Nineteen

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O sino por fim toca, mais alto e estridente que o do orfanato era. Os alunos saem das salas desesperados, o professor sem pressa alguma pega suas folhas por cima da mesa e espera a porta ficar livre de adolescentes para ele sair, eu o acompanho, ouvindo um "até amanhã" educado vindo dele, e sorrio me despedindo.

O corredor está lotado, muitos esbarram em mim sem olhar para onde vão, e não param para se desculpar. Apenas continuo andando até meu armário para guardar alguns livros que não seriam necessários levar para casa.

Ainda não me acostumei com a ideia de ter uma casa. Apesar de muito confortável, me sinto um verdadeiro intruso na intimidade de Anne e Des. Fui dormir de manhã, pela noite estava terminando de organizar meu quarto com Anne enquanto Des ainda não voltava do seu horário extra no trabalho. Limpamos toda a poeira e trocamos tudo de lugar, inclusive achamos um rato debaixo da cama. Posso dizer que foi um momento de muitos gritos e risadas, eu fui o responsável pelos gritos.

Saímos para jantar em um restaurante japonês, e mesmo eu tendo ficado alguns minutos tentando não chorar pelo nome do garçom ser Louis e ele não ser de forma alguma japonês, o jantar foi incrível. Descobri que restaurantes são como cantinas escolares mais caras, apesar das comidas serem milhões de vezes mais gostosas - e caras - que as que serviam diariamente no orfanato.

Chegamos novamente em casa por volta da meia noite, o casal foi dormir e eu tentei fazer isso.

A cama era absurdamente desconfortável.

Ou será que a falta de alguém à deixava assim?

Fiquei me revirando na cama a noite inteira e quando finalmente consegui cair num sono o despertador ao lado da cama soou furando meus ouvidos. Me assustei por dessa vez o despertador estar do lado da minha cama, e não na cama ao lado.

Nem mesmo tem uma cama ao lado, é apenas uma cama de casal sendo ocupada por um solteiro.

E hoje eu vim à escola com olheiras imensas, e extremamente cansado. Nem mesmo sei como me mantive acordado nas primeiras aulas. Talvez a ansiedade e a animação de um local novo, pessoas novas e as mesmas matérias chatas.

Durante o almoço, tive que procurar uma mesa vazia, uma vez que toda mesa que eu me aproximava estava lotada, ou pelo menos as pessoas faziam parecer que estavam, colocando pratos e bolsas no lugar do espaço vazio.

Isso é normal. Elas não me conhecem e não querem um estranho atrapalhando suas conversas íntimas.

Depois de guardar meus livros ao fim da aula e sentar no meio fio esperando pela carona, finalmente vejo o carro de Anne parando em frente à escola, e corro até onde ela parou para entrar nele, me deparando com Des no volante.

- Des? - Pergunto espantado, ele diminui o volume da música no rádio do carro e dá a partida.

- Como foi o primeiro dia, campeão? - Ele pergunta sem tirar os olhos da rua, ignorando totalmente minha confusão.

- É bem diferente. - Ele sorri. - As pessoas são um pouco mau educadas.

Seu sorriso cresce, paramos em um sinal e ele se vira para falar comigo.

- Quando eu tinha sua idade, achava o ensino médio uma droga. - Ergui as sobrancelhas por sua declaração. Os pais não deviam incentivar os filhos à gostar da escola? - As pessoas eram um saco, eu não suportava aquele lugar, mas aí tudo melhorou.

- Como? - Pergunto curioso, ele muda a marcha e volta a olhar para frente ao que o sinal abre.

- Fui para a faculdade. - Ele ri, me deixando pensativo.

Orphanage [L.S]Onde histórias criam vida. Descubra agora