Prioridades

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O descompasso no meu peito diminuiu por um segundo, dando lugar a uma confusão fria e cortante quando a voz do outro lado da linha se revelou. Não era o pronto-socorro.

​- Senhorita Lara... há quanto tempo não nos falamos formalmente.

​Pisquei, reconhecendo a cadência pausada e a sobriedade daquela voz. Era o motorista e homem de total confiança da equipe de gerenciamento logístico do grupo.

​- Senhor Lee... realmente faz muito tempo - respondi, massageando as têmporas, tentando decifrar o motivo daquela ligação na madrugada.

​O silêncio do homem do outro lado da linha se estendeu por um segundo denso, alimentando a apreensão que começava a circular pelo meu sangue.

​- Me pediram explicitamente para buscá-la onde você estiver. Você está pronta para sair?

​- Na verdade, senhor Lee, eu estava prestes a retirar o meu vestido e me trocar para dormir. Aconteceu alguma coisa grave na empresa? Com os meninos?

​- Acho que será infinitamente melhor se você constatar a situação com seus próprios olhos, senhorita. Já estou em trânsito e calculo estar a cinco minutos da residência do Namjoon.

​Meu estômago se revirou em uma pontada de ansiedade pura. Algo estava fora do eixo. Quem, em sã consciência, moveria a estrutura de segurança para me tirar de casa em plena véspera de Natal?

​- Senhor Lee, por favor, hoje é Natal - apelei, a voz mansa, mas firme. - Essa pendência não pode ser postergada até amanhã pela manhã?

​- A pessoa que formalizou o pedido foi categórica ao dizer que precisa ser exatamente hoje.

​Soltei um suspiro longo, os olhos fixos no teto do quarto de Yoongi, travando uma batalha mental entre o bom senso do repouso e o peso da urgência. A curiosidade, misturada a um pressentimento incômodo, venceu a exaustão.

​- Tudo bem. Estarei no hall de entrada em cinco minutos.

​- Por favor, certifique-se de pegar um casaco pesado. Está nevando forte em Seul agora. Até daqui a pouco.

​Fiquei estática à beira da cama por alguns instantes, observando os flocos densos de neve colidirem contra o vidro da janela, iluminados de forma difusa pelas luzes pisca-pisca do jardim. Quem teria arquitetado aquilo? Respirei fundo, ajeitei o tecido do vestido preto que ainda abraçava o meu corpo e desci os degraus, cruzando o arco da sala onde os colchões já começavam a ser organizados.

​- Eu tinha a certeza de que você voltaria vestindo um pijama de flanela, pequena - Yoongi comentou da borda do tapete, arqueando uma sobrancelha ao notar meu semblante tenso e o sobretudo de lã batida pendurado no meu braço.

​- Eu vou precisar fazer uma saída rápida para checar uma informação antes de nos acomodarmos - expliquei, tentando injetar uma leveza artificial na voz. - Mas eu prometo solenemente que, assim que eu retornar, nós acendemos essa lareira e passamos o resto da madrugada aqui.

​- Leve o seu aparato de segurança, Lara. Não saia da nossa vista sem suporte - Namjoon determinou, levantando-se com o semblante imediatamente rígido. - Vou ligar para a contenção da agência.

​- Pode deixar, Nam... eu vou tomar o máximo de cuidado possível. Até porque eu sequer fui informada sobre quem é o mandante por trás do chamado do senhor Lee.

​Jungkook, que estava deitado de bruços com o celular em mãos, ergueu o rosto com o cenho franzido.

​- O senhor Lee estava escalado na planilha de hoje para dar suporte logístico ao Jimin na saída dele para o jantar em família - Jeon comentou, trocando um olhar intrigado com Namjoon.

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