despedaçado

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Presente

Damon

O bar tá quase vazio.

As luzes amarelas piscam acima da minha cabeça como se estivessem prestes a queimar. Tem um casal discutindo no fundo, e um cara roncando encostado no balcão. Eu tomo outro gole da cerveja quente e encaro meu reflexo distorcido no vidro da garrafa. Olhos fundos. Um estranho.

Sou eu.

Me pergunto quando exatamente deixei de me reconhecer. Talvez tenha sido naquela cela imunda, com cheiro de urina e sangue. Ou talvez tenha sido antes... no tribunal, quando vi os olhos dela se encherem de lágrimas e vi minha vida escorrer pelo ralo com a mesma facilidade com que ela desviou o olhar.

Mas ontem à noite...

Eu fecho os olhos por um instante. A imagem volta.

O quarto dela estava escuro, mas eu enxergava tudo. Ela dormia profundamente, os cabelos espalhados pelo travesseiro como uma moldura bagunçada ao redor do rosto. E porra... aquele rosto.

Ela parecia em paz. Intocada. Como se o mundo não tivesse machucado ela do jeito que machucou a gente.

Minha mão foi até o rosto dela antes que eu pudesse pensar. Os dedos roçaram de leve a pele da bochecha, e por um instante, um maldito instante, tudo dentro de mim se calou. O barulho. O ódio. O gosto metálico da raiva. Tudo.

Eu só consegui respirar.

E por segundos — não minutos, nem horas, segundos — eu quis protegê-la. Eu quis apagar o que ela tinha feito. Eu quis voltar.

Voltar pra antes.

Voltar pra quando ela sorria pra mim como se eu fosse o único homem no mundo que importava. Quando ela dizia que não teria medo de nada enquanto estivesse ao meu lado.

E eu acreditava nela. Acreditava tanto.

Sinto o estômago revirar. Jogo o copo contra o balcão, e o barulho me desperta de novo. O garçom me lança um olhar de reprovação, mas não diz nada. Ninguém diz nada quando olha pra mim. Eles sentem. Sentem que tem algo errado.

E tem mesmo.

Por que eu senti aquilo, porra? Por que, ao invés de querer machucar, eu quis segurá-la? Por que, no meio da madrugada, naquele quarto, com ela dormindo a centímetros de mim, eu senti paz?

Eu não quero paz.

Eu quero vê-la quebrar. Quero ouvir ela implorar. Quero que ela sofra até não sobrar nada daquela garota que mentiu pra mim.

Mas aquela fração de segundo... aquela porra de fração de segundo...

Ela destruiu tudo.

Me destruiu.

Agora eu tô aqui, no meio de um bar, me afogando nesse lixo de bebida, tentando enterrar uma memória que não devia existir. Tentando matar uma parte minha que insiste em sobreviver.

Eu odeio ela.

Eu odeio ela por ter me feito sentir de novo.

E mais do que tudo, eu odeio a mim mesmo... por ainda querer salvá-la.

Ouço o barulho dos saltos antes mesmo de sentir o cheiro doce de perfume barato se misturando ao álcool do ambiente. A garçonete para ao meu lado. Rosto bonito, maquiagem carregada, sorriso treinado demais pra ser sincero.

— Posso te trazer mais alguma coisa, gato? — ela pergunta, a voz arrastada e melosa, enquanto desliza uma garrafa de uísque sobre a mesa, bem na minha frente.

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