Saindo do transe ✨

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Depois de tentar dormir em vão, rolando de um lado para o outro na cama que parecia pequena demais para tanta frustração, decidi me levantar. Peguei meu celular, conectei os fones e dei o play na minha playlist favorita de K-pop (minha zona de conforto nos dias difíceis). Era hora de clarear a mente e desenhar uma estratégia para reverter todo aquele caos. Eu não aceitaria continuar afundando.

Entrei no banheiro e liguei o chuveiro. Deixei a água o mais quente que meu corpo aguentava, sentindo o vapor embaçar o espelho rapidamente. Fiquei ali parada por alguns minutos, deixando as gotas grossas baterem na minha nuca, como se a água pudesse levar embora o cansaço mental que me esmagava. Com calma, lavei meu cabelo, massageando o couro cabeludo, e me ensaboei. Peguei o esfoliante de pitaya e comecei a passá-lo pelos braços e ombros; o aroma doce e fresco invadiu o banheiro box adentro, trazendo uma leve sensação de renovação.

De repente, as primeiras notas suaves de Slow Dancing, do V (Taehyung), começaram a ecoar. Eu amo essa música. Tem uma vibe tão nostálgica e relaxante que, sem perceber, comecei a cantar baixinho, deixando os ombros relaxarem pela primeira vez no dia.

Saí do banho decidida a encarar a realidade de frente. No quarto, peguei a primeira calça jeans que vi no armário, uma camiseta confortável da Adidas e me troquei. Penteei meus cabelos ainda úmidos, aplicando o creme de pentear com cuidado, mecha por mecha, amassando os fios de baixo para cima para que os cachos castanhos ganhassem forma e volume.

Desci as escadas exalando o perfume doce do esfoliante. Na sala, o Olaf veio correndo ao meu encontro, com aquele olhar puro que sempre me salvava. Sentei-me no tapete e fiquei jogando o brinquedinho dele para lá e para cá, vendo-o correr feliz, enquanto tentava juntar cada gota de coragem que me restava para ter aquela conversa com o Gustavo.

Não precisei tomar a iniciativa. Percebi o vulto de Gustavo vindo na minha direção e, num reflexo quase de autodefesa, recolhi minhas pernas e me arrastei para o canto do sofá, puxando o Olaf para perto de mim. A distância física entre nós já era o reflexo exato da distância da nossa alma.

Ele parou em pé na minha frente, com as mãos nos bolsos e uma expressão que misturava derrota e orgulho ferido.

- Estou pensando em sair de casa - disparou ele, sem rodeios. - Eu não te ajudo em nada. Desde que a gente casou, nossa vida só foi ladeira abaixo. Já não temos mais diálogo, toda semana é uma briga diferente... Você mal me olha nos olhos, Lara. Eu realmente estou querendo ir embora.

Olhei para ele, sentindo um estalo frio no peito. A verdade doeu, mas a exaustão falou mais alto.

- É realmente isso que você quer? - perguntei, sustentando o olhar dele, a voz saindo mais firme e fria do que eu imaginava.

- Porque, Gustavo, sejamos realistas: você não tem onde cair morto hoje. Vai fazer o quê? Voltar a morar na casa da sua mãe?
Eu sei que fui dura. Sei que minhas palavras cortaram como faca. Mas eu estava no meu limite absoluto de carregar o peso do mundo nas costas.

- Se eu não arranjar um emprego logo, eu vou sair sim - ele insistiu, embora o tom dele parecesse mais uma ameaça infantil do que uma decisão madura.

Apenas balancei a cabeça negativamente, voltando meus olhos para o Olaf. Ouvir aquilo dele causava uma sensação estranha - uma mistura de alívio e amargura. Eu sabia que não podia mais passar a mão na cabeça dele, nem agir como sua mãe. Enquanto ele falava em ir embora, um filme passou pela minha mente, me lembrando de que os problemas não tinham começado ali.

Um mês antes do nosso casamento, ele havia se envolvido em uma enrascada financeira imensa. Um erro crasso dele que estourou no meu colo, me deixando com uma dívida colossal de quase 30 mil reais para pagar. Eu havia começado a vida a dois no vermelho, sacrificando minha paz de espírito por um erro que não era meu. E agora, ele agia como a vítima da situação.

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