aquele que os escolheu.
— Fala do Borgia... Digo... Fala de Sua Santidade, o Papa Alexandre VI, não é? Eu não o odeio. Pelo contrário. Eu o aprecio de forma especial. É um homem inteligente e muito competente. Todavia, desaprovo o seu desacato à moralidade, a sua libertinagem e a sua usura.
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Ficção HistóricaEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
