bem-vindos de volta

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Presente


Thunder Bay. Um nome que deveria soar como lar, mas pra mim sempre carregou o gosto amargo do que ficou mal resolvido. Cresci aqui. Vivi coisas que marcaram minha pele e minha alma. Algumas boas... outras, eu preferia apagar da memória. E mesmo depois de tudo, é como se essa cidade tivesse me marcado com ferro quente. Sempre que volto, é como se os fantasmas saíssem dos cantos para me lembrar que nada ficou no passado de verdade.

Hoje, eu voltei.

Não por vontade própria. Mas porque minha mãe sabe manipular como ninguém. Primeiro, me ligou com aquele tom doce forçado. Depois, plantou sementes em Leon, que apareceu com todo seu charme e senso de dever pra me convencer a comparecer ao jantar de família. Como sempre, ela venceu.

– Então, Leon, como andam os negócios? – pergunta meu pai, girando a taça de vinho antes de dar o último gole.

– Tudo caminhando muito bem. Meu tio tem sido um trunfo aqui em Thunder Bay, o que facilita as operações em Meridian – Leon responde com aquele sorriso confiante.

– Evans vive para o trabalho. Parece que virou o refúgio dele. – minha mãe comenta, fingindo um pesar que não convence ninguém.

– Ou talvez uma obsessão por poder. – solto, sem esforço para disfarçar o tom.

Eles riem. Eu, não. Porque não é piada. Evans é movido por uma necessidade doentia de controle. Vi isso no olhar dele naquele maldito jantar anos atrás. Desde então, sei que ele não parou de escalar essa obsessão. Só ficou mais perigoso.

– E então? Quando oficializamos a união de vocês dois? – meu pai lança com a casualidade de uma bomba-relógio.

Engasgo. O vinho arde no nariz e me faz lacrimejar. Sinto o rosto ferver. Sempre soube que meu pai adorava ultrapassar limites, mas isso... isso foi cruel.

– Bem... só depende da sua filha – Leon responde com naturalidade, como se estivéssemos apenas decidindo o sabor do bolo de casamento.

Todos olham pra mim. Me encaram. Esperando o quê, exatamente? Que eu diga "sim"? Que eu sorria e finja que sei o que sinto? Eu não sei. E isso me consome.

– Ainda é cedo pra esse tipo de conversa – consigo dizer, puxando o foco. – Aliás, Leon, você não ia visitar o seu tio?

Ele levanta da mesa, dá um beijo rápido em mim e sorri:

– Claro. Volto antes da meia-noite.

Mal sabe ele o que vai acontecer antes disso.

Depois de um banho longo e demorado, estou deitada no meu velho quarto. A única parte da casa que ainda me traz certo conforto. Mesmo aqui, onde vivi coisas boas, a sensação de estar sendo observada nunca desaparece por completo.

São dez da noite.

Coloco o celular na cabeceira, mas uma notificação me faz pegar o aparelho de volta.

Número desconhecido.

"Você fica realmente linda com esse pedaço de roupa, vermelha."

Congelo.

Meu pijama... é vermelho.

O choque é instantâneo. Meu estômago revira. É alguma brincadeira? Alguém sabe exatamente o que estou vestindo. E está me observando agora.

Ergo o braço lentamente para acender o abajur, mas... sinto o colchão afundar do meu lado.

Congelo.

Meus pelos se arrepiam como se uma rajada de vento tivesse invadido o quarto. Eu sei que tem alguém ali. Sentado na minha cama. A centímetros do meu corpo.

Meu coração lateja no pescoço.

– Leon? – minha voz falha, quase implora por uma resposta lógica.

Silêncio.

Só o som do outro lado da cama cedendo novamente. O intruso... se deita.

Não posso me mover.

– A reunião com seu tio... deu tudo certo? – tento me convencer de que é Leon.

Nada.

Sinto seu cheiro. Cigarro e bebida. Evans. Ou... algo pior. Meus olhos se ajustam à escuridão. Não vejo o rosto. Só... a presença. Quase como uma sombra densa.

De repente, seus dedos gelados tocam meu rosto. Tão frios que parece queimei. Eles descem até minha boca, desenham meus lábios, como se tivesse olhos na ponta dos dedos. Meu corpo não obedece, apenas... reage.

Fecho os olhos. Por um instante me deixo levar pelo toque. Ele desliza pelos meus cabelos, minha clavícula, e então... o toque se torna íntimo, quase cruel de tão lento. E eu não consigo mais pensar. Só sentir. O corpo reage, se aquece. Meus pensamentos se afogam entre prazer e medo. Há algo errado nesse toque.

Ele vai fundo demais, conhece demais.

– Não pare – ordeno, confusa, entre desejo e pânico.

Ele ri. Uma risada baixa, rouca, perigosa.

Mas então...

Passos. No corredor.

A porta range. A luz invade o quarto.

Leon entra.

– Leon?! – engasgo, olho pro lado. Nada. Apenas o lençol revirado.

– Que porra tá acontecendo aqui? – ele pergunta.

– Tinha alguém aqui! Na cama comigo! – grito, saindo correndo, trêmula.

Meus pais invadem o quarto. Perguntas, caos, confusão. Mas nada explica o que acabei de viver.

– Eu... tenho prova – digo, pegando o celular e mostrando a mensagem.

Meu pai empalidece.

– Claire, liga pra polícia. Agora.

Leon, ainda abalado, solta:

– Meu tio me chamou hoje pra conversar... era urgente.

– Sobre o quê? – pergunto, ainda com a respiração acelerada.

– Michael. Ele... saiu da cadeia.

O mundo gira.

Michael Crist está solto.

Não consigo raciocinar. Só consigo lembrar do toque. Daquela presença no escuro.

Eu devia estar em pânico. Mas estou... feliz?

Não. Não posso.

Esses nomes me assombraram por anos: Damon Torrence. Kai Mori. Will Grayson. Michael Crist. Eles arruinaram minha vida.

E agora... eles estão de volta.

– As câmeras! – minha mãe grita. – Vamos checar!

Corremos para a sala de segurança. Meu pai soca o teclado assim que vê a tela.

– Estão desligadas. Todas. – diz, a voz encharcada de raiva.

– E as gravações? Antes de serem desligadas? – pergunto.

– Apagadas. Tudo.

Eles pensaram em tudo. Como sempre.

Eles estiveram aqui. Comigo.

E eu senti. No corpo. Na pele. No cheiro.

Agora não é mais só paranoia.

É real.

Eles voltaram.

 Sinful Night Onde histórias criam vida. Descubra agora