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Me and you

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[Narrando Kurt]

Naquele momento, quando saí do elevador, pareceu-me que o tempo tinha parado. Sentia-me como a Alice no País das Maravilhas...
O Mateo, com um smoking branco de cortar a respiração e aquele enorme ramo de girassóis luminosos nas mãos, era tudo aquilo que eu sempre quis. Só já não sabia se era aquilo de que eu precisava.
Durante alguns segundos, limitámo-nos a olhar um para o outro. Depois, ele aproximou-se devagar e disse:

— Kurt, eu sei... eu sei que errei. Mas posso, por favor, dizer-te algumas coisas?
— Mateo...
— Deixa-me falar. Prometo que vou tentar ser breve.
— Podes. — respondi em voz baixa, à espera de descobrir o que mais ele poderia dizer que tornasse tudo menos negro, menos pesado, menos parecido com carvão.
— Aquela aposta foi ridícula. Eu sei que não existe desculpa possível, mas, caramba... eu era uma pessoa completamente diferente naquela altura. Era imaturo e estava destruído por dentro. Isso aconteceu antes de eu namorar com a Alison, e depois... eu simplesmente esqueci-me da aposta. Quando comecei a namorar contigo, já nem queria saber disso para nada, Kurt. Apaixonei-me pela tua excentricidade, pela tua maneira genuína e bonita de seres quem és. O teu espírito livre fez-me aceitar a parte de mim que me permitiu amar-te.

Ele fez uma pequena pausa antes de continuar:
— E acredita... aceitar-me como bissexual não foi fácil. Não por tua causa, mas porque toda a equipa de futebol tinha expectativas em relação a mim. Em relação ao homem que eu devia ser. E... sinceramente, eu nunca abri o meu coração desta maneira. Nunca como agora, ao dizer-te tudo isto.

Fiquei em silêncio durante alguns segundos. Sentia-me paralisado, incapaz de perceber o que devia dizer ou até sentir. O coração doía-me, mas, ao mesmo tempo, transbordava pelo Mateo. Apenas por ele.
Ao perceber que eu não respondia, ele voltou a falar:
— Tudo o que eu quero... tudo o que sempre quis... é continuar a amar-te e provar-te, todos os dias, que sou digno do teu amor. Se me disseres adeus agora, uma parte de mim vai morrer. Mas, mesmo assim, eu vou aceitar... se achares que isso é o melhor para ti. Se achares que o melhor é ficares longe de mim...
— Mateo... eu estou sem palavras. O que acabaste de dizer era tudo aquilo que eu precisava de ouvir. E eu amo-te tanto. Sei que tu também me amas, mas... já não sei se isso chega. — disse, enquanto o levava até à vista panorâmica sobre toda a cidade do amor. — O nosso amor é muito forte, mas, desde que estamos juntos, parece que surgem sempre mil obstáculos. Sempre mais um problema. Mais uma ferida.
— E o facto de o nosso amor ser imperfeito faz com que não valha a pena lutar por ele?
— Talvez. Será que aquilo que é fácil e tranquilo não acaba por ser melhor? Mais calmo... menos tóxico para os dois?
— Eu não acho. Acho que, depois da tempestade, vem sempre o sol. E sinto que connosco vai acontecer o mesmo...
— Mas tu nem sempre és sincero comigo. O assunto do teu pai é um bom exemplo disso.

O olhar dele perdeu imediatamente o brilho.

— Kurt... é verdade que nunca te falei do meu pai. Mas foi porque, para mim, o importante era conheceres as minhas mães. Elas são o meu pilar. São as pessoas que me permitem ser quem sou. Mas eu posso falar-te dele.

Inspirou fundo antes de continuar:
— O meu pai chamava-se Alfred Miro. Era o melhor amigo das minhas mães, e os três decidiram ter um filho juntos. Eu cresci com três progenitores... até aos meus catorze anos. Ele morreu de enfarte nos meus braços.

Senti o meu peito apertar-se.

— E sabes o pior, Kurt? A culpa foi minha. Eu podia ter ligado para o 112... mas não consegui. Fiquei paralisado como um cobarde. E deixei uma das melhores pessoas da minha vida morrer ali, à minha frente.
— Mateo, tu não tens culpa nenhuma. Além de seres apenas um miúdo naquela altura... tu paralisaste. Não sabias o que fazer naquele momento, e isso é humano. Podia ter acontecido a qualquer um de nós. Lamento mesmo que tenhas passado por algo tão pesado... tão injusto. — disse eu, enquanto lágrimas nos começavam a escorrer pelo rosto, profundas e azuis como o oceano. — Eu também já encontrei a minha mãe em overdose e demorei a reagir. Por isso, acredita em mim quando te digo que entendo. É normal. Agora... abraça-me.

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