ponto fraco

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Will


Foram quatro dias. Quatro longos dias ouvindo a respiração dela filtrada pela porta, passos leves no chão de madeira e, às vezes, o silêncio absoluto — que era o que mais me irritava.
"Não é sua responsabilidade." Foi o que o Michael disse.
"Não olha pra ela." Foi o que o Kai reforçou.
"Não dá brecha." Foi o que o Damon ordenou.

E eu concordei. Eu sempre concordo.
Só que agora, parado diante daquela porta, com a bandeja na mão, percebo que nunca fui tão bom em cumprir regras quanto finjo ser.

Giro a chave devagar, o metal arranhando o miolo da fechadura num som que faz meu estômago apertar. A porta abre só o suficiente para eu enfiar o braço com a bandeja — como fizemos desde o primeiro dia.
Mas hoje...
Hoje eu não consigo simplesmente colocar a comida no chão e voltar para o corredor como se ela fosse um fantasma.

Porque ela não é um fantasma.
Ela está ali dentro.
Viva. Respirando. Com medo. Com fome. Com frio. E ninguém entre nós quer admitir isso.

— Bella? — minha voz sai baixa, quase um sussurro. — Eu... eu trouxe comida.

Nenhuma resposta.
Só o silêncio dela.
E esse silêncio mexe comigo de um jeito que eu não estava preparado.

Eu empurro a porta um pouco mais. O suficiente para entrar metade do meu corpo. Não o bastante pra ela pensar que pode fugir — não que ela tentaria.
Ela está sentada no canto oposto do quarto, as pernas encolhidas, a cabeça baixa. O cabelo emaranhado cai sobre o rosto, e ela segura o casaco velho que deixamos pra ela usar à noite.
Parece menor.
E eu odeio que isso me machuque.

— Ei... — tento de novo, dessa vez com suavidade. — Você... tá comendo? Tá bebendo água?

Ela ergue o rosto devagar, como se o movimento doesse, e meus olhos encontram os dela.
Tem medo.
Tem exaustão.
Mas tem outra coisa também, escondida lá no fundo: a sensação de que ninguém está ouvindo ela.
E talvez ela esteja certa.

— Por que você tá falando comigo hoje? — a voz dela sai rouca, fraca. — Vocês passaram dias sem olhar pra mim.

Isso me fere como se fosse uma acusação direta.
Talvez seja.

— Eu só... queria saber se você tá bem — digo, mesmo sabendo que soa ridículo. Ninguém sequestrado está "bem".

Ela ri. Um riso seco, sem humor algum.

— É sério isso? Vocês me trancam aqui, me tratam como se eu fosse um objeto... e agora você quer saber se eu tô bem?

— Eu sei — respiro fundo. — Eu sei que parece... cruel.
— Parece? — ela interrompe. — É cruel.

Eu sinto o impacto, mas não desvio o olhar.
Eu devo isso a ela.

— Bella... — passo a mão na nuca, nervoso. — Eu sei que você contou que o Leon te ameaçou. Que ele disse que ia colocar a gente na cadeia de novo.
Ela fecha os olhos, como se estivesse cansada de repetir a mesma coisa.
— E você acha que eu menti, né?
Eu engulo seco.

— Eu não sei o que pensar. Mas eu... — minha voz falha — ...eu não consigo só te deixar aqui e fingir que não importa.

Ela desvia o olhar.
Por um instante, acho que ela vai chorar — mas não. Bella engole tudo. Como sempre fez. Como se tivesse vergonha até de fraquejar.

— Você sempre foi o mais... — ela para, respira fundo — ...o mais gentil entre vocês.

Isso dói e conforta ao mesmo tempo.

— E você sempre foi a que mais confiou na gente — respondo, antes de perceber o quanto isso pesa agora. — E olha onde isso te trouxe.

Ela baixa a cabeça de novo.
Eu me aproximo dois passos. Lentos. Quase imperceptíveis.

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