Lucrezia levantou-se à hora primeira para consagrar o dia. Antes de prosseguir com a sua rotina de aulas de etiqueta e bordar, foi ao antigo escritório do cardeal Zeno, que havia deixado Roma há algum tempo. Por alguma razão, ainda havia alguns documentos dele no palácio. A jovem entretinha-se com os fragmentos de cartas, esboços e ensaios do cardeal em seu tempo ocioso.
Antes que pudesse sentar-se sobre a cátedra do escritório, Adriana adentrou a sala. Estava genuinamente surpresa por vê-la tão cedo naquele lugar.
— Senhora. — Respondeu, curvando-se gentilmente.
— Aprendeu rápido, Lucrezia. — Sorriu Adriana.
— Obrigada.
— Bem, eu a estava procurando para lhe perguntar a respeito do matrimônio...
— Tão cedo?
— Sua Santidade me pediu para perguntar a respeito.
— E o que meu pai deseja saber?
— A senhorita disse que tinha quantos anos, querida?
— Treze? É a resposta adequada.
— Sim, senhorita. A sua tenra idade, porém, pode ser um empecilho para o matrimônio.
— O que quer dizer? Basta irmos ao altar e tudo está resolvido, imagino.
— Não, minha querida. Precisa consumar o casamento para que seja válido. Caso contrário, torna-se um casamento em branco.
— Consumar? O que quer dizer com isso?
— A consumação acontece na noite de núpcias, minha querida, no primeiro contato íntimo, na união carnal e espiritual do casal.
— Me deitar com um completo estranho? — Indignou-se, abrindo a porta.
— Lucrezia, por favor, escute. — Suplicou Adriana.
Lucrezia não quis ouvir. "Como um pai pode vender sua própria filha a um estranho e forçá-la a se deitar com ele?", indagava-se internamente. Correu para fora do escritório, atravessou o corredor, desceu as escadarias e saiu do palácio. Adriana veio atrás, desesperada, tentando contê-la antes que chegasse ao Papa.
Adentrou a Piazza di San Pietro, atraindo atenção indesejada de um grupo de visitantes, dentre eles jovens e velhos, florentinos e lombardos, franceses e napolitanos. Tomou o caminho direito, no qual havia uma estátua colossal de São Pedro. Do outro lado, deparou-se com a estátua de São Paulo, segurando uma espada fixada no chão. Após voltar à realidade, foi para dentro de um edifício.
Ao pôr o primeiro pé no tapete vermelho, um guarda a parou.
— O que faz aqui, senhorita?
— Eu procuro o meu pai. Por acaso não o viu?
— O seu pai? — Perguntou, rindo. — E qual dos cardeais é o seu pai?
— O Santo Padre.
Calou-se. Um pouco temeroso por querer queixar-se do episódio com o pai, curvou-se. O guarda a conduziu para os aposentos do Papa Alexandre VI.
Pelos corredores, viu cardeais, abreviadores e protonotários indo e vindo. Passou por jovens e velhos serviçais e funcionários da Cúria, que carregavam seus documentos e seguiam para o seu dia atarefado. Pelas janelas, pôde ver o belo jardim nos fundos do Vaticano. Nele havia uma mulher sentada sobre uma cadeira, segurando uma cabra, sendo pintada por um dos pintores que estava na cidade há poucos dias. Assim como fez a estátua, Lucrezia a admirou, distante.
Novamente, foi interrompida, dessa vez, por tropeçar no guarda-papal, que vestia amarelo e carregava uma alabarda. Embora não tenha dito nada, o homem parecia desejar revidar o pisão em seu calcanhar, mas não queria problemas com o Papa. Exercitando, então, a virtude da paciência, não fez nada contra a jovem, que se desculpou imediatamente.
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Fiction HistoriqueEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
