Vaticano, 22 de novembro
Naquela terça-feira, o Pontífice havia aberto as portas do Palazzo Apostolico aos romanos. Vieram ao Pontífice, beijando-lhe os pés no Anel do Pescador. Trouxeram as questões que os afligiam, buscando a justiça do Papa. Questões da insalubridade do Tibre, viúvas com pensões suspensas, vandalismo e as ameaças entre as famílias Conti e Caetani. O dia foi atarefado e penoso... Muitos casos para resolver e nem todos resolvidos. O conflito entre famílias não cessariam com um decreto, formulou. Para Alexandre VI, precisava tomar medidas drásticas.
Seus pensamentos, no crepúsculo, foram interrompidos por Pedro Calderón, camareiro de Sua Santidade e de Lucrezia Borgia. Reverentemente, curvou-se. Trazia consigo uma carta. Sem demora, entregou-a às mãos do Pontífice. Agradecido, sorriu ao jovem que, imediatamente, deixou o seu escritório. Rompeu o selo de cera vermelha, delicadamente.
†
Iesus
Como serva humilde de Cristo, beijo os vossos pés e o anel, Santíssimo Padre. Venho, humildemente, declarar minha profunda alegria em recebê-lo como sucessor de São Pedro. Eu, uma pobre viúva, esposa do antigo senhor de Bassanello, insignificante aos vossos olhos. Gostaria de ter escrito antes, porém os contratempos vieram contra minha casa e tive de adiar enviar-lhe tal carta.
Desejo vê-lo muito em breve, Santo Vigário, para me prostrar diante de seus pés e beijá-los com toda reverência. Desejo ir a Roma muito breve, no dia da Encarnação de Nosso Senhor e me humilhar. Anseio por ver novamente os sobrinhos do Santíssimo Padre, os três rapazes e a jovem moça, a quem a beleza chegou aos nossos ouvidos. Há muito tempo não os vejo e peço sua bênção.
Agradeço à Vossa Santidade pelo tempo dedicado à minha humilde carta. Se o ofendi de alguma forma, peço-lhe minhas sinceras desculpas e juro reparar por qualquer dano que tenha cometido como serva. E, como forma de demonstrar minhas boas intenções e prestar minha primeira homenagem, suplico que aceite vir à Carbognano para que possa oferecer-lhe um banquete digno de um Pontífice, sucessor de São Pedro.
Adriana de' Mila, Carbognano, 17 de novembro de 1492 do ano de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo
Ao ler aquelas palavras cuidadosamente escritas, redondas e sem rasuras, sem pontas soltas ou rabiscos, reconheceu bem a motivação daquelas palavras. Conhecia bem aquele tom, embora inaudível. As palavras de cortesia e elogios excessivos, beirando quase a veneração, bem como o aspecto clemente só poderiam significar uma única coisa: bajulação. Era uma arte que conhecia muito bem. Quantas vezes não escreveu cartas aos seus inimigos, fazendo elogios e desculpando-se insistentemente? Quantas vezes não ofereceu banquetes suntuosos, presentes caros e rendeu louvores a outros homens apenas para conquistar seus corações e pedir favores e concessões? Aquela mulher — como todo Borgia, aparentemente — também conhecia essa arte. Mas o que poderia ser? A família Colonna está ameaçando tomar Carbognano? Os Orsini e seu conhecido orgulho? Seria uma crise de que não estava sabendo? Acaso um anúncio? Uma boa nova? Uma notícia ruim? Uma troca? O que poderia ser? Certamente, não era um pedido desinteressado. Sem dúvida, tinha algo a ver com Carbognano.
Adriana de' Mila, antes Adriana Orsini, casada com Lodovico Orsini Migliorati, era sua prima em segundo grau. Se não fosse pelo fato de Rodrigo e seu pai frequentarem suas respectivas casas, seriam distantes. Os laços sanguíneos dos Borgia eram muito estreitos. Ainda o cardeal conferiu favores a ela, incluindo o seu casamento. Quanto mais fora o de seu filho, Orsino Orsini. Celebrou o seu casamento com Giulia Farnese. Diziam que era vesgo outros, caolho. Rodrigo não se lembrava se era um ou outro. Giulia, porém, era uma jovem de beleza extraordinária, cobiçada por todos os homens das províncias por onde as ínfulas papais se estendem, chegando até os pés de Florença. Recordava-se bem daqueles olhos cintilantes como as águas do Lago di Bracciano; parecia que ainda podia sentir as mechas de seus cabelos, os quais amava tanto por sua cor dourada, e o seu perfume levemente adocicado. Seus gracejos e caprichos nunca esqueceu.
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Os Borgias - Ego Sum Papa
Historical FictionEm 1492, ascendeu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, assumindo o nome de Alexandre VI. Com seu poder, elevou sua família em riqueza e prestígio. Não obstante, ganhou muitos inimigos, entre eles o Cardeal da Ligúria, Giuliano della Rovere. Como um...
