XIV

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Sobre Giovanni Battista Gaglioffi, Bispo de Áquila, pouco se comentava naquelas semanas. Havia poucas informações acerca do que ocorrera. Burchard, Mestre de Cerimônias, limitou-se a dizer o mesmo que fora proclamado diante de toda a cidade: o bispo morreu enquanto dormia no Palazzo de San Pietro in Vincoli, no dia 24 de fevereiro. Na cidade, diziam ter sido vítima de latrocínio, pois ouro e alguns artefatos valiosos foram roubados. Não havia dúvida entre o povo a respeito disso. A morte de dois prelados sob circunstâncias estranhas foi ofuscada pelas reformas. Para tal, contou com doações de algumas famílias, sobretudo a família Santacroce, que desejava não desagradar o Papa, visto suas desavenças com Giovanni Borgia, filho bastardo de Sua Santidade.

Naquela manhã de inverno, Giovanni e Lucrezia caminhavam com uma escolta de 30 romanos pela cidade. Quando atravessavam a Ponte Sant'Angelo, viram dois corpos suspensos sobre as torres de vigia construídas pelo pai. Não estavam ali ontem quando passaram. A jovem deteve-se por um momento. Fitava os corpos dos condenados. Um frio estranho apossou-se de seu peito. Fez o sinal da cruz diante dos enforcados.

— O que tem? — Indagou Giovanni.

— O que fizeram para merecer isso?

— Um era falsificador de documentos; outro, assassino.

— Que documentos?

— Documentos de indulgências a homens condenados, sem autorização.

— Um documento custou-lhe a vida?

— Documentos não são pedaços de papéis, Lucrezia. Vamos. Precisamos continuar.

Depois de atravessarem, Lucrezia tornou a falar.

— Não queria ter visto isso...

— Bem, você recusou a carruagem. Tudo poderia ser evitado.

Mais adiante, na rua dos banqueiros, avistaram uma procissão. Os sbirri conduziam um homem pelas ruas até um estabelecimento. O seu torso desnudo era marcado por açoites. Giovanni, rapidamente, alternou a rota, seguindo pela via da Tor di Nona, uma antiga torre da cidade que servia agora como prisão. O caminho que seguiram em relação àquele que pretendiam foi a melhor escolha. Não havia movimento violento, embora o povo comentasse a respeito das execuções e punições frequentes. A jovem pôde ouvir alguns trechos delas. Horrorizou-se. Enforcamentos. Açoites. As escadas de Santa Maria in Aracoeli. Humilhações públicas acompanhadas de risos e lançamento de frutas e até pedras. A beleza de Roma encoberta pela violência da Lei.

Giovanni percebeu a sua aflição, embora, na verdade, quisesse apenas ignorá-la. Não o pôde fazer. Ao adentrar o rione Colonna, fitou a irmã, pensando em como confortá-la.

— Está bem, Lucrezia?

— Como posso estar bem com a cidade desmoronando?

— Isso é ordem. A lei força os injustos a agirem como justos para proteger os justos. Ter compaixão com aqueles que ferem a Justiça é trair os inocentes. Acredite, a cidade está muito melhor do que antes.

— Mas...

— A justiça veio aos que foram injustos. Os comerciantes clandestinos pagaram com o confisco; os ladrões foram exilados ou marcados; os adúlteros, açoitados; os nobres abusadores, devidamente castigados com multas e confisco; os assassinos, enforcados e expostos. Os injustos colhem os frutos de seus atos. Alexandre administra essa justiça.

— Está dizendo que o nosso pai é responsável por essa carnificina? — Indignou-se.

— Os injustos são responsáveis pelo que chama de carnificina. Se seguissem a Lei, nada disso seria necessário. Nosso pai fiscaliza os tribunais para que os juízes executem a Lei com Justiça.

Os Borgias - Ego Sum PapaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora