Casa da frente

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Empurrei a folha pesada da porta da casa de apoio e entrei, sentindo um alívio imediato me envolver. Olaf entrou logo atrás, a cauda abanando num ritmo mais calmo, parecendo entender que aquele era o nosso verdadeiro santuário. Tranquei a porta, girei a chave na fechadura e, por um instante, permaneci encostada na madeira, no escuro. Quando finalmente tateei a parede e liguei a luz, um suspiro profundo escapou dos meus lábios. Que saudade absurda eu estava de me sentir exatamente assim: sozinha, em silêncio, sem os flashes de Paris, sem as cobranças da agência e sem os fantasmas da Coreia. Apenas eu e o meu cachorro.

Caminhei até o living integrado, desabando no estofado macio do sofá de linho cru. Olaf não perdeu tempo; pulou do meu lado, deitando a cabeça pesada no meu colo. Peguei um dos brinquedos de corda dele que estavam no cesto e fiquei ali, provocando-o de leve, rindo baixinho enquanto ele tentava morder o objeto com uma preguiça gostosa.

Para tentar desligar o meu cérebro do mundo real, peguei o controle da Apple TV e sintonizei no Viki. Dei play em Oh My Venus. Eu precisava de algo leve, um clichê de comédia romântica coreana que não me lembrasse em nada a minha própria realidade trágica. Assisti a dois episódios seguidos, deixando-me envolver pela narrativa boba, enquanto meus dedos acariciavam a pelagem espessa do Olaf de forma automática.

Quando meus olhos começaram a pesar pelo cansaço físico, decidi subir. Essa casa de apoio funcionava como um imóvel de alto padrão para locações de temporada de curtíssimo período para executivos, mas o segundo andar possuía uma ala totalmente restrita. Nenhum hóspede jamais teve acesso àquela porta de segurança. Subi as escadas, passei a biometria na fechadura eletrônica e entrei na minha suíte master privada.

Fui direto para o closet interno, uma extensão perfeita do meu gosto minimalista. Passei os dedos pelos cabides e escolhi um baby-doll de seda preta com detalhes em renda francesa. Entrei no banheiro de mármore e decidi criar uma atmosfera de descompressão.

- Alexa, tocar Earned It do The Weeknd - comandei em voz baixa.

A batida lenta, sensual e densa da música começou a ecoar pelo ambiente através do sistema de som integrado. Girei o misturador do chuveiro, deixando a água aquecer até atingir a temperatura perfeita. Desliguei a iluminação principal do teto, permitindo que apenas o aro de luz embutido da própria Alexa e os LEDs indiretos do espelho clareassem o banheiro com um tom quente e enigmático.

Tirei o moletom cinza e as outras peças de roupa, deixando-as no cesto. Dei um passo para trás e entrei debaixo do fluxo forte da água quente. Fechei os olhos quando as gotas pesadas começaram a percorrer o meu couro cabeludo, descendo pelo meu pescoço e pelas minhas costas. Senti cada músculo contraído pelo estresse crônico das últimas setenta e duas horas finalmente ceder. O vapor subia, embaçando os vidros do box, criando uma redoma onde o mundo exterior não podia me tocar. Finalmente, eu conseguia relaxar de verdade.

No entanto, o relaxamento cobrou um preço emocional. Ao passar as mãos com sabonete pelo meu próprio corpo, meus dedos roçaram nas laterais da minha cintura e na curvatura das minhas costas. Ali ainda persistiam, visíveis sob a luz fraca, algumas marcas arroxeadas e sutis da nossa última noite juntos em Paris, há apenas dois dias. O toque da pele do Taehyung, a intensidade com que ele me segurava como se o mundo fosse acabar, a memória do calor dele... tudo voltou como uma avalanche.

Senti um nó violento se formar na minha garganta e, antes que eu pudesse lutar contra, as lágrimas começaram a brotar dos meus olhos. Elas se misturaram instantaneamente com a água morna do chuveiro, escorrendo pelo meu rosto. Para piorar o meu estado, a playlist da Alexa mudou automaticamente, e os primeiros acordes de Love Me Like You Do, da Ellie Goulding, começaram a ecoar.

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