Além do Passado

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​A claridade gélida da manhã de Natal mal começava a rasgar a densa camada de nuvens sobre a cidade quando abri os olhos. Meu corpo inteiro protestava, pesado pelo esgotamento físico e pelo bombardeio psicológico das últimas horas. A sala de estar, transformada em um imenso alojamento improvisado, estava imersa em um silêncio quase sagrado, quebrado apenas pela sinfonia de respirações compassadas dos meninos, que dormiam espalhados pelo carpete e pelos sofás.

​Com movimentos milimetricamente calculados para não gerar ruído, afastei a perna pesada de Jungkook, que havia sido jogada sobre o meu corpo durante a madrugada, e me levantei. Caminhei descalça até a cozinha americana, buscando um copo d'água para aplacar a secura na garganta. No entanto, assim que transpuse o arco da entrada, dei de cara com Jimin. Ele estava de costas para mim, apoiando os cotovelos contra o mármore do balcão, mexendo fixamente em uma caneca.

​Antes mesmo que eu pudesse recuar, ele se manifestou, sem virar o rosto:

​- Bom dia, Lara.

​- Bom dia, Jimin - respondi, mantendo o tom de voz linear, desprovido de qualquer calor.

​Ele girou o corpo devagar, escorando-se no balcão. A forma como as suas pupilas me mapearam deixava perfeitamente claro que ele passou a noite em claro, digerindo os fragmentos do que havia testemunhado. Havia uma urgência contida na sua postura, uma necessidade quase física de verbalizar algo. Soltei um suspiro longo, cruzando os braços sobre o peito.

​- Está bem, Jimin... Poupe o seu tempo e o meu. Fala logo de uma vez o que você quer.

​- Eu ouvi, Lara. Ouvi a discussão de vocês ontem à noite lá em cima.

​Soltei uma risada anasalada, puramente irônica, enquanto desviava o olhar para a janela.

​- Não me diga. O prêmio de detetive do ano vai para você.

​- Poxa, Lara, facilita as coisas para a gente... - ele deu um passo à frente, a voz murchando em um tom de quase apelo. - O Tae está no limite dele também.

​- Facilitar? Você está realmente usando essa palavra comigo, Jimin? - O estalo da minha risada sem humor cortou o ambiente, e eu senti a descarga de adrenalina e raiva subir direto do estômago para o meu peito. - Você faz a menor ideia do que significa passar três meses exilada em outro continente, isolada da pessoa que você ama, orando e implorando mentalmente para que ele tome a porra de um rumo na vida? Você consegue conceber o esforço que é fingir que nada dói, engolir o orgulho diariamente porque, no exato dia em que descobri que carregava uma vida no meu útero, eu quase sofri um aborto espontâneo ao entrar no apartamento dele e dar de cara com a noiva arranjada pela mãe dele usando roupas íntimas na cama que deveria ser nossa? Você realmente tem a audácia de querer palestrar sobre facilidade comigo hoje, Jimin?

​O impacto das minhas palavras fez o Park empalidecer sutilmente. Ele abaixou a cabeça, os olhos fixos nas próprias mãos, desprovido de qualquer linha de defesa argumentativa.

​- Foi exatamente o que eu imaginei - continuei, a minha voz caindo para um sussurro blindado pelo gelo. - Você e o restante do grupo nunca pararam para analisar esse lado da narrativa, não é? Eu aceitei o escrutínio, aceitei as regras do Bang PD, fui forte além do meu limite biológico... mas chega um momento exato na vida de uma mulher em que a sobrevivência do filho dela depende da percepção de que ela merece infinitamente mais do que migalhas de coragem.

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