XII

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03 de fevereiro, Roma, Città del Vaticano

Já era quase meio-dia quando o cardeal Ardicino della Porta descansava em seu leito. Ao seu lado, encontrava-se um médico, que possuía uma maleta repleta de frascos e soluções. O homem media o pulso do clérigo, tentando determinar como estava o coração. O sangue estava bombeando muito rapidamente para alguém que acabara de acordar. O cardeal estava febril e dormente. Parecia não ter forças nem para falar. Sua pele era pálida. Tossia ocasionalmente. De fato, estava doente.

— Parece-me anemia, Reverendíssimo. Vossa Eminência tem tomado cuidado com a sua situação? Tem se alimentado bem?

— Bem... Eu... Sim, eu tenho tentado.

— Me parece sofrer de alguma ressaca. Bebeu muito na noite passada?

— Um pouco.

— Tem evitado o estresse, cardeal?

— O meu trabalho é muito estressante. Eu tentei pedir uma licença há um ano, mas os cardeais recusaram o meu pedido.

— Talvez deva se retirar de Roma, por um tempo. Darei meu diagnóstico ao Santo Padre e ele certamente considerará a sua retirada.

— Eu não posso. Preciso permanecer aqui.

— Por qual razão?

— É um pouco complicado de explicar. Ainda tenho riscos de sofrer de algum mal maior?

— Se não acalmar os seus ânimos e aliviar o estresse, pode sofrer um mal súbito muito em breve. Todos os extremos fazem mal. Tente procurar um equilíbrio.

— O que o senhor sugere?

— Alimente-se melhor e regularmente, evite o excesso de açúcares e sais, encontre uma atividade que lhe traga calma e paz, medite, durma cedo e acorde um pouco mais tarde. Vai sentir-se muito melhor.

— E quanto à anemia?

— Vou preparar uma solução para que a tome por duas semanas. Se persistir, terei que dobrar a quantidade de insumos. Por ora, deixarei um frasco de chá de ervas medicinais. Deve tomá-lo ao amanhecer e ao entardecer. Sugiro que se retire para o seu palácio, na Via Sant'Angelo.

— Grazie, signore.

O médico apanhou uma xícara e despejou o líquido esverdeado. O cardeal se esforçou para se sentar na cama. A xícara foi servida e entregue nas mãos trêmulas do cardeal, que bebeu o líquido amargo. O médico segurou-se para não rir do rosto do cardeal.

Quando recebeu o pagamento, foi embora. O cardeal deitou-se novamente na cama, com a cabeça envolvida em panos úmidos, tendo um balde d'água ao lado do leito. Decidiu voltar ao seu palácio no Borgo ao pôr do sol e descansar longe da atmosfera caótica do Vaticano naqueles meses de desaparecimento de Della Rovere.

04 de fevereiro

​Naquela manhã, o cardeal Della Rovere chegou a Roma. Estava com semblante alegre e confiante. Deixou para trás a cidade de Óstia antes do amanhecer. Chegou ao palácio disfarçado como um simples monge dominicano para não alarmar o Papa, vestindo um hábito escuro e caminhando encapuzado. A sua passagem foi permitida quando apresentou uma carta assinada pelo cardeal. Aquele disfarce era necessário para que não fosse reconhecido. Subiu as escadarias e foi em direção ao quarto do clérigo de vermelho.

— Della Porta, está aí? — Indagou, batendo à porta, animado. — Gostaria de ter vindo ainda ontem, mas preferi esperar a alvorada.

Não obtendo respostas, tornou a bater.

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora