das cinzas

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Presente

Will

O cheiro do álcool ainda grudava em mim quando empurrei a porta do hotel podre da família do Michael. O ranger dos dobradiços enferrujados cortou o silêncio abafado como uma navalha. Meus passos ecoaram no corredor escuro, úmido, e por um segundo, achei que estava entrando em um túmulo.

— Finalmente, o palhaço voltou — resmungou Kai, do sofá rasgado, girando um copo vazio na mão.

Damon estava encostado na parede, de braços cruzados, olhos estreitos. Michael caminhava de um lado pro outro, o maxilar travado, com aquela expressão de quem estava prestes a explodir e destruir o mundo com as próprias mãos.

— Onde você tava? — Michael perguntou, sem nem olhar pra mim.

— Tava dando um oi pra noivinha da noite — respondi, jogando as chaves em cima da mesa. O som do metal batendo na madeira seca foi mais alto que eu esperava.

Os três me encararam. Um silêncio pesado. Tenso. Raivoso.

— Você viu ela? — perguntou Kai, a voz grave, carregada de veneno.

— Vi. No bar. Do jeitinho que vocês podem imaginar... com aquele anel brilhando no dedo, como se a porra de tudo fosse um conto de fadas.

Damon bufou. Ele chutou uma cadeira velha e ela caiu com um estrondo, se quebrando num canto.

— Isso não é só sobre ela. É sobre o Leon. Sobre o velho desgraçado. Eles tão armando alguma coisa — rosnou Michael.

Me encostei na parede, os ombros pesando mais do que eu gostaria de admitir. O gosto dela ainda tava na minha boca. A lembrança daquela maldita aproximação. Da boca dela tão perto da minha. Da forma como o olhar dela vacilou por um segundo... entre o medo e o desejo.

— Eu queria entender como ela consegue — murmurei. — Como ela consegue mexer com a gente desse jeito depois de tudo que fez.

— Porque a gente deixou — Kai respondeu, com um sorriso cínico. — E a culpa é nossa por não ter arrancado esse veneno da pele logo de uma vez.

— Ela não é mais a mesma — soltei. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Mas, merda... nem a gente é.

Um silêncio desconfortável caiu sobre a sala. Eu sabia o que eles estavam pensando. Eu também estava pensando. A gente voltou, mas não trouxe o que ficou pra trás. Só os ossos.

Michael finalmente parou de andar e nos encarou.

— Aquele pedido de casamento... aquilo foi um recado. Do Leon. Do meu pai. Eles querem marcar território. Mostrar que a Bella é deles agora. Mostrar que eles têm o controle.

Damon aproximou-se, com o olhar gelado.

— Isso só prova que a guerra começou. E eles não fazem ideia do que está por vir.

— Então a gente vai começar por onde? — perguntei, afundando no sofá, sentindo o peso da noite me engolir.

— Por todos eles. Mas principalmente... — Michael pausou, e seus olhos arderam com algo mais sombrio que ódio — ...pelo meu pai.

Ninguém respondeu.

Porque todo mundo ali sabia.

A guerra já tinha começado.

E a Bella, no meio disso tudo... ainda era a ferida aberta que nenhum de nós conseguia cauterizar.

— A gente não pode agir por impulso — Michael disse, com os olhos fixos em mim, como se soubesse que eu estava a um estalo de explodir. — Não agora. Não ainda.

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