Desconfiança 🍃

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O som estridente e simultâneo dos nossos celulares quebrando o silêncio do quarto foi como um balde de água fria. A melodia personalizada da minha playlist e o toque padrão do aparelho do Taehyung ecoaram na mesinha de cabeceira da suíte, cortando a eletricidade que nos unia. Ambos temos vidas profissionais intensas e responsabilidades que não podiam esperar. Num reflexo coreografado, nos afastamos com relutância, os corpos ainda quentes e colados pelo suor, e esticamos os braços para atender.

​Levei o aparelho ao ouvido, tentando normalizar minha respiração falha:

​- Oi? - limpei a garganta. - O que houve?

​A voz do outro lado veio baixa, arrastada, carregada de um sofrimento que fez meu estômago congelar. Era o Yoongi.

​- Eu me machuquei, Lara... - ele murmurou, a respiração pesada. - Vem aqui pro meu hotel, naquele onde conversamos pela primeira vez, por favor. Eu estou com muita dor.

​O instinto profissional da área da saúde falou mais alto que qualquer cansaço. Minha postura mudou imediatamente.

​- Sei exatamente onde fica, estou a dez minutos daí. Aguenta firme - ordenei, já me levantando da cama. - Me manda por mensagem o número da suíte e libera o meu acesso na portaria. De preferência, pede para um dos meninos te acompanhar até eu chegar.

​Enquanto eu dava as instruções, Taehyung já estava com o celular colado ao ouvido do outro lado da cama, a expressão séria e as sobrancelhas franzidas em sinal de alerta.

​- Fala, mano. O que aconteceu? - o Tae perguntou, a voz grave denunciando a preocupação.

​- Mano, o Yoongi se machucou feio - a voz do Namjoon ecoava do alto-falante, tensa e apressada. - Não sei onde você está agora, mas, por favor, vem pra cá correndo. Você sabe como ele fica quando sente dor, você é o único que consegue acalmar ele.

​- Me dá dez minutos que eu chego aí - Taehyung respondeu prontamente, desligando a chamada.

​O silêncio voltou a reinar na suíte por um breve segundo enquanto jogávamos os celulares de volta na cama. Nossos olhares se cruzaram, ambos processando a urgência da situação. Eu precisava correr para atender um paciente em crise, e ele precisava correr para acudir o melhor amigo.

​- Eu preciso sair - comentei, focando nos olhos dele, o coração apertado pelo pedido de casamento que havia ficado suspenso no ar. - Mas... eu queria te contar uma coisa antes.

​Taehyung se aproximou rapidamente, os olhos brilhando com uma intensidade dolorosa. Ele segurou meu rosto por um milésimo de segundo, o polegar acariciando minha pele.

​- Lara, eu te amo - ele disse, com uma sinceridade que quase me fez chorar. - Porém, eu preciso mesmo ir agora. É uma emergência.

​Antes que eu pudesse processar o "eu te amo" ou explicar que estávamos indo para o exato mesmo lugar, o Tae se afastou. Vi ele recolhendo as roupas do chão, vestindo-se com uma agilidade impressionante. Ele correu até mim, deixou um beijo quente e estalado na minha testa e cruzou a porta da suíte, fechando-a num baque surdo antes que qualquer palavra saísse da minha boca.

​Respirei fundo, tentando manter a calma. Me troquei o mais rápido que pude, joguei meu material de atendimento e minhas coisas na bolsa e desci pelo elevador. No saguão, quando passei os olhos pela tela do celular cogitando abrir o aplicativo para pedir um táxi ou um Uber, um homem de terno se aproximou a passos largos. Era o José, o motorista particular do Yoongi.

​- Senhorita Lara - ele cumprimentou com um aceno discreto, apontando para o carro preto de vidros totalmente escuros parado na guia. - O Senhor Min está lhe esperando. Ele me pediu expressamente para vir buscá-la pessoalmente, para que eu possa colocá-la dentro do hotel sem que você seja notada pela imprensa ou pelos fãs.

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