Chapter Nine

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A chuva insistente caía no rosto pálido como as lágrimas que a pessoa insistia em não derramar. O céu acima estava coberto de nuvens grossas e escuras, engolindo qualquer resquício do sol. Sua pele era atingida pela umidade no ar, enquanto as gotas límpidas escorriam em seus fios bicolores, grudando na pele branca e fria.

Cada passo dos sapatos brancos formavam pequenas poças de lama que se alastravam em seu caminho. Ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco branco, fino demais para o frio daquele dia, mas ainda assim, era o suficiente para aquela pessoa. A cada passo na terra cinza, o som de trovões abafava os ecos solitários de seus próprios pensamentos.

À sua frente, a lápide de mármore branco se destacava entre as demais ao redor, quase como uma estrela cadente perdida no céu escuro. O nome gravado em letras longas e cursivas parecia gritar, silenciosamente, todas as memórias que o sujeito tentava esquecer. Mas nada lhe tirava aquele peso do coração.

Parou diante da lápide, a chuva escorrendo pelo mármore polido e pingando no chão encharcado. Ele se agachou devagar, os joelhos dobrando contra o solo, sem se importar se suas roupas ficariam sujas de terra, na verdade, mais nada lhe importava. Passou a ponta dos dedos carinhosamente pela pedra fria, traçando as letras. A cada sílaba, seu coração dava um aperto.

Todoroki abaixou a cabeça, não aguentava mais aquilo tudo, era dor demais para suportar sozinho. Enfim, deixou que as lágrimas caíssem de seus olhos enquanto olhava para o túmulo da pessoa que mais amava no mundo e que infelizmente foi tirada de si.

Ele havia amado e cuidado de um humano por anos. Foi em sua missão de anjo da guarda que os dois se uniram. Uma missão que deveria ter sido tão comum para si, virou o momento mais feliz de sua vida. Encantou-se à primeira vista pelas madeixas azuis como o céu escuro e a pele pálida. Aquele garoto iria ser a sua perdição.

Desde que se conheceram, criaram um apego que nenhum dos dois sabia dizer o porquê de ter tido, apenas que era bom ficarem juntos. Todoroki definia seu amado como a perfeição em pessoa, era gentil, atencioso, o príncipe encantado dos sonhos. Compartilhavam a paixão pela música, passavam horas dentro da casa do azulado, especificamente no quarto, lendo e escutando suas músicas favoritas, elas os entrelaçavam, assim como seus corações.

Porém, em uma noite como qualquer outra, esse sonho lindo se desfez. Quando Shoto seguia pelo caminho para visitá-lo e terem um momento juntos, dormirem de conchinha e se amarem das melhores formas, seu mundo se desmoronou por inteiro. Algo parecia fora do normal.

Ele quase não percebeu quando avistou as primeiras manchas de sangue na calçada. Pequenas, quase discretas, mas ali. Shoto parou, sentindo um aperto estranho no peito, como se algo frio tivesse acabado de agarrar sua garganta.

Mais à frente, as manchas se tornaram uma trilha escura e densa, levando a uma viela entre dois prédios. O coração dele disparou, as pernas se movendo sozinhas, e Shoto seguiu os rastros, ignorando o medo que começava a tomar conta dele. O cheiro metálico já pairava no ar quando ele finalmente olhou para baixo e o viu.

Lá estava seu amado, o corpo jogado na viela, como se tivesse sido abandonado sem o mínimo cuidado. A roupa estava encharcada de sangue, que se misturava à terra e formava uma mancha escura embaixo dele. Havia uma ferida funda no pé do estômago, a faca tinha feito um estrago. Shoto se ajoelhou ao lado dele, os olhos arregalados, a mente em branco. Tentou falar, mas as palavras não saíram. Era como se o chão tivesse sumido sob ele, tudo ao redor girando enquanto tentava entender o que estava vendo.

Os olhos de Tenya, antes cheios de vida, agora estavam abertos e vazios, apagados de qualquer sinal de vida. Shoto sentiu o desespero subir, o peito apertando, o coração martelando tão forte que quase podia ouvi-lo. Ele tentou tocar o rosto pálido, mas a pele estava fria demais, sem resposta. Sua garganta se fechou, um nó de angústia e desespero, enquanto ele estava de joelhos ao lado do morto, incapaz de fazer qualquer coisa além de olhar para o corpo do amor de sua vida.

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