XI

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27 de janeiro de 1493

Era uma fria manhã de inverno quando o Papa convocou o Colégio de Cardeais a comparecer à Sala dos Papas para uma declaração. Logo após a refeição matinal, dirigiram-se à sala. Adentraram-na sem grandes cerimônias. Sobre suas cabeças, pergaminhos de ouro se fixavam, gravados com os nomes dos Pontífices em fundo azul-celeste. As paredes exibiam tom claro e solene de gesso. Estavam preparadas para receberem os cuidados de Pinturicchio e o seu ateliê. Estavam impressionados com a velocidade das reformas, mas logo começaram a se preocupar com os custos das reformas. Com a Igreja endividada, como o Papa pagaria por tudo? Por mais pertinente que fosse essa pergunta, outra tomou conta de suas mentes: por qual razão estavam ali? Cada cardeal assentou-se em sua respectiva cadeira. A sala não cheirava a incenso. Não seria um consistório, parecia uma reunião particular. Perguntavam-se o porquê da demora. Uns supunham que estaria com alguma prostituta em seus aposentos, nas "salas secretas". Outros, porém, acreditavam que logo estaria entre eles. Os franceses discutiam assuntos de Estado, como era o costume de D'Aubusson e D'Espinay, cardeais-coroa da França.

De repente, Alexandre VI abriu a grande porta de madeira branca atrás da cátedra. Vestia seu hábito branco com o solidéu sobre a cabeça. Aproximava-se de sua cátedra fitando o Colégio. Johann Burchard, Mestre de Cerimônias, como de costume, o apresentou.

Verbum incarnatum. Sua Santidade, o Papa Alexandre VI.

O Colégio levantou-se, em reverência ao Sumo Pontífice. Quando se assentou, os cardeais sentaram-se, aguardando as preciosas palavras do Papa. Sem demora ou adornos, pronunciou-se.

— A fim de responder à questão levantada por Suas Eminências nos últimos 18 anos quanto à paternidade dos filhos de Vannozza dei Cattanei, nós nos apresentamos como pai. Porém, cremos não termos sido claros quanto ao que queríamos dizer com o termo. Nos identificando como pai dos filhos de Vannozza dei Cattanei, não nos referimos à paternidade sanguínea e parental, mas afetiva. Nos pronunciamos assim a fim de que Vannozza, a mulher a quem difamam em toda Roma, não fosse atacada como mãe solteira. Depois de procurarmos nos registros, em Subiaco, por meio de Annius da Viterbo, recolhemos as certidões de nascimento para comprovar que adotamos os ditos filhos de Vannozza dei Cattanei: Giovanni, Cesare e Lucrezia.

O Mestre de Cerimônias apanhou um dos documentos que trazia. Os cardeais estavam ansiosos. A verdade parecia que se revelaria, enfim.

— Giovanni Giannozzo dei Cattanei, filho de Domenico Giannozzo e Vannozza dei Cattanei; natural de Subiaco, nascido no dia 14 de junho do ano de 1475 de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Após ler o documento, passou-o para Giuliano della Rovere, que estava mais próximo a ele. O cardeal analisou cada palavra, cada curva negra no papel, massageado pelos dedos do cardeal, envolvidos por sua luva escarlate. "Filho de Domenico Giannozzo...", balbuciou. Seria verdadeiro aquele documento? Tinha suas dúvidas. Um documento muito conveniente num momento tão propício. Uma artimanha utilizada para evitar ser associado como pai dos filhos de Vannozza. Uma forma de contestar qualquer acusação de que teria filhos bastardos. Chegando a essa conclusão depois de cinco minutos lendo e relendo aquelas letras, entregou a certidão a Ardicino della Porta, que compartilhava da sua desconfiança.

Em geral, os cardeais não se surpreenderam. Não era segredo para ninguém que Alexandre VI tinha uma longa prole ilegítima. Era inegável a qualquer um em toda parte por onde seu nome havia se propagado que Rodrigo Borgia, agora Alexandre VI, tinha filhos ilegítimos com suas amantes. Foi repreendido várias vezes por causa das suas visitas à Vannozza no passado recente.

— Cesare Giannozzo dei Cattanei, filho de Domenico Giannozzo e de Vannozza dei Cattanei; natural de Subiaco, nascido no dia 13 de setembro do ano de 1476 de Nosso Senhor Jesus Cristo. — Recitou Burchard mais uma vez.

A certidão foi entregue a Della Rovere, que sorriu ao lê-la.

— Lucrezia Croce dei Cattanei, filha de Giorgio di Croce e Vannozza dei Cattanei; natural de Subiaco, nascida no dia 18 de abril do ano de 1480 de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O documento foi novamente passado.

— Gioffre Croce dei Cattanei, filho de Giorgio di Croce e Vannozza dei Cattanei; natural de Roma, nascido no dia 12 de dezembro do ano de 1481 de Nosso Senhor.

Os documentos, depois de passarem pelas mãos do Colégio, foram recolhidos.

— Há alguma objeção, Eminências? — Indagou o Sumo Pontífice.

— Sim, Santidade. — Disse Giuliano della Rovere, levantando-se. — Eu estou confuso. Devemos reconhecê-los como filhos do Sumo Pontífice antes de seu Pontificado ou como filhos dos maridos de Vannozza dei Cattanei? Devemos chamá-los por Borgia ou por Cattanei? Giannozzo para os mais velhos e Croce para os mais novos, ou Borgia para todos?

A objeção inflamada tocou onde tinha que tocar. Alexandre, todavia, já imaginava algo vindo do cardeal da Ligúria.

— Ambos.

— Ambos? Como podemos reconhecer que os quatro são filhos de dois homens simultaneamente? Como pode três sangues correrem pelas mesmas veias? Ou são Borgia ou não são.

— Somos pai porque os criamos; Giannozzo e Croce são pais por coabitar com Vannozza e gerarem frutos. Lhes emprestamos o nome Borgia para confirmar nosso afeto como pai. As novas certidões estão com o mestre Burchard, caso queiram conferir. Nelas, adotaram o nome Borgia para proteger comentários a Carlo Canale e sua esposa.

O cardeal não respondeu. Della Rovere sentou-se, suspirando. Desistiu de levar sua artimanha à frente. Os cardeais ao seu redor não haviam se animado com seu levante. Era inútil persistir. Sem apoio de parte do Colégio de Cardeais, viu que era mais prudente apartar-se de criar tensões desnecessárias. Não havia muito mais o que discutir. Giovanni, Cesare, Lucrezia e Gioffre eram filhos de Alexandre VI, de um modo ou de outro.

Verbum Incarnatum. — Pronunciou o Mestre de Cerimônias.

O consistório havia se encerrado. Os cardeais deixaram a sala rapidamente. Não trocaram palavras na frente do Papa, que permaneceu sentado sobre sua cátedra.

Mesmo atingindo o seu objetivo, algo o preocupava. Afundou-se em seus próprios pensamentos.

— Enfim, conseguimos... — Suspirou. — Nós conseguimos garantir a liberdade de nossos filhos... Deus queira que nosso amado Cesare nos suceda na Cátedra de São Pedro... — Balbuciou, sorrindo.

As certidões era a única maneira de protegê-los e proteger Vannozza, acreditava. Chamá-los de filhos, agora, não era mais um peso. Poderia amá-los abertamente... Mas seus pensamentos afetuosos encontraram, logo, uma barreira.

— Della Rovere me preocupa... Até onde pode ir um homem orgulhoso e que inveja o seu próximo dessa forma? Já rastejou-se a Nápoles para pedir socorro. Quanto tempo levará para se rastejar para a França? — Interrompeu-se, arrepiando sua espinha. — Deus... Meu Senhor, não permita que a mente de Della Rovere se corrompa pela sua dureza de coração e pela sua arrogância. Preencha-o com as virtudes da paciência e da caridade. Infunda sobre ele o amor e o espírito de unidade. Não permita que Vosso corpo, oh Senhor, se divida mais uma vez em um cisma...

Rezar era a sua única saída, procurando uma direção para impedir qualquer atitude que pudesse beirar um cisma. Tinha fé de que Deus lhe daria uma direção para dissuadir o cardeal e todo o Colégio. 

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora