fragmentos

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Presente

Bella

Eles me olham. Todos eles. Centenas de olhos grudados em mim, como se esperassem uma resposta. Como se esse momento fosse meu — quando tudo em mim grita que não é.

O mundo ao redor parece desfocado. A única coisa que vejo com nitidez é o brilho do anel na caixinha preta e as mãos do Leon, firmes, seguras, decididas.

Como ele pode estar tão certo?

Meu coração bate errado. Fora de ritmo. Meu corpo todo treme, mas por fora eu permaneço estática, travada. Não é emoção. Não é surpresa. É pânico.

E ali está ele. Ajoelhado diante de mim, sorrindo como se fôssemos o casal do ano. Como se eu estivesse feliz. Como se tudo fosse verdade.

Mas tudo dentro de mim está em ruínas.

Não é só pela surpresa. É por saber que eles estão aqui. Eles.

Consigo sentir o peso do olhar deles, mesmo sem precisar virar o rosto. Consigo sentir o calor da raiva deles que atravessa o salão como uma corrente invisível. Eu sei que eles estão ali. Me assistindo. Me julgando. Me desejando morta.

Minha respiração falha.

— Você aceita se casar comigo? — Leon pergunta, tão doce, tão ensaiado.

Não consigo falar.

Não consigo mentir na frente de todo mundo.

Não consigo dizer sim.

Mas também não consigo dizer não.

Então eu fico ali.

Paralisada.

E ele — como sempre — decide por mim.

Leon pega a minha mão com firmeza e desliza o anel pelo meu dedo como se eu tivesse dito sim. Como se o meu silêncio fosse um consentimento. Como se o meu corpo congelado fosse um gesto de amor.

E então ele se levanta e me beija.

Forte.

Invasivo.

Falso.

As palmas ao redor ecoam como socos na minha mente. Gritos de comemoração, aplausos, risos — como se estivéssemos num conto de fadas. Mas meu corpo tá duro, minha garganta apertada, e meus olhos procuram desesperadamente por eles.

Michael. Damon. Kai. Will.

Eles estão lá. Observando. Incendiando tudo com o olhar.

E naquele segundo, em meio ao beijo de Leon, entre os aplausos e o caos e a raiva e o medo... eu sou consumida por uma única certeza:

Eles não vão deixar isso passar.

E eu não vou sair viva desse jogo.

As mãos tocam meu braço. Palavras se amontoam nos meus ouvidos, mas nenhuma delas entra de verdade.

"Parabéns, Bella! Que surpresa linda!"
"Você tava radiante!"
"Esse anel é maravilhoso, menina!"

Eu não consigo sorrir.
Não consigo agradecer.
Não consigo sequer respirar direito.

Leon segura minha cintura com força, como se quisesse colar o meu corpo no dele, como se quisesse me manter firme... sob controle.

Ele sorri por mim.
Ele agradece por mim.
Ele acena, ri, aperta mãos. Faz o papel que ele mesmo escreveu pra mim — e me jogou no meio do palco sem sequer me avisar.

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