O cardeal de Óstia havia visitado um pequeno convento perto da cidade. Ele foi bem recebido pelas freiras clarissas, sob a Ordem dos Frades Menores, protegida por Giuliano della Rovere. No castelo, o cardeal escrevia isolado uma carta ao rei Ferrante de Nápoles. Em seus aposentos, assim escreveu o cardeal:

"O Cardeal de Óstia e Santa Sabina, Arcebispo de Avinhão, à Vossa Majestade, o Rei de Nápoles,

"Que Jesus Cristo Nosso Senhor o recompense pelos cuidados que a mim tem dado, ó meu rei! Que Deus, em sua infinita misericórdia e amor, lhe traga paz e acrescente muitos anos à vossa vida e muita saúde à sua casa. Entoado seja o vosso nome por toda a Itália, magnânimo! Louvado seja por muitas eras o vosso legado!

"Com pesar, lhe trago más notícias de minha própria letra: o sobrinho do já falecido Papa Calisto (a quem sei que resguarda grande rancor), Rodrigo, foi eleito Papa, atendendo, como já deve ter chegado aos vossos ouvidos, pelo nome de Alexandre VI. Todo o Sagrado Colégio de Cardeais fora comprado por ouro, títulos e honrarias, as quais hoje gozam alegremente. A ajuda do cardeal de Milão e do cardeal Orsini e Colonna o fortaleceu naqueles dias. Nem se lhes oferecesse todo o ouro de Nápoles, o resultado poderia ter sido outro.

"Todavia, não foram apenas o ouro, os títulos e os privilégios que motivaram suas escolhas. Observei nos últimos dias as principais ou talvez as verdadeiras motivações de alguns: a política. Quiseram eles providenciar um Papa que mais se assemelhasse a um príncipe a um sacerdote. Esperam que reconquiste a influência perdida da Igreja em Roma e no norte da Itália, onde o Imperador Maximiliano detém grande poder. Libertar a Itália das garras dos austríacos e franceses, assim alguns poucos homens podem supor, zombando e rindo. O mais provável é que centralize o poder da Igreja e não passe disso (se for prudente).

"O Colégio de Cardeais encontra-se dividido entre apoiar o Papa Alexandre VI e obter presentes e favores, ou lutar contra aquele que eles mesmos alimentaram até se tornar tão poderoso que, agora, são incapazes de fazer alguma coisa. Uns fugiram e outros se distanciaram de Roma com algum pretexto. Os cardeais de Veneza se preparam para deixar a cidade, enquanto os franceses nela permanecem, trazendo novas propostas de nomeações para cardeais. Piccolomini vai e volta de Siena, sempre que as tensões parecem subir. O cardeal Savelli deixou a cidade e retornou para Castel Gandolfo, aparecendo apenas quando solicitado. Os demais permanecem disputando entre si.

"Aquele Papa Borgia, Alexandre VI, é poderoso e inteligente, sem dúvidas. Mas é imoral. Tão imoral quanto a vossa injusta excomunhão, aplicada pelo seu antecessor, o Papa Inocêncio VIII. Reparei no erro de Inocêncio assim que o vi. Tentei recobrá-lo à razão e tirar aquela excomunhão tola e em vão foram meus esforços, pois já padecia em seu leito, nas graças de Rodrigo Borgia. Se o conclave fosse para um governador, eu mesmo votaria naquele cardeal, sem remorso ou culpa, pois, como político, suas virtudes e habilidade são notáveis. Todavia, Vossa Majestade deve concordar que a política corrompeu o corpo dirigente da Santa Igreja. Mas Cristo prevalece sobre todo erro e desvirtude de seus ministros e enviará alguém para restabelecer a ordem. E, por assim pensar, sou perseguido e preciso me esconder em Óstia.

"Suplico a Vossa Majestade, o Rei de Nápoles, o Juiz da Itália, o firmamento da península, o Protetor, Ferrante, o Rei Fernando I, que não aceite nada de Roma! Se consegui penetrar o âmago de vosso piedoso coração, Majestade, expondo toda a verdade, explicando a situação de Roma e da Santa Igreja na Cidade Eterna, peço que tenha compaixão de mim."

Enquanto as letras fixavam-se no papel, o cardeal resolveu deitar-se. Não havia conseguido dormir na noite passada, preocupado. Tirou os sapatos, exibindo suas meias vermelhas; vestia vestes brancas, que usava debaixo da batina. Seus dedos estavam entrelaçados sobre o peito, onde repousavam. Seus pés, porém, estavam inquietos e seu coração palpitava forte. Seus olhos miravam a cobertura da cama. Algo se passava em sua mente. "Do que um Borgia é capaz?", indagou-se. Por um momento, pôs-se a refletir. Como ser impulsionado pela política, não pela moral, que limites há em Rodrigo Borgia? Que limites haveria em seus filhos senão os de sua própria moral? Tentava compreender. Se razões políticas fossem maiores que as razões morais, não haveria limites, exceto a ocasião. Fingir religiosidade para se manter como Papa... Não... Rodrigo não era assim... Mas poderia se tornar. Ansiou pelo Pontificado por décadas. O poder mudaria aquele homem libertino para a santidade ou apenas tornaria sua libertinagem discreta? Discrição e Rodrigo são incompatíveis.

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora