segredos

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Presente

Bela

Parece que, de repente, eu tenho dezessete anos de novo.
E tudo volta — o medo, a insegurança, o desespero, o nojo. Tudo.
E, pelo visto, meus pais também se sentem assim, porque desde o momento em que soubemos da soltura dos meninos, eles vêm criando mil planos para me manter longe desta cidade. Longe deles.

Espero ter colocado um ponto final nesse assunto ontem, quando subi pro quarto pra dormir.
Espero que eles não toquem mais nesse assunto hoje.

— Como você está? — Leon pergunta assim que saio do banheiro.
Tive que tomar um banho longo e demorado, tentando relaxar a mente e aliviar a tensão que insiste em me acompanhar.

— Ótima. Melhor impossível. — Respondo com sarcasmo.

— Vem cá. — Ele me puxa gentilmente para a cama. Sento entre as pernas dele.
— Você sabe que eu não vou deixar eles te machucarem de novo, né? — diz, afagando meu cabelo.

— Não estou com medo. — Tento parecer convincente.

Mas é mentira.
Eu queria acreditar nas minhas próprias palavras, mas não consigo.
Durante esses três anos, tentei me convencer de que, quando eles saíssem, provavelmente nem se lembrariam mais de mim. Que eu tinha sido apenas um momento. Uma distração.
E acho que teria sido... se eu não tivesse ido àquele julgamento.

— Você não precisa ser forte o tempo todo — ele murmura, me abraçando. — Às vezes, precisa deixar que os outros cuidem de você também. — Ele me dá um selinho suave.

— Obrigada. — Retribuo com outro, breve.

Leon me aperta mais forte e começa a me beijar com calma, mas há um peso ali, algo contido. A mão dele desliza pela minha coxa, tentando subir por baixo da toalha.
Desde ontem à noite, não tivemos nenhum tipo de contato íntimo.
Não depois que meu quarto foi invadido.

Eu não consegui.
Simplesmente não consegui mais tocar nele da mesma forma.
Não depois de saber que eles estavam soltos.
Desde então, tenho a sensação de estar sendo observada o tempo todo — e o simples pensamento me paralisa.

— Vamos descer pra tomar café. Meus pais já devem estar esperando a gente. — Digo, levantando-me da cama, me afastando dos braços dele.

Vejo o desapontamento em seu rosto, mas Leon sabe respeitar meu espaço e meu tempo.
Ele nunca insistiria.
Nunca forçaria nada.
Leon sempre foi assim — compreensivo, paciente, quase bom demais pra mim.

Descemos para a sala de jantar e, como imaginei, meus pais já estavam à mesa tomando café.

— Bom dia! — Eu e Leon cumprimentamos ao mesmo tempo. Eles retribuem com um leve aceno.

Sentamos e começo a colocar algumas frutas, pão e bolo no meu prato. Sirvo um copo de suco de laranja e começo a comer.
Ninguém diz uma palavra. O silêncio é tão denso que chega a ser constrangedor. O ar parece pesado, desconfortável. Eu não sei como quebrar esse clima sem acabar tocando naquele assunto outra vez. Parece que tudo ficou mal resolvido ontem.

— Meu tio me ligou hoje cedo. Pediu para que eu e a Bela fôssemos jantar com ele esta noite. — Leon diz.

— Ela não vai. Peça para que ele venha até aqui. — meu pai responde, firme.

— Pai... — começo, mas ele me interrompe.

— Bela, sei que você já não tem mais dezessete anos e não é mais uma criança. Mas nem por isso deixou de ser nossa filha. — completa com a voz tensa.

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