verdade nua e crua

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Bella

Presente

O vento ainda arde no meu rosto quando a moto finalmente desacelera. Eu nem sei por quanto tempo fiquei com os olhos fechados, o corpo rígido, as mãos presas contra o peito como se isso pudesse me proteger de alguma coisa. Quando o motor cala, o silêncio que sobra parece mais ameaçador do que o barulho.

Sinto o chão sob meus pés quando ele — quem quer que seja — me puxa da garupa. Minhas pernas tremem. Não sei se é medo, frio, choque... talvez tudo ao mesmo tempo. Abro os olhos devagar, respirando fundo, e a primeira coisa que vejo é o prédio.

O hotel.

Aquele hotel.

Uma sombra enorme, antiga, decadente... como se tivesse sido abandonado às pressas por alguém que sabia que nada de bom sobreviveria ali dentro. As janelas são buracos negros. As paredes parecem úmidas, sujas, vivas. O lugar inteiro parece respirar.

E eu juro que, por um segundo, penso que teria preferido que eles me deixassem cair da moto.

Os outros motores desligam atrás de mim, um por um, quebrando esse silêncio sufocante. Os quatro param lado a lado, como se tivessem ensaiado cada movimento. Capacetes pretos. Roupas pretas. Invisíveis. Inacessíveis.

Eu não tenho certeza se isso está acontecendo de verdade ou se meu cérebro está tentando me proteger, me deixando tudo distante, borrado, como um sonho ruim do qual eu ainda não acordei.

— Anda. — A voz atrás de mim é baixa, firme. Distante. Como se não fosse direcionada a mim, mas ao meu medo.

Eu nem reconheço. Ou talvez reconheça, mas não quero.

O corredor do hotel fede a poeira, mofo e lembranças. E enquanto me puxam para dentro, uma coisa me atinge com força: eles sabiam exatamente o que estavam fazendo. Tudo calculado. Tudo ensaiado. Tudo planejado com calma.

E eu sei o que isso significa.

Eles estão no controle.
Completamente.

A porta fecha atrás de nós com um estrondo seco que ecoa dentro de mim como um aviso — ou uma sentença.

Minhas mãos suadas escorregam contra o tecido do vestido. Meu vestido. Meu vestido de noiva. Branco, limpo, perfeito... ridículo. Parece uma piada cruel ver algo tão puro em um lugar como esse.

Eu não consigo impedir a onda quente que sobe pela minha garganta. De raiva. De pânico. De humilhação.

— Por favor... — minha voz sai fraca, como se tivesse medo de existir. — Eu... eu só quero saber o que está acontecendo.

Um deles se vira devagar. A postura muda. Os ombros tensos. O ar fica pesado. E mesmo sem ver os olhos por trás do capacete, eu sinto a presença dele me atravessar.

Fria.

Conhecida.

Assustadora.

Meu coração dispara tão rápido que começo a achar que vai quebrar meu peito de dentro pra fora.

Não sei qual deles é.
E isso me apavora ainda mais.

O silêncio deles me diz mais do que qualquer ameaça.
Eles não entraram ali para conversar.

Eu engulo seco. O gosto metálico do medo se instala na minha boca.

E pela primeira vez desde que isso começou, eu percebo:

Eu estou completamente sozinha.
E eles vieram preparados.

O som que quebra o silêncio é tão sutil que quase passa despercebido.
Um clique.
Depois outro.
E mais outro.

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