17 de janeiro de 1493, Roma
O cardeal Della Rovere chegava de Óstia à cidade. Caminhara por vários cerca de 16 milhas até a Porta Portuense. A cada passo que dava, um turbilhão tomava sua mente. Ódio. Raiva. Medo. Anseio. Vingança. Angústia. Uma centelha de inveja, talvez. O caminho era perigoso, porém a sua determinação o cegara. Queria saber o que havia mudado com aquele Papa. Os guardas, ao vê-lo sozinho, o escoltaram até o Palazzo Apostolico.
Em dado momento, enquanto atravessavam Trastevere, que se recuperava das enchentes de domingo, pôs-se a refletir. Caminhava sobre as estradas lamacentas e levemente escorregadias, em meio aos judeus e romanos menos afortunados, pelas vias tortuosas que formavam aquele labirinto de ruas irregulares. Aquela centelha de inveja o incomodava profundamente. Olhava para o povo à sua volta, caminhando sobre ruas limpas e prédios pintados. O que poderia ter mudado? Aquilo o incomodava e, por um momento, questionou a razão de se opor a Alexandre...
"Por Deus ou pela inveja?", indagou-se. "O que move essa alma a ir contra o sucessor de Pedro? O que me motiva: moral e fé ou a mãe de todos os pecados junto à ambição imunda que carrego no peito? Nunca odiei aquele homem como hoje o odeio. Mas o que fez a mim? Ocupou o Trono de São Pedro..."
Refletiu durante todo o percurso depois de atravessar as águas turvas do Tibre, que não exalava o mesmo fedor de corpos mortos de outrora. Sorrisos e alegria. Era o que conseguia contemplar ao adentrar Regola e passar em frente à Piazza Navona. Na época, como todos bem sabiam, Roma estava em estado de calamidade: assassinato, violência impune, suborno e extensa corrupção dentro dos tribunais e da Cúria Romana, além da situação deprimente das finanças da Igreja, já endividada. Questionava-se sobre o que levou seus irmãos cardeais a votarem naquele homem. Teria sido apenas pelo ouro? Seria por aqueles títulos que receberam logo depois da coroação? Ou algo mais profundo os teria motivado? Suas habilidades administrativas teriam sido determinantes diante das crises internas? O amor que o povo nutria por Rodrigo teria os guiado? Seria realmente pela escolha do Espírito Santo — facilitada com os presentes de Rodrigo?
Sua resposta era constante. "Pelo ouro, pelos privilégios e pelos títulos", afirmava para si mesmo, suprimindo todas as outras questões que o atormentavam.
A caminhada até Roma era penitência por desejar a morte do Papa com fervor. Mal sentia as pernas. Estavam fracas. Não descansava há duas horas. Pelo caminho, desviava o pensamento da dor para encontrar uma desculpa para desaparecer dos olhos do Santo Padre. A desculpa mais convincente que encontrou foi a de que estava visitando seus parentes em Gênova. Achava que iria se comover, era pai e tinha uma grande família, a qual deixava perto — perto demais, segundo alguns.
Os guardas o deixaram diante da Porta Sancto Spirito. Atravessou a Piazza di San Pietro rapidamente. Aquela praça enorme e retangular, com uma fonte e um poço, diante da basílica com aspecto grotesco, ainda mais grotesco do que nos dias de Inocêncio, com mais rachaduras. Ao subir as escadas, descansou encostado na estátua de São Paulo. Parou não por cansaço, mas por frustração, um sentimento forte e horrível de ter falhado.
— Perdi Nápoles... Restou-me apenas Virginio Orsini para regozijar em suas graças. — Constatou, suando.
Continuou para dentro do Palácio Apostólico, limpando o rosto lasso e suado.
Ao caminhar pelos corredores, via os cardeais de sua oposição observar. Parecia que as suas esperanças haviam sido renovadas. Carafa, porém, temeu o cardeal e se esquivou de seus olhos entrando numa sala. Embora achasse estranho o comportamento de Carafa, não ousou segui-lo. Talvez tivesse afazeres muito importantes, os quais precisavam ser resolvidos com extrema agilidade e velocidade — ou temia que o cardeal descobrisse a sua afiliação ao Papa. Pelo caminho, encontrou Cesare Borgia, que esperava o Papa ao lado de uma porta.
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Fiksi SejarahEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
