Noite de natal pt1

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Ergui o queixo e respirei fundo, forçando meus músculos faciais a sustentarem uma máscara de indiferença plácida. Fingi que aquela partida iminente não havia aberto uma fenda sangrenta no meu peito. Talvez, se eu mentisse para mim mesma com convicção suficiente, o autopeito se tornaria realidade. Era para ser o nosso primeiro Natal em "família" - a primeira celebração com a consciência daquela nova vida -, mas, no fundo das minhas estruturas, eu já havia previsto que o destino não nos daria essa trégua. Eu havia me recusado terminantemente a pisar no território hostil da mãe dele; portanto, a equação era óbvia: ele cederia à gravidade daquela mulher e passaria a ceia lá. Ainda assim, a constatação física da ausência dele ardia como soda cáustica.

​Lua, cuja percepção para os meus desvios emocionais era cirúrgica, captou o peso do meu silêncio enquanto eu secava mecanicamente uma travessa de porcelana. Ela deu um passo à frente, tirando o pano de prato das minhas mãos.

​- Lara, olha para mim. Você sabe perfeitamente que não precisa carregar essa armadura o tempo todo perto de mim, não sabe?

​Soltei o ar em um suspiro denso, os ombros desabando enquanto exibia um meio sorriso cansado, desprovido de qualquer energia.

​- Eu sei, Lua. Eu sei. Mas, neste exato segundo, a minha única e absoluta prioridade é blindar o meu psicológico e garantir a estabilidade do meu filho. Eu não posso me dar ao luxo de desabar. E, além do mais, não quero sabotar a noite dos meninos que escolheram abrir mão de tudo para ficar aqui conosco. Eles não merecem um clima fúnebre. Eu deixo o Taehyung ir porque sei que a mente dele está uma arena romana de conflitos internos... Mas chega de falar de mim. Me conta: que olhar de soslaio, demorado e denso foi aquele que o Kim Namjoon te lançou na sala?

​Lua desviou os olhos instantaneamente, focando o interesse nos talheres de prata sobre a bancada, mas o sutil rubor que subiu por suas bochechas e o sorrisinho contido no canto dos lábios entregaram o jogo por completo.

​- Lara... sendo muito honesta... ele vai se arrepender amargamente de não estar aproveitando cada milímetro deste momento ao seu lado. Mas, se você escolheu recolher as armas e deixar para lá, eu vou respeitar a sua decisão. Agora, sobre o Namjoon... - ela soltou um suspiro brando, os olhos brilhando de uma forma inédita. - Bom, nós estamos conversando bastante. Desde os episódios em Zurique, ele tem sido de uma sensibilidade incrível e de uma gentileza que eu achei que não existia mais em homens dessa indústria.

​- Hm... Eu conheço perfeitamente a anatomia de como essas histórias começam, dona Lua - provoquei, arqueando as sobrancelhas com um tom malicioso para dissipar a névoa pesada do ambiente.

​- Para de ser boba e foca aqui - ela rebateu, rindo baixo ao me dar um empurrãozinho leve com o ombro. - Agora me ajuda a estruturar essa mesa de jantar e finalizar os acompanhamentos antes que os meninos comecem a saquear a cozinha alegando que estão morrendo de fome.

​Mergulhamos na dinâmica da organização. Enquanto Lua distribuía os ramos de pinheiro e as velas aromáticas pela extensão da mesa de madeira escura - além de organizar um canto estratégico com jogos de tabuleiro no tapete -, eu dava os retoques finais nos pratos principais. O sistema de som embutido da casa inundava o espaço com uma playlist de jazz suave, um pano de fundo perfeito para o eco das vozes animadas e as risadas roucas dos rapazes que começavam a subir para os quartos do andar superior para se arrumarem. Quando finalmente apaguei as bocas do fogão, olhei ao redor. A cozinha exalava um aroma reconfortante de especiarias e acolhimento; era exatamente a atmosfera de refúgio que eu almejava.

​- Namjoon? - chamei em um tom moderado assim que avistei a silhueta do líder descendo os primeiros degraus da escada espiral, vestindo um suéter de tricô cinza.

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