Fotografia

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PASSADO

O ano de 2016 começou como um deserto na minha vida. Eu tinha acabado de emergir dos escombros de um relacionamento profundamente tóxico, onde a descoberta de uma traição foi apenas o ponto final de um longo processo de anulação. Eu estava irreconhecível; a mulher vibrante de antes tinha dado lugar a uma sombra que se afastou dos amigos, cortou laços com a família e se isolou em um quarto escuro, ruminando a própria dor.

Foi quando recebi o golpe final, não por um inimigo, mas por alguém que eu considerava próximo. Escutei do Bruno, com um desprezo que ainda ecoa na minha memória:

> "Tenha um pouco de amor-próprio, Lara. Está dando dó te ver desse jeito."

Aquelas palavras foram como ácido em uma ferida aberta. Naquele instante, algo dentro de mim se quebrou, mas não de uma forma que me destruiu; foi como se uma barreira protetora surgisse. Decidi ali que ninguém, jamais, voltaria a me ver daquela maneira. Tornei-me uma mulher fria, analítica, vestindo uma armadura de indiferença que não permitia que absolutamente ninguém se aproximasse do meu núcleo.

A dor que aquelas palavras causaram foi o motor da minha reconstrução. Se a ideia era "ter amor-próprio", eu ia levar isso ao extremo. Comecei uma rotina obsessiva de autocuidado: matriculei-me na academia, fiz cursos de especialização em maquiagem para aprender a realçar a mim mesma e, buscando uma conexão que eu tinha perdido há muito tempo, voltei para as minhas aulas de dança.

Durante meses, mergulhei de cabeça. Meus pés aprendiam a marcação do sertanejo, meu quadril soltava ao ritmo do zouk e minha postura se reeducava com a disciplina rígida do balé. Juntei-me a um grupo de dança e a rotina se tornou minha nova lei: todos os finais de semana, nós marcávamos encontros, frequentávamos escolas de dança e bailes madrugada adentro.

Para mim, a dança nunca foi apenas um hobby; era a minha única forma de oxigênio. Desde pequena, era ali que eu me sentia verdadeiramente livre. Naquele salão, sob as luzes quentes e o som que vibrava no chão de madeira, não havia julgamento, não havia o Bruno, não havia a Lara frágil. Era apenas eu, a música e o meu parceiro de dança em uma conexão que transcendia a fala. Dentro de mim, cada batida da música era como um pulso de vida, cada passo técnico era uma coreografia de libertação. Eu me sentia leve, como se minhas asas estivessem finalmente se abrindo, e eu pudesse voar acima de tudo o que me machucava.

Porém, a sombra do meu passado voltou. Quando comecei a namorar o Gustavo, as coisas desandaram rápido. Ele não suportava a ideia de eu dançar em dupla - o toque, a proximidade, a linguagem corporal que ele, em sua insegurança, nunca seria capaz de compreender. As brigas se tornaram diárias, um cerco constante à minha liberdade. Por fim, exausta de lutar por espaço, eu parei de dançar.

Hoje, ao lembrar daquela Lara, sinto uma pontada de tristeza. Eu entreguei a parte mais viva de mim em troca de uma falsa paz. A dança fazia parte da minha estrutura, da minha alma, e por um tempo, eu deixei que apagassem o meu brilho. Mas, olhando para onde estou agora, percebo que essa trajetória foi necessária para que eu voltasse a ser a mulher inabalável que sou hoje.

PRESENTE


Caminho até o banheiro com a mente ainda um pouco cheia pelas conversas e ciúmes dos meninos do BTS, mas decido que aquela noite é minha. Entro no chuveiro e deixo a água bem quente cair sobre as minhas costas, lavando todas as tensões do dia. O vapor perfumado rapidamente toma conta do espaço, criando uma atmosfera relaxante. Saio da banheira, me enxugo com a toalha felpuda e espalho meu hidratante corporal favorito, sentindo a pele macia e perfumada com notas suaves de baunilha.

Volto para o quarto e abro as portas do closet do hotel, começando a procurar a roupa perfeita para o meu jantar com o Cha Eun Woo. Eu sei o quanto ele é elegante e impecável em suas aparições, então preciso de algo que equilibre sofisticação com um toque de mistério e atitude.

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