10 de janeiro de 1493, Nápoles
O cardeal Della Rovere chegou à Nápoles naquela manhã de janeiro. Ele havia conseguido a tão esperada audiência com o único rei da Itália. Della Rovere estava em sua carruagem negra de carvalho, com grandes rodas, eixos e chassi de prata, além de suspensão metálica rara e caríssima, sentado sobre o assento aveludado escarlate. Era puxada por dois cavalos brancos ligados a um varão de prata. Os detalhes da cabine incluíam ramos de ouro e a cobertura de couro carmesim.
Apreciava a leitura de uma cópia de "Le Roman de la Rose", envolvida em uma capa de couro — uma fortuna paga —, enquanto o cocheiro guiava os cavalos pela estrada principal. As pessoas olhavam para sua condução com curiosidade. Os prédios altos e vivos despertaram sua atenção. Nenhum prédio parecia abandonado por Deus e pelos homens. Não havia pedintes nas praças nem em frente às catedrais da cidade. As pessoas sorriam e as crianças brincavam. Não havia perigo aparente — diferente do que era Roma sob Alexandre VI, eleito há pouco mais de cinco meses como Papa.
Pouco depois, chegou ao litoral diante da fortaleza Castel Nuovo. Suas cinco torres circulares, feitas de piperno — uma rocha vulcânica dos Campi Flegrei — tinham cor acinzentada e eram muito resistentes. Três torres: San Giorgio, Mezzo e Guardia davam para a cidade. E outras duas: Dell'Oro e Beverello apontavam para o mar. Entre San Giorgio e Mezzo erguia-se o portão de bronze com grandes arcos, encimado por colunas coríntias. Acima do portão, no primeiro nível, via-se uma quadriga triunfal conduzindo Alfonso de Aragão. No centro, aparecia o escudo de Aragão e a seguinte inscrição em friso:
ALFONSVS REX HISPANVS SICVLVS ITALICVS PIVS CLEMENS INVICTVS
Acima deste, havia a inscrição:
ALFONSVS REGVM PRINCEPS HANC CONDIDIT ARCEM
Della Rovere atravessou aqueles grandes portões de bronze, adentrando o extenso pátio, que dava para as capelas e salões. Foi conduzido por alguns homens para o Grande Salão, onde o Rei de Nápoles o aguardava. Passou por inúmeras salas, subindo escadarias e caminhando pelos grandes corredores daquela fortaleza, dita impenetrável.
Quando passou pela entrada de uma daquelas salas, viu um homem velho, alto, de cabelos brancos, rosto expressivo e sem pelos, com porte forte e postura imponente, descansando as mãos nos braços do trono de ouro e almofadado de vermelho. Ao lado do velho, havia um homem de meia-idade. Tinha cabelos castanhos escuros e sorria muito ao ver o cardeal. Era um sorriso malicioso, como se algo perverso estivesse prestes a acontecer. Parecia querer gargalhar, mas segurava-se para não fazê-lo. Aparentava estar inquieto. Aquele, com certeza, era Alfonso, filho de Ferrante.
— Vossa Alteza. — Disse o cardeal, curvando-se.
Com a autorização de Ferrante, ele se aproximou, temeroso. O sorriso de Alfonso não tranquilizou nem um pouco. Conhecia bem sua violência desenfreada. Um sorriso zombeteiro de sua parte não poderia ser algo bom.
— Recebi a sua carta, cardeal. Vejo que falhou miseravelmente em derrotar o sobrinho do Alonso Borgia, o tal Rodrigo. Lhe dei o meu apoio, cardeal, e você me decepcionou.
— Se Vossa Majestade deixar com que...
— Não há desculpas! — Exclamou o homem ao lado de Ferrante. — Você falhou! Agora, que está em apuros, vem pedir asilo, como um cão se humilha para receber abrigo? — Indagou, rindo. — Nem mesmo deveríamos ouvi-lo. Por mim, eu lhe teria dado o castigo de São João: o mergulharia em óleo quente; mas, depois, lhe daria de comer aos prisioneiros, que estão cansados da lavagem dos porcos! — Disse ele, rindo-se.
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Ficção HistóricaEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
