O começo 🦋

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O ritmo é intenso, ditado pelo calor da nossa pele. Estou cavalgando por cima, sentindo cada centímetro daquela conexão. Entre os fios de cabelo que caem pelo meu rosto, consigo ouvir seus gemidos baixos, preenchendo o quarto com uma intimidade quase dolorosa de tão gostosa. Sustento o olhar dele - aquele olhar sexy, preenchedor, que parece ler minha alma. Sinto seu membro pulsar forte dentro de mim, ditando o compasso do nosso ápice, quando, de repente, ele puxa meu corpo para mais perto.

Sua boca roça o contorno do meu ouvido. A voz, rouca de desejo, sopra as palavras que fazem meu mundo parar:

- Casa comigo, Lara?

No mesmo instante, um arrepio violento corta minha espinha. Meu corpo inteiro começa a tremer, mas já não é apenas pelo orgasmo iminente que me domina. O choque daquelas palavras me puxa para trás como um redemoinho. Enquanto me entrego ao prazer físico, minha mente é arremessada para longe, cruzando o tempo até o exato ponto onde tudo começou.

Para ser exata, há dois anos. Um dia cinzento de outono, cruzando as ruas de São Paulo com a alma desanimada e o peito esmagado por uma pergunta silenciosa: O que foi que eu fiz de errado para a minha vida chegar a esse ponto?

Passado

Aos 30 anos, hoje me olho no espelho e vejo a Lara Rosa que sempre quis ser: 1,73m de altura, cachos castanhos-escuros bem definidos moldando o rosto, olhos expressivos e aquela covinha tímida que insiste em aparecer no lado esquerdo quando sorrio. Sou formada na área da saúde, mestre e especialista em um nicho novo de mercado que me trouxe reconhecimento. Tenho orgulho de mim. Mas, aos 28, eu era apenas um fantasma dessa mulher. O divórcio ainda era uma sombra, e o Olaf - nosso cachorrinho que hoje divide a rotina entre mim e meu ex-marido - era uma das poucas âncoras de afeto que eu tinha.
Naquele dia, a bolha estourou.

- Lara, o que está acontecendo com você? - a voz de Alice me trouxe de volta à realidade. Estávamos na copa do trabalho. - Você está diferente, amiga. Está sem brilho nos olhos. O que houve?

- Amiga, eu não aguento mais essa situação - desabafei, sentindo os olhos marejarem. A xícara de café tremia na minha mão. - Meu mundo está desmoronando. Eu sou tão nova, só tenho 28 anos, e meu casamento virou um fardo. Não há mais nada que eu possa fazer para consertar.

Alice cruzou os braços, a expressão mudando de preocupação para uma indignação protetora.

- Você já conversou com o Gustavo? Não é possível que ele ache normal você bancar a casa sozinha para sempre! Lara, você está se matando em dois empregos, virando noites na pós-graduação... Você não merece isso. Me desculpa a sinceridade, mas acorda! Você é um puta mulherão e está acabando com a sua vida e com a sua saúde por alguém que não se mexe.

Apenas balancei a cabeça em silêncio. Engoli o choro. Eu sabia, no fundo do meu coração, que cada palavra dela era uma verdade dolorosa.

- Amiga, vou indo... Não quero chegar tarde. Ainda preciso fazer o almoço e levar o Olaf para passear.

- Pensa um pouco no que eu te falei - Alice me puxou para um abraço apertado, sussurrando no meu ouvido: - Eu quero a minha amiga de volta.

Me despedi com um meio sorriso e saí do prédio. O clima na Avenida São João estava clássico para o outono paulistano: o termômetro marcava uns 16 graus, o vento cortava um pouco, mas o sol brilhava alto, aquecendo meu rosto. Caminhando perto da Praça da República, olhei para o céu, entre os prédios cinzentos, e mentalizei com todas as minhas forças.

"Por favor, me dá um sinal", pedi ao universo, gritando silenciosamente para a minha intuição, que há anos eu ignorava. "Se eu devo mudar de vida, me mostra uma borboleta. Seja clara."

Coloquei meus fones de ouvido. A introdução melancólica de The Truth Untold começou a tocar, isolando o barulho do trânsito. Dei mais três passos e, por um instinto inexplicável, olhei para o chão. Bem ali, caminhando calmamente pelo concreto áspero ao lado dos meus pés, estava uma linda borboleta de asas laranjas vibrantes.

Meu coração deu um salto. Paralisei no meio da calçada, enquanto as pessoas passavam correndo por mim. Era a resposta. Rápida, clara e inegável.

Segui para o metrô com um misto de euforia e medo. A sensação de ser ouvida pelo universo era reconfortante, mas a dúvida logo sussurrou: Será que foi só coincidência?

A resposta para a minha dúvida veio minutos depois. Assim que saí da estação e caminhei até a calçada para esperar o Uber, fechei o casaco por causa do vento. Antes mesmo de abrir a porta do carro que havia chegado, algo flutuou perto dos meus olhos. A mesma silhueta. Outra borboleta laranja pousou por um segundo no capô do carro antes de levantar voo. Era o universo dizendo: Não tem coincidência. Está na hora de mudar.

Cheguei em casa por volta das 13 horas. Assim que abri a porta, o silêncio pesado da casa me entregou a realidade. Gustavo estava no sofá. A pia cheia de louça, o fogão frio. Como ele não estava trabalhando, o mínimo que combinávamos era que ele cuidasse da ordem da casa e do almoço. Mas ali estava eu, vivendo mais um dia de uma rotina frustrante que eu nunca planejei para mim.

Olaf veio correndo, rabo abanando, trazendo um sopro de alegria pura. Ajoelhei-me, brinquei com ele por alguns minutos, sentindo seu pelo macio, e depois respirei fundo, indo direto para a cozinha preparar a comida do zero.

O cansaço acumulado das últimas noites de estudo pesava nos meus ombros. Quando terminei, olhei para a sala e vi Gustavo hipnotizado pela tela do celular.

- O almoço está pronto - avisei, tentando manter o tom de voz neutro, mas a faísca da irritação já queimava no meu peito.
Ele nem sequer desviou os olhos da tela.

- Você não vai vir almoçar? - perguntei, cruzando os braços.

- Já estou indo. Só estou terminando de ver um vídeo aqui - respondeu, com a voz desinteressada.

O limite que eu vinha guardando o dia todo simplesmente rompeu.

- Olha, eu estou exausta! - explodi. - Estou trabalhando horrores, me matando de estudar, e você passa o dia inteiro trancado nesse celular! Até quando eu vou ter que me virar em mil para sustentar a nossa vida, enquanto você fica nessa vida boa?

Gustavo finalmente bloqueou a tela do celular, o rosto adotando aquela defensiva cansativa de sempre.

- Calma, Lara. Eu já disse que vou arranjar um emprego. Mas você não me apoia, não deixa eu me reerguer... Desse jeito fica difícil.

- Difícil está para mim! - rebati, sentindo as lágrimas de raiva subirem à garganta. - Difícil é ter que sair na rua e fazer pose de casal feliz, sendo que o nosso casamento está uma merda. Não se esqueça de que temos prazos, temos que sair dessa casa.

Mas você não se mexe! As coisas não caem do céu, Gustavo!

O olhar dele mudou, endurecendo, mas ele escolheu o pior castigo: o silêncio. Ele simplesmente voltou a atenção para a tela do celular, ignorando minha presença.

Engoli a comida sem sentir o gosto, o peito apertado. Assim que terminei, recolhi meu prato e subi as escadas correndo para o quarto. Tranquei a porta, coloquei meus fones de ouvido no volume máximo para abafar o som do mundo e me joguei na cama. Ali, encolhida, deixei o choro prender minha garganta e desabar, sem saber que, exatamente dois anos depois, aquele choro se transformaria no eco de um novo começo.

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